Finanças
Por que Trump achou 'ótimo' o dólar cair? Entenda o que o 'Acordo de Mar-a-Lago' pode ter a ver com isso
Estratégia de enfraquecer a divisa segue cartilha de economista que defende reposicionar a moeda americana, que é a reserva de valor do mundo, no sistema global
A fala despreocupada do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com a desvalorização do dólar — a ponto de classificar a queda da moeda americana como "ótima" — reacendeu o alerta de que sua política econômica pode ir além das tarifas comerciais e chegar ao centro do sistema financeiro internacional.
Entre investidores, chegou a ganhar força a leitura de que o Tesouro americano poderia intervir no mercado cambial de forma coordenada, especialmente com o governo japonês, para valorizar o iene e reduzir a atratividade dos títulos americanos, derrubando ainda mais o dólar.
Mais tarde, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, esfriou as especulações de que o país poderia intervir no mercado cambial para vender dólares e comprar ienes, desacelerando a queda da moeda americana no mundo. Mas por que Trump quer tanto um dólar fraco?
Toda essa estratégia pode ser interpretada a partir da cartilha do "Acordo de Mar-a-Lago", uma referência a uma espécie de articulação comercial, monetária e diplomática nos EUA que buscaria reposicionar a moeda americana no sistema global - com algum paralelo ao Acordo do Plaza, de 1985, quando as cinco maiores economias do mundo (EUA, Japão, Alemanha Ocidental, França e Reino Unido) concordaram em desvalorizar o dólar de forma combinada.
A ideia é que, com um dólar fraco, seria possível aumentar a competitividade da indústria americana, reduzir o déficit comercial e reindustrializar o país. Essa espécie de receituário é encabeçada por Stephen Miran, ex-assessor econômico de Trump e hoje diretor do Federal Reserve (Fed, banco central americano).
Miran é autor de um documento chamado “A user’s guide to restructuring the global trading system” (“Guia para reestruturar o sistema de comércio global”, em tradução livre) - que voltou a circular nas redes após os movimentos desta semana - e sugere uma estratégia nada convencional para elevar o protagonismo dos EUA frente ao ordenamento global, em sintonia com a filosofia de "América em primeiro lugar".
No documento, Miran prescreve três frentes a serem adotadas por Trump em seu segundo mandato: subir as tarifas comerciais, forçar uma desvalorização do dólar e reduzir os juros pagos pela dívida pública americana - essa considerada um ônus pelos EUA emitirem a moeda que é reserva de valor e referência mundial.
Trump há anos acusa outros países de manterem taxas de câmbio mais fracas para favorecer exportações, e o secretário do Tesouro, Scott Bessent, vem destacando a distinção entre o preço do dólar e seu papel como moeda de reserva global. O comentário foi um sinal verde para os operadores venderem dólar - e precisou até que o próprio secretário baixasse o termômetro nesta quarta-feira depois que a moeda aprofundou a queda.
Bessent disse que os EUA “absolutamente não” estão intervindo no mercado cambial para fortalecer o iene. No entanto, quando questionado sobre a possibilidade de ação no câmbio, o secretário disse que não comentaria. O iene despencou após essas declarações e caía cerca de 0,7%, para 153,34 por dólar, às 10h37 em Nova York.
O iene tem passado por uma volatilidade enquanto a primeira-ministra do Japão, a conservadora Sanae Takaichi, tenta impulsionar a economia japonesa que há tempos têm taxas baixas de crescimento. O país, historicamente, mantém juros negativos ou próximos de zero e sua moeda tem o papel de financiamento do chamado "carry trade". Na prática, investidores pegam empréstimo barato em iene e aplicam o recurso nos EUA, o que fortalece o dólar.
Agora, paira a dúvida entre os agentes econômicos se haverá algum tipo de ação coordenada para permitir uma intervenção cambial que enfraqueça o dólar frente o iene, euro ou ao yuan. Para Luiz Carlos Delorme Prado, professor do Instituto de Economia da UFRJ, fazer um movimento cambial coordenado, com algum paralelo com o que foi o Acordo do Plaza, seria muito mais complexo hoje.
— Sou um pouco cético. Embora as relações entre EUA e Europa estivessem estressadas depois do fim de Bretton Woods, aquele era um momento de transformação da economia mundial. Hoje, você tem um presidente americano que está batendo de frente com a Europa — avalia. — Do ponto de vista financeiro é possível, mas do ponto de vista político não é tão claro. Não é um momento que facilita a negociação.
Outro ponto incerto diz respeito sobre a própria capacidade do BC americano de liderar ou articular essa intervenção - já que o atual presidente do Fed teve processo aberto na Justiça, foi até investigado (explicar melhor), então não está claro qual será a continuidade da relação do Trump com o Fed.
Outra incerteza diz respeito à própria capacidade do Federal Reserve de liderar ou articular uma intervenção desse tipo. O atual presidente do banco central americano enfrenta críticas de Trump e é alvo de uma investigação criminal, o que lança dúvidas sobre a estabilidade de sua relação com a Casa Branca e reduz capacidade de o país negociar com os demais.
— Como se faz política monetária nessa circunstância? — questiona Prado.
Risco de crise do sistema financeiro
Pela rapidez e pela forma como o Trump vem conduzindo o tema, o temor dos analistas é que escale falta de confiança na moeda e nos títulos do Tesouro americano. Tudo isso num mundo que já anda bastante incerto e volátil, com tensões geopolíticas. Parte desse receio de um desarranjo monetário mais amplo já preocupa organismos multilaterais.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) já se prepara para um cenário de crise do dólar americano e até incentiva a dívida da União Europeia como uma alternativa segura, segundo o portal IDN Financials. A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, disse que o órgão simula diversos tipos de cenários de estresse com "eventos impensáveis", incluindo uma possível fuga de ativos em dólar, diante da incerteza gerada pela política comercial americana e dos ataques à independência do Fed.
— O mundo que conhecemos, baseado num conjunto de regras criadas sob a liderança americana no pós-guerra, está sendo abandonado pelo próprio país que liderou esse processo. Essa é a gravidade da situação. E não há outra arquitetura pronta para ser posta no lugar — diz Prado, da UFRJ.
— Tudo está sendo encaminhado nas relações bilaterais segundo os desejos voláteis do governo americano. Se essa transição (de um dólar mais fraco) ocorrer de forma lenta, pode até favorecer os EUA e aumentar sua competitividade industrial. Mas se isso for rápido, vai ter um efeito sobre a inflação muito grande e, no limite, pode levar a uma crise financeira — conclui.
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