Finanças

Correios contratam consultoria por R$ 57 milhões para plano de reestruturação em meio à crise

Contrato permanece sob sigilo, mas fontes apontam que o estudo inclui possibilidade de transformar a estatal em sociedade de economia mista

Agência O Globo - 13/05/2026
Correios contratam consultoria por R$ 57 milhões para plano de reestruturação em meio à crise
Correios - Foto: Reprodução

Enfrentando uma crise financeira sem precedentes, os Correios contrataram a consultoria McKinsey para desenvolver estudos de reestruturação da estatal. O contrato, no valor de R$ 57 milhões, foi assinado em 28 de abril.

A McKinsey já havia sido contratada anteriormente, durante a gestão do ex-presidente Fabiano Silva dos Santos, para estruturar um empréstimo internacional junto ao Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), conhecido como Banco dos Brics, presidido por Dilma Rousseff. No entanto, a operação ainda não avançou.

O contrato atual está sob sigilo, mas pessoas próximas ao processo afirmam que o documento aborda inclusive a possibilidade de transformar os Correios em uma sociedade de economia mista. Esse modelo prevê a combinação de capital público e privado, mantendo o controle acionário e de gestão sob o governo.

Essa alternativa já vinha sendo considerada pelo governo como parte da última fase do plano de reestruturação da estatal, quando deverão ser implementadas medidas com foco no longo prazo.

Procurada, a empresa confirmou a contratação e informou que o acordo tem como objetivo a prestação de serviços de consultoria técnica especializada para elaboração e apoio à implementação da “Fase 3” do Plano de Reestruturação dos Correios, contemplando o reposicionamento da empresa no mercado.

“Dessa forma, a contratação da consultoria externa prevê a realização de diagnósticos organizacionais, definição de diretrizes estratégicas, modelagem de cenários e proposição de medidas estruturantes voltadas ao aumento da eficiência operacional, sustentabilidade econômico-financeira e adequação do modelo de negócios aos desafios atuais enfrentados pela empresa”, destacou a estatal.

Segundo os Correios, a contratação foi realizada por dispensa de licitação devido à notória especialização da consultoria para execução de serviços técnicos de alta complexidade e caráter estratégico, com preços fundamentados em relatório de auditoria independente.

Sobre a contratação anterior, a empresa explicou que ela tinha como objetivo a estruturação técnica do projeto de financiamento internacional, cuja proposta está em fase final de negociação com o NDB (Brics).

Os Correios acrescentaram que a necessidade de consultoria externa para o plano de transformação se deve à convergência de fatores que excedem a capacidade de formulação interna.

Crise sem precedentes

Os Correios encerraram 2025 com um prejuízo de R$ 8,5 bilhões. Em 2024, o resultado negativo foi de R$ 2,6 bilhões. A estatal acumula 14 trimestres consecutivos de prejuízo, sequência iniciada no quarto trimestre de 2022.

Segundo a empresa, o principal fator para o resultado negativo do ano passado foi o pagamento de precatórios, despesas decorrentes de decisões judiciais. A receita bruta em 2025 foi de R$ 17,3 bilhões, uma queda de 11,35% em relação ao ano anterior.

No final de 2024, os Correios conseguiram um empréstimo de R$ 12 bilhões, com garantia do Tesouro Nacional. O valor foi praticamente todo depositado em 30 de dezembro.

Para enfrentar a crise, a empresa passa por um processo de reestruturação. Contudo, uma das principais apostas para a recuperação financeira — o plano de demissão voluntária (PDV) — teve adesão de cerca de 3 mil funcionários, segundo balanço parcial da estatal.

O número representa apenas 30% da meta de desligar 10 mil trabalhadores, necessária para economizar R$ 1,4 bilhão em despesas com pessoal a partir do próximo ano. O PDV teve duração de cerca de dois meses.