Finanças
Vorcaro admite crise de liquidez e revela que modelo do Banco Master era totalmente dependente do FGC
Fundo Garantidor de Créditos terá de desembolsar cerca de R$ 45 bilhões com liquidação de instituições do grupo
O empresário Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, reconheceu em depoimento à Polícia Federal que a instituição enfrentou uma grave crise de liquidez e que seu modelo de negócios era inteiramente sustentado pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), responsável por cobrir parte das perdas de investidores em caso de problemas em bancos.
“O plano de negócio do Banco Master era 100% baseado no FGC e não havia nada de errado nisso, essa era a regra do jogo”, afirmou Vorcaro.
O FGC é um fundo privado, mantido por contribuições das instituições financeiras. Os maiores bancos são responsáveis pelas maiores parcelas dos aportes.
Vorcaro admitiu a “crise de liquidez” e atribuiu o cenário a mudanças regulatórias no funcionamento do fundo. “Essa mudança pressionou a captação do banco, porque todo o plano de negócio desde 2018, que a gente entregou para o Banco Central, era baseado no FGC”, explicou.
Ao ser questionado se o FGC teria alertado o Banco Central sobre eventuais problemas no Master antes da decretação da liquidação, respondeu: “Eu não tenho conhecimento disso”. Em seguida, relatou perceber “uma aversão do FGC pela utilização do FGC”, que, segundo ele, se manifestava em propostas de alteração regulatória.
As declarações foram dadas no âmbito do inquérito que apura suspeitas de irregularidades envolvendo o Banco Master. A venda da instituição ao Banco de Brasília (BRB) foi barrada pelo Banco Central, que posteriormente decretou a liquidação extrajudicial do Master.
As falas de Vorcaro ocorrem no momento em que o FGC já desembolsou R$ 26 bilhões a credores do Banco Master. No total, o fundo deve arcar com cerca de R$ 45 bilhões devido à liquidação do Master e do Will Bank, também integrante do grupo. Esse valor equivale a aproximadamente 40% do patrimônio do FGC. Agora, as instituições financeiras discutem formas de recapitalizar o fundo.
Segundo o FGC, até o final da tarde de sexta-feira, foram pagos valores a 521 mil investidores com aplicações elegíveis à garantia, o que corresponde a 67,3% da base de clientes com direito ao ressarcimento. Ao todo, o fundo já disponibilizou pouco mais de 66% do montante total previsto para pagamento.
Os desembolsos começaram em 19 de janeiro e se intensificaram após ajustes nos sistemas, conforme informou o FGC, que atualmente processa cerca de 2,8 mil solicitações por hora. O fundo destacou que, por questões de segurança e prevenção a fraudes, algumas liberações podem passar por etapas adicionais de verificação, o que pode impactar prazos individuais.
No mesmo comunicado, o FGC estimou em mais R$ 6,3 bilhões o valor a ser assegurado aos credores do Will Bank, banco digital do mesmo conglomerado do Master e que também teve liquidação decretada pelo Banco Central. O fundo ressaltou que, por se tratar do mesmo grupo financeiro, o teto de garantia de R$ 250 mil por cliente não é multiplicado entre as instituições.
O Banco Master oferecia Certificados de Depósito Bancário (CDBs), investimentos de renda fixa conhecidos por rendimentos acima da média do mercado. Além disso, grande parte dos recursos captados pelo Master era aplicada em ativos considerados ilíquidos — ou seja, que não podem ser rapidamente convertidos em dinheiro —, como carteiras de crédito e precatórios. Essa estrutura limitava a capacidade do banco de gerar caixa no curto prazo, agravando o problema de liquidez para remunerar os investidores.
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