Finanças
Governo Trump convida Brasil para coalizão de minerais críticos e amplia disputa estratégica com a China
Gestão Lula ainda reúne elementos técnicos e políticos para avaliar o alcance do convite e suas implicações estratégicas
O governo dos Estados Unidos, sob a gestão de Donald Trump, convidou o Brasil a integrar uma nova coalizão internacional voltada ao fornecimento, à mineração e ao refino de minerais críticos. A proposta apresentada por Washington envolve parcerias para garantir o acesso a insumos como lítio, grafita, cobre, níquel e terras raras, além da criação de mecanismos de preço mínimo, com o objetivo de oferecer maior previsibilidade ao mercado e reduzir a volatilidade.
A informação foi confirmada por integrantes do governo brasileiro. Um interlocutor com acesso às tratativas afirmou, no entanto, que, neste momento, o governo Lula ainda reúne elementos técnicos e políticos para avaliar o alcance do convite e suas implicações estratégicas.
O movimento está associado ao chamado Projeto Vault (Projeto Cofre), anunciado por Trump, que prevê a criação de um fundo de US$ 12 bilhões para formar uma reserva estratégica de terras raras e outros minerais considerados essenciais para os setores de tecnologia e defesa da indústria americana. A iniciativa se insere em um contexto geopolítico mais amplo, marcado pela tentativa dos EUA de reduzir o peso da China, que hoje detém posição dominante não apenas na mineração, mas sobretudo no refino mundial desses minerais estratégicos.
Em Brasília, a abordagem tem sido cautelosa. O governo brasileiro enfatiza a recusa ao papel de mero exportador de matérias-primas brutas e sustenta que qualquer acordo nesse campo deve estar associado ao desenvolvimento da cadeia de valor no país, com investimentos em refino, beneficiamento e agregação de valor à produção interna.
Nesta quarta-feira, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que o governo americano trabalha para formar uma ampla coalizão internacional voltada à diversificação das cadeias globais de suprimento de minerais críticos, hoje fortemente concentradas em um único país. Segundo ele, a iniciativa envolve atualmente 55 parceiros — 54 países e a União Europeia — e permanece aberta à adesão de novos integrantes.
— O objetivo aqui é muito simples: todos entendemos que cadeias globais confiáveis de minerais críticos e de materiais processados são essenciais para tudo o que fazemos — disse.
Para Rubio, a dependência excessiva de um único fornecedor representa riscos econômicos, industriais e geopolíticos.
— No pior cenário, isso pode ser usado como instrumento de pressão geopolítica; em outros casos, basta uma pandemia ou instabilidade política para provocar grandes disrupções — acrescentou.
O secretário atribuiu a atual concentração da mineração e, principalmente, do refino a práticas de concorrência consideradas desleais.
— Um competidor estrangeiro entra no mercado, reduz artificialmente os preços por meio de subsídios estatais e torna o investimento privado economicamente inviável — afirmou, observando que o mesmo fenômeno ocorre na etapa de processamento, o que afasta investidores e reforça a dependência global.
Em nenhum momento do discurso Rubio citou nominalmente o Brasil, embora tenha ressaltado que a coalizão envolve países de diferentes regiões e que outros ainda podem aderir à medida que o projeto avance. Ainda assim, o interesse de Trump pelo aumento das aquisições de minerais críticos e estratégicos é acompanhado com atenção pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo setor de mineração brasileiro. Ao adotar uma estratégia agressiva sobre o tema, o republicano já ameaçou tomar a Groenlândia da Dinamarca e tenta pressionar a Ucrânia, em guerra contra a Rússia, a ceder direitos de exploração mineral.
Dos 51 produtos dessa área importados pelos Estados Unidos, o Brasil possui reservas de diversos minerais relevantes, como cobre, lítio, silício e terras raras. Esses insumos são considerados fundamentais para o desenvolvimento econômico e tecnológico.
O nióbio, por exemplo, é essencial para a indústria siderúrgica, viabilizando ligas leves e resistentes de aços avançados, além de aplicações em materiais magnéticos e supercondutores. O lítio é estratégico para o armazenamento de energia em baterias usadas em carros, aviões, celulares e também em tecnologia nuclear. O silício é insumo-chave para chips de computadores, semicondutores, células solares e vidros especiais.
A transição energética demanda volumes crescentes de cobre para a construção de usinas eólicas e redes de transmissão. Já as terras raras, um grupo de 17 elementos químicos, são indispensáveis para a produção de smartphones, computadores, veículos elétricos e equipamentos militares.
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