Finanças
Países da América Latina concordam que precisam de integração regional: desafio é sair do discurso
Chefes de Estado latino-americanos reunidos no Fórum do CAF no Panamá foram unânimes sobre necessidade de união, mas especialistas e o Nobel Juan Manuel Santos alertam para a urgência de ações concretas
Sete chefes de Estado e um presidente eleito que participaram do Fórum Econômico Internacional da América Latina e do Caribe, na semana passada, na capital panamenha, destacaram a necessidade urgente de ampliar a integração regional para que os países possam crescer economicamente em meio à crise do multilateralismo. O consenso foi considerado um avanço por especialistas, porque demonstra que o pragmatismo das relações comerciais e fronteiriças deve predominar sobre as visões políticas e ideológicas dos líderes latino-americanos. Contudo, ainda há dúvidas se o discurso vai sair do papel e virar um conjunto de ações concretas.
Bioeconomia e urgência:
Sem diferenças:
— O que ouvimos nesta conferência, com todos os presidentes, é: temos que nos unir, temos que nos integrar. Isso estamos ouvindo há anos, mas não se traduz em fatos concretos — afirmou o economista e ex-presidente da Colômbia Juan Manuel Santos, autor de acordo de paz que lhe rendeu o Prêmio Nobel da Paz em 2016.
A palestra de Santos no Fórum teve tom de alerta:
— Há um ditado: do dito ao feito, há um longo ou curto caminho. Temos que encurtar esse caminho, temos que estar conscientes de que não podemos continuar falando da necessidade de integração, das oportunidades da América Latina, sem chegar ao concreto. Tomara que esses presidentes que estiveram aqui falando, e os que não estiveram, tenham a capacidade e a liderança de passar do dito ao feito. De outra forma, a América Latina continuará sendo irrelevante e, neste mundo que está se reorganizando, continuaremos marginais.
James Robinson:
O fórum organizado pelo CAF, Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe, reuniu autoridades, líderes empresariais e especialistas de 70 países. Entre os chefes de Estado, estiveram presentes e discursaram José Raúl Mulino, presidente do Panamá; Luiz Inácio da Silva (Brasil); Rodrigo Paz (Bolívia); Gustavo Petro (Colômbia); Daniel Noboa (Equador); Bernardo Arévalo (Guatemala); Andrew Holness, primeiro-ministro da Jamaica; e José Antonio Kast, presidente eleito do Chile.
— A convergência dos presidentes com relação ao pragmatismo foi muito positiva. E o fórum se coloca agora como uma agenda permanente de discussões da região. Então, as pessoas que pensam a região, os investidores, os políticos passam a ter esse evento na sua agenda anualmente, assim como tem o Davos na Suíça — avalia Fernanda Cimini, do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).
Além da questão da cooperação regional, houve debates sobre logística e infraestrutura, mudanças climáticas, inteligência artificial e mercado de trabalho, além da necessidade de um união entre os países no combate ao narcotráfico.
'Seguir divididos nos torna frágeis':
— Vamos ver se as disposições saem do discurso e entram para a prática; se deixam de ser algo mais emblemático e pontual e se tornam de fato uma atuação coordenada dos países — afirma Gilberto Braga, do Ibmec-RJ.
Participação empresarial
Fernanda Cimini destacou a participação de lideranças empresariais no evento.
— Não sei se isso vai se reverter em aumento de comércio, mas não foi um fórum somente de políticos falando. Eram empresários tratando da importância das relações de investimento e comércio na região. Isso já é um diferencial. O CAF conseguiu trazer um público mais empresarial e isso ajuda a ter uma visão mais pragmática — disse Fernanda, que participou do evento.
Números positivos
Na primeira rodada de negócios entre empresários de países da América Latina e do Caribe após dois dias reuniões, a estimativa de tratativas comerciais fechadas superou os US$ 72 milhões (cerca de R$ 375 milhões).
Artigo:
A projeção inicial é do CAF – Banco de Desenvolvimento de América Latina e do Caribe, que promoveu o encontro como parte do Fórum Econômico Internacional realizado na capital panamenha.
Os números das negociações de empresários brasileiros ainda estão sendo calculados, mas o resultado foi muito positivo, na opinião de Constanza Negri, gerente de Comércio e Integração Internacional da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
— Mais de dez participantes estiveram em cerca de 70 reuniões, nos setores de alimentos e bebidas, serviços e agroindústria. Voltamos dessa missão com uma avaliação muito positiva. O Fórum, em termos gerais, veio a preencher uma necessidade latente de um ponto de encontro para fortalecer a integração econômica da região — disse Constanza.
Computação quântica vai mudar a forma como nos comunicamos?
Segundo o CAF, durante os dois dias do evento foram realizadas mais de 4 mil reuniões de negócios, com uma média de mais de 20 encontros por empresário.
— O sucesso da mesa-redonda empresarial demonstra que a América Latina e o Caribe possuem uma oferta de exportação competitiva, capaz de ingressar nos mercados globais. Este fórum se tornou um dos principais pontos de encontro de negócios da região, gerando novas oportunidades comerciais e fortalecendo as cadeias produtivas — afirmou Sergio Díaz-Granados, presidente-executivo do CAF.
Na avaliação de Constanza, da CNI, no Fórum predominou uma visão muito pragmática sobre a integração econômica, com os países entendendo que todo mundo ganha com esse processo na região:
— Para ir além do intercâmbio comercial, os debates foram na direção de que se avancem uma integração mais profunda, estratégica, para diversificar suas parcerias econômicas, começando pela região, pela vizinhança. Isso ficou muito claro no Fórum.
A representante da CNI avalia que o Brasil ainda tem uma tarefa de avançar com Peru, Equador e México no âmbito bilateral.
Comércio 2.0
Durante o Fórum, o presidente fez uma visita oficial ao presidente José Raúl Mulino, do Panamá quando foram assinados acordos para facilitar cooperação e investimentos.
James Robinson:
— Foi criada uma comissão para seguir com as tratativas de acordos comerciais — informou Constanza.
A gerente da CNI diz que o Brasil já conseguiu redução de tarifas para o comércio de bens, mas a situação atual leva para outras dimensões de trocas que vão muito além da simples venda de produtos, que incluem serviços, investimentos e compras governamentais.
— É no comércio 2.0 que precisamos avançar. A segunda complexidade é a integração física e logística que ainda está pendente e onde há grandes oportunidades. Aprofundar a integração em qualquer contexto de maior ou menor volatilidade no mundo gera ganhos para todos — diz.
No comércio 2.0 está incluída a transição digital, tanto de hardware como de software, e a educação profissional necessária para essa transformação, citada por Constanza como um dos principais temas presentes nas discussões.
Mais lidas
-
1TRABALHO
Calendário de 2026 concentra feriados em dias úteis e amplia impacto sobre a gestão do trabalho
-
2SERVIÇO
IPVA 2026 RJ: confira o calendário de vencimentos por final de placa
-
3EDUCAÇÃO E VALORIZAÇÃO PROFISSIONAL
Proposta reduz jornada de professores da educação básica para 30 horas semanais
-
4TRIBUTOS
IPVA 2026: Primeira parcela ou cota única começa a vencer nesta quarta-feira; confira como pagar
-
5EMPURRANDO COM A BARRIGA
MP convoca prefeita de Palmeira dos Índios por descumprir cronograma de concurso público