Esportes
Congolês leva Lumumba à Copa e celebra legado pan-africanista
Michel Nkuka Mboladinga faz “estátua viva” em homenagem ao líder congolês e chama atenção para guerras e exploração no país africano
No meio da euforia nas arquibancadas da Copa do Mundo de 2026, uma imagem tem chamado atenção: a de um homem negro imóvel, com a mão erguida. A performance do torcedor Michel Nkuka Mboladinga encarna Patrice Lumumba, ex-primeiro-ministro da República Democrática do Congo e símbolo da luta anticolonial na África.
Durante as partidas, o congolês reproduz nos estádios da América do Norte a mesma pose da estátua de Lumumba instalada em Kinshasa, capital do país africano.
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Na terça-feira (23), Mboladinga levou sua “estátua viva” ao jogo entre a República Democrática do Congo e a Colômbia, em Guadalajara, no México. Antes, ele tentou entrar nos Estados Unidos para acompanhar a estreia de sua seleção na Copa, mas foi barrado em razão da epidemia de ebola que afeta o Congo.
Sem o visto norte-americano, Mboladinga deve retornar a Kinshasa, onde vive, e assistir ao próximo jogo dos Leopardos, como é conhecida a seleção congolesa. A partida será no sábado (27), contra o Uzbequistão.
Mesmo ausente do restante da Copa, o ex-padeiro e torcedor já transmitiu sua mensagem ao rememorar o legado de Lumumba e representar a insurgência dos povos africanos, avalia Maria do Carmo Rebouças, coordenadora do Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo, da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).
“A trajetória de Lumumba expressa a luta ativa [dos países] pela autodeterminação, pela soberania política, pelo controle dos próprios recursos e, consequentemente, pelo próprio futuro”, afirmou a pesquisadora.
Para Maria do Carmo, a performance Lumumba Vive é “um gesto simples que carrega todo o continente” — e por isso Mboladinga tem conquistado admiradores.
A pesquisadora avalia que a performance desloca o futebol do campo do entretenimento para o da reflexão sobre o legado do passado colonial.
O ato também confronta movimentos que tentam apagar a memória das lutas anticoloniais, como ocorreu quando a Federação Internacional de Futebol (Fifa) vetou a camisa da seleção do Haiti na Copa por causa de uma referência à independência do país caribenho.
“Esse fã sustenta uma imagem silenciosa, mas com grande peso: a de que o Congo não esqueceu, a de que a África não esqueceu, e a de que a independência política, sem soberania econômica e no modo de pensar, é inconclusa”, explicou Maria do Carmo, em entrevista à Agência Brasil.
O professor de História da África da Universidade Federal Fluminense (UFF), Felipe Paiva, acrescenta que Mboladinga também reverencia outras trajetórias de luta anticolonial no continente africano.
O pesquisador lembra que vários líderes nacionalistas seguiram caminhos semelhantes aos de Lumumba e também foram assassinados. Entre eles estão Thomas Sankara, em Burkina Faso, e Amílcar Cabral, em Cabo Verde, país que disputa sua primeira Copa do Mundo em 2026.
“As independências africanas foram conquistadas com muito sangue, suor e lágrimas”, afirmou Paiva.
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Guerra esquecida
Em referência ao cenário atual, no jogo contra a Colômbia, Mboladinga se moveu uma única vez: levou um dedo à têmpora e colocou a mão esquerda sobre a boca. O gesto fez alusão ao silêncio da comunidade internacional diante da situação no país africano, marcado por guerras e pela pilhagem de recursos naturais.
O mesmo gesto tem sido repetido por jogadores espalhados pela diáspora africana para chamar atenção para o Congo. Um deles é Nico Williams, espanhol de ascendência ganesa.
“Essa mensagem alerta o mundo sobre o que o Congo está passando”, observa o professor de História da África da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o angolano Nuno Carlos de Fragoso Vidal. “Esta é uma guerra esquecida, com milhares de mortos ao longo de anos, muita ingerência externa, pilhagem e descaso da comunidade internacional”.
Quem foi Lumumba?
Lumumba foi o primeiro governante do Congo eleito democraticamente após a independência da Bélgica, em 1960. Por suas ideias, tornou-se símbolo do pan-africanismo, movimento que defende a união dos povos africanos.
Para Lumumba, a riqueza do país em recursos naturais deveria ser administrada em favor dos congoleses. Após sua morte, porém, o Congo mergulhou em décadas de conflitos pelo controle da exploração mineral.
Até hoje, o país sofre com guerras internas em torno dessas riquezas, o que agrava crises como a do ebola e mantém a população em situação de pobreza. Para participar da Copa, a delegação congolesa precisou cumprir quarentena por causa do surto da doença.
Ao defender os interesses de seu país, Lumumba desagradou potências estrangeiras. Em meio às tensões da Guerra Fria, embora defendesse a neutralidade, foi assassinado com a cumplicidade de autoridades da Bélgica e dos Estados Unidos, sob acusação de manter relações com a União Soviética. Seu corpo foi dissolvido em ácido, na tentativa de impedir o reconhecimento e evitar que ele se tornasse mártir.
Após pressão, em 2022, a Bélgica reconheceu “responsabilidade moral” no crime e devolveu à família de Lumumba um dente com coroa de ouro, guardado como relíquia por um policial.
Na época, o então primeiro-ministro belga, Alexander De Croo, declarou à imprensa: “Esta é uma verdade dolorosa e desagradável, mas que precisa ser dita: um homem foi assassinado por suas convicções políticas, suas palavras, seus ideais”.
Responsabilidade de Bélgica, Brasil e EUA
A Bélgica tem uma longa história de dominação no Congo, iniciada nos anos 1880, quando o rei Leopoldo II governou o território como um feudo pessoal, com assassinatos e mutilações deliberadas contra quem se opusesse ao enriquecimento da família real.
Pelos anos de dominação e pelos crimes cometidos, o professor Nuno Vidal, da UFRJ, defende que a Bélgica deveria atuar, como forma de reparação, pelo fim das guerras na ex-colônia.
“Para se responsabilizar, [a Bélgica], por exemplo, poderia demonstrar mais interesse na situação e liderar uma agenda internacional que busque uma solução de paz e desenvolvimento”, avaliou Vidal. Ele reforça que a economia congolesa permanece baseada no extrativismo, parte de um ciclo de subdesenvolvimento e exploração.
Por terem recebido grande número de pessoas negras, Brasil e Estados Unidos também deveriam se somar ao enfrentamento do legado da colonização na África, argumenta o professor.
“Países formados pela diáspora, onde essas comunidades têm peso, têm a obrigação moral de pautar essa agenda, de tentativa e solução para os problemas do continente”, afirmou. “E o Congo é um dos casos mais dramáticos hoje”.
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