Finanças

Genial afirma que bloqueio de R$ 176 milhões se refere a 'estruturas usuais de mercado' e não traz 'impacto operacional'

Procuradoria de SP confirma ação cautelar contra o banco, em ação que corre em segredo de Justiça; Áster e Copape, clientes da instituição, respondem por suspeita de sonegação, lavagem de dinheiro e crime organizado

Agência O Globo - 04/05/2026
Genial afirma que bloqueio de R$ 176 milhões se refere a 'estruturas usuais de mercado' e não traz 'impacto operacional'
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A Procuradoria-Geral do Estado de São Paulo (PGE/SP) obteve na Justiça o bloqueio de R$ 176 milhões em recursos garantidos ao Banco Genial Investimentos. A medida cautelar fiscal é desdobramento da Operação Carbono Oculto, deflagrada pela Polícia Federal em 28 de agosto de 2025 para investigar a infiltração do crime organizado no setor de combustíveis. O banco de investimentos afirma que o bloqueio se refere a 'estruturas usuais de mercado' e não traz 'impacto operacional'.

Genial, BK Bank, Reag:

Crime:

O alvo central da investigação são os controladores das distribuidoras Áster e Copape. Segundo os documentos que O GLOBO teve acesso, uma rede de postos abastecida pelo grupo chegou a movimentar R$ 54 bilhões, arrecadando apenas R$ 90 milhões em tributos, o equivalente a 0,17% do faturamento. A dívida fiscal perseguida pela PGE/SP soma R$ 7,6 bilhões em ICMS, já acrescidos de juros e multas.

“Trata-se de ação proposta pela Procuradoria Geral do Estado de São Paulo (PGE/SP), no âmbito da Operação Carbono Oculto, e que se encontra em segredo de Justiça”, afirma o órgão da Fazenda sobre o caso, veiculado inicialmente pelo portal UOL.

Para garantir a cobrança desse passivo tributário, a Procuradoria seguiu o caminho percorrido pelo dinheiro localizado nas investigações. O caso começa no fundo MABRUK II, administrado pela gestora Reag, do empresário João Carlos Mansur. Foi através desse fundo que a organização criminosa adquiriu o controle societário das usinas Itajobi e Carolo, ambos no interior de São Paulo.

O fluxo financeiro rastreado pelo pesquisador pelo MABRUK II, por meio de contas mantidas na BK Instituição de Pagamento SA, totalizou exatamente R$ 175,9 milhões, cifra que corresponde ao valor do bloqueio agora executado.

A BK teria desempenhado papel logístico central no esquema: uma empresa oferecia o serviço de “contas bolsões”, cujos recursos de diferentes clientes eram depositados e compensados ​​numa única conta bancária, criando uma camada de opacidade para dificultar o rastreamento pelos sistemas antilavagem.

Além de adquirir as usinas, o MABRUK II foi utilizado para a compra de debêntures de empresas próprias de fachada do grupo, numa transferência circular de capitais que inclui R$ 190 milhões em papéis da Insight Participações, R$ 30 milhões da Rede Sol Fuel e R$ 20 milhões da Ciclone Gestão.

Genial entra em cena

No segundo semestre de 2024, quando a Reag cerrou sua atuação junto às estruturas do grupo, o Banco Genial passou a administrar o Fundo Radford, herdando uma arquitetura financeira que, segundo o pesquisador, já nascia contaminada. Sob a gestão da Genial, o fundo teria recebido cerca de R$ 100 milhões extraídos da Usina Itajobi.

A estrutura incorporada incluía ainda um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) de aproximadamente R$ 500 milhões, atrelado a uma carteira de crédito consignada do Banco Master, e um empréstimo concedido à própria usina, formalizado por meio de emissão de cédula de crédito.

Uma decisão judicial direta proferida na Comarca de Catanduva foi ao determinar o sequestro e a indisponibilidade dos bens e valores ocultados da Usina Itajobi junto ao Radford Fundo de Investimento, administrado pelo Banco Genial SA Na data da operação policial, a instituição já havia emitido nota à imprensa comunicando a renúncia à prestação de serviços de administração do portfólio, alegando que o fundo fora entregue um ano antes e fora estruturado por outra instituição.

As investigações revelam ainda que as fraudes da Copape e da Áster foram além da sonegação. O grupo inflava artificialmente os preços dos insumos negociados entre as duas empresas para gerar créditos de ICMS indevidos, enquanto a distribuidora fornecia diesel às usinas do grupo e recebia etanol para revenda no mercado.

Pela razão dessas irregularidades, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) cassou as licenças de operação de ambas. Para evitar a concessão, as empresas foram formalmente encerradas em julho de 2024 e retiradas pela Duvale Distribuidora de Petróleo, sucessora da Áster, e pela Rodopetro Distribuidora de Petróleo, que centralizaram as operações e passaram a repassar combustível importado a quantidades de novas distribuidoras controladas por interpostas pessoas.

Em nota, o banco Genial Investimentos afirmou que não figura como investigado na Operação Carbono Oculto e que sua participação no caso decorre exclusivamente da atuação como administradora fiduciária de um fundo específico, tendo prestado todos os esclarecimentos solicitados às autoridades.

Segundo a instituição, uma medida cautelar fiscal foi movida pela PGE/SP contra empresas do setor de combustíveis, não sendo o Banco Genial parte na ação fiscal. O banco acrescentou que os valores atingidos pelo bloqueio estão sendo tratados pelas vias processuais cabíveis e que as operações envolvem "estruturas financeiras usuais de mercado, com utilização de instrumentos como CDBs e CCBs no contexto de operações de crédito estruturado".

A instituição negou ter relação societária ou ingerência nas atividades operacionais das empresas mencionadas e garantiu que não há impacto nas operações nem no atendimento a seus clientes.

NOTA:

“O Banco Genial possui mais de 15 anos de atuação no mercado financeiro, com trajetória de crescimento consistente, tendo alcançado mais de 3 milhões de clientes e mais de R$ 280 bilhões em ativos sob custódia, pautando sua atuação pelos mais elevados padrões de governança, controles internos e estrita observância das exigências regulatórias aplicáveis às instituições financeiras.

A instituição não figura como investigada na Operação Carbono Oculto. Sua participação no caso decorre da atuação como administradora fiduciária de fundo de investimento específico, tendo prestado os esclarecimentos solicitados às autoridades competentes, com as quais vem colaborando desde que tomou conhecimento dos fatos.

A medida cautelar fiscal mencionada insere-se em processo em curso, no âmbito cível, movido pela Procuradoria-Geral do Estado de São Paulo contra empresas do setor de combustíveis, não sendo o Banco Genial parte na ação fiscal. Ainda assim, a medida atingiu valores relacionados ao referido fundo, por decisão judicial que está sendo tratada pelas vias processuais cabíveis. Trata-se de processo que tramita sob sigilo, o que limita o detalhamento público de determinadas informações.

As operações mencionadas envolvem estruturas financeiras usuais de mercado, com utilização de instrumentos como CDBs e CCBs no contexto de operações de crédito estruturado, nos termos da regulamentação aplicável.

O Banco não possui relação societária nem ingerência nas atividades operacionais das empresas citadas, atuando exclusivamente nos limites de suas funções reguladas.

Não há impacto operacional nem no atendimento aos clientes, e as atividades seguem sendo conduzidas normalmente. O Banco reafirma seu compromisso com a transparência, integridade e cumprimento das obrigações regulatórias.”