Curiosidades
Pianista paraibano grava 366 composições de Hermeto Pascoal
Projeto do Instituto Piano Brasileiro leva Uaná Barreto a gravar todas as músicas de ‘Calendário do som’, que o Bruxo criou entre 1996 e 1997; primeiros registros já estão nas plataformas
Entre junho de 1996 e junho de 1997, Hermeto Pascoal (1936-2025) criou uma música por dia. Foram 366 composições, porque ele, ao final, fez uma dedicada a 29 de fevereiro. O “Calendário do som”, como foi batizado pelo artista, nunca tinha sido gravado na íntegra. Agora está sendo.
A convite do Instituto Piano Brasileiro, o pianista paraibano Uaná Barreto vem interpretando todos os temas. Os relativos a janeiro, fevereiro, março e abril já foram lançados nas plataformas de áudio. O de maio sairá em dezembro. A previsão é que a empreitada esteja completa em 2029.
O projeto é uma iniciativa do pianista e pesquisador Alexandre Dias, que há 11 anos criou o IPB e, com o “Calendário”, lança o selo da instituição.
— A mente do Hermeto era indecifrável, mágica. Não à toa era chamado de bruxo. No “Calendário” são pílulas de alma brasileira — diz ele, lembrando que o compositor classificou o que fazia de “música universal brasileira”. — Era uma vontade minha homenagear o Hermeto do ponto de vista do universo do piano. Ele foi um grande pianista. É claro que todo mundo sabe que ele tocava de tudo, mas é importante também reconhecerem o Hermeto pianista.
Um repertório a divulgar
Alexandre diz que seu sonho de ver todo o “Calendário” gravado é “megalomaníaco”. Mas Uaná topou o desafio, que teve apoio do mecenas Marcelo Ferman. O conjunto tinha sido lançado em livro de partituras em 2000. Depois, recebeu registros parciais — nenhum de Hermeto, que liberou os direitos autorais para quem quisesse tocar a obra. Em 2005, Itiberê Zwarg, braço direito de Hermeto, lançou um álbum duplo com 27 faixas.
Para Uaná, a maior dificuldade foi entender a caligrafia do compositor nas partituras. Em algumas passagens, a escrita ficava tão pequena que era preciso usar lupa.
— A ideia original era só tocar. Mas também quis escrever os arranjos para piano como forma de difundir o repertório e tornar essa partitura mais convidativa para os vários tipos de pianistas que existem no Brasil e no mundo — explica ele.
Para cada dia do ano, Hermeto escrevia uma frase sobre a música feita — frases que inspiraram o artista Pedro Francisco a desenhar as capas dos álbuns. Podiam ser palavras poéticas, lembranças de alguém e, às vezes, ele indicava o gênero em que via a composição: xote, choro etc. Quando não havia nada, Uaná criava um caminho.
— Guardadas as proporções, é como se fosse pegar um prelúdio de Bach, porque ele não dava indicação de dinâmica, de andamento, só de tonalidade e a escrita. É quase um convite para que o intérprete coloque o seu pensamento. Era um desejo do Hermeto que aquilo não fosse reproduzido matematicamente, que o intérprete colocasse a sua personalidade — afirma Uaná.
Alexandre destaca que o pianista precisou fazer muitos “preenchimentos”, por causa das lacunas deixadas pelo autor.
— É muito difícil rotular o Hermeto. Na minha cabeça, fica pulando entre áreas: música de concerto, jazz, choro, música nordestina, música instrumental brasileira, tudo o que é ritmo. O “Calendário” é chamado de Bíblia da harmonia. Mas também é uma Bíblia dos ritmos — diz Alexandre.
A cada quatro meses, Uaná, que mora em João Pessoa e dá aulas em Natal, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, se desloca até Recife para gravar no estúdio Carranca, de Carlos Borges. Em quatro horas, interpreta 20 peças, na ordem das datas. No momento, está em 9 de junho.
Na adolescência, Uaná, que tem 33 anos, conheceu a obra de Hermeto e, segundo diz, começou a “ouvir incansavelmente”, sobretudo o disco “Brasil universo”, de 1986. Logo chegou ao “Calendário do som”.
— Algumas coisas eu já tinha tocado antes do convite do Alexandre. Na pandemia toquei a do meu aniversário e as de aniversários de amigos. Nunca imaginei que gravaria na sua integralidade. Foi um verdadeiro presente — conta ele, que já fez oficinas com Itiberê e com André Marques, que era pianista da banda de Hermeto.
‘Entre maiores pianistas’
Uaná é filho do violonista e compositor Adeildo Vieira, que tem quatro discos lançados. Ainda toca com ele, ao lado de seu irmão Rudá Barreto. Também faz parte do conjunto de música instrumental Alamiré. Tem formação clássica, mas é professor de piano popular. Faz arranjos para piano de autores populares como Guinga.
— Uaná é um dos maiores pianistas do Brasil hoje. O virtuosismo e a complexidade rítmica são impressionantes — exalta Alexandre, que já havia encomendado ao pianista uma sonata, gravada por Uaná no álbum solo “Vaga-lume”, de 2024.
Há vários arranjos de Uaná na página do IPB no YouTube. Nela são publicadas vídeo-partituras, que permitem aos músicos ouvir gravações enquanto leem as pautas. Alexandre publica mais de uma por dia.
Em Brasília, o instituto guarda e digitaliza acervos de pianistas, entre eles Nelson Freire e Arthur Moreira Lima. Em seu site cataloga discos (414 no momento), gravações (391) e partituras (10.155). Alexandre estimula que instrumentistas de hoje gravem composições até então não gravadas. Diz que já catalogou criações de quase mil compositores, sendo cerca de 200 vivos. O projeto é mantido por assinantes.
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