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Ópera: 'Don Carlo' de SP se mostra fiel a Verdi, mas exagera na neutralidade

Encenação de Caetano Vilela trouxe ótimo elenco e bom impacto visual, mas excessiva fidelidade não aproveita brechas dramatúrgicas.

Agência O Globo - 27/09/2026
Ópera: 'Don Carlo' de SP se mostra fiel a Verdi, mas exagera na neutralidade
Ópera: 'Don Carlo' de SP se mostra fiel a Verdi, mas exagera na neutralidade - Foto: Reprodução / Instagram

Caetano Vilela e Roberto Minczuk tinham em "Don Carlo" um problema enorme pela frente. Uma ópera reputada como a música mais densa de Giuseppe Verdi (1913-1901), mas também dona de uma dramaturgia interna extremamente mal resolvida, fruto de múltiplas versões e cortes e feita de episódios esparsos, sem que se sugira claramente ao público quem é o príncipe que dá nome à peça. Pelo texto de Joseph Méry e Camille du Locle, musicado por Verdi e depois traduzido para o italiano, trata-se de um nobre que perdeu para o pai, o rei Felipe II, sua noiva prometida, Elisabetta de Valois (Aylin Pérez, soprano, que se revela com Ludmilla Bauerfeldt). Nas horas vagas, Don Carlo (o tenor Atalla Ayan, alternando-se com Matheus Pompeu) trama uma conspiração freudiana contra o pai pela liberdade do povo de Flandres, ao lado de Rodrigo, marquês de Posa (o barítono Paulo Szot, ou Michel de Souza). Nada além disso.

Para as 270 horas de espetáculo de uma história fraca, revestida de uma partitura plenamente justificada, é necessária uma encenação visualmente potente e uma compreensão de andamentos musicais que envolvam o espectador e compensem aquilo que falta em "Don Carlo", uma obra historicamente imperfeita e com um punhado de versões aceitas no repertório. É muito diferente de uma "Tosca" ou de uma "Traviata", obras que se impõem sozinhas pelas marcações que trazem.

O caso é razoavelmente semelhante ao de "Salvador Rosa", ópera de Carlos Gomes que passou décadas desaparecida até ser apresentada neste ano – em coprodução do Teatro Amazonas, que a sediou em abril, e do Municipal do Rio, em julho – dentro de uma coprodução encenada por Julianna Santos e regida por Luiz Fernando Malheiro. "Salvador Rosa" teve sua partitura fabulosamente reconstruída pelo trabalho do Instituto Música Brasilis, de Rosana Lanzelotte, e foi extremamente bem cantada por Marcello Vannucci, Vinicius Atique e Carolina Morel. Embora tenha música de alto nível, revelou-se uma ópera chata, longa, com um enredo repleto de clichês, e isso é culpa apenas de Carlos Gomes.

Uma das poucas chaves de compreensão para o vácuo que é o personagem de Carlo está nas intensas declarações de amizade entre o príncipe e Rodrigo. Basta entendê-las como algo que extrapola a amizade, graças a versos de forte carga devocional, para não dizermos erótica, tais como "Este coração, que tanto te ama, não sabe se fechar a você", dito por Carlo no terceiro ato, apenas para citar um de muitos – e essa interpretação de bromance já repercutia na peça original de Friedrich Schiller (1759-1805). Contudo, Verdi, como Schiller, não deixou qualquer endosso registrado para sua ópera. Teria sido um trunfo para Rodrigo, um personagem manipulador que se torna intensamente sedutor quando encarnado por um barítono como Szot, astro de musicais internacionais como "Hadestown"; no entanto, Vilela declarou antes da estreia, ao repórter Ubiratan Brasil, que deixou essa camada homoerótica intencionalmente de fora, talvez até para evitar uma leitura recorrente.

No momento atual do Municipal, que mudou de gestores em maio, a escolha não passa despercebida. Na gestão anterior, o Municipal de SP, a cargo da OS Sustenidos (que programou este "Don Carlo"), tópicos da atualidade eram intensamente ressaltados, com encenações que buscavam certo impacto no discurso político. A chegada do Instituto Baccarelli acenou aos paulistanos com uma trégua no ativismo e maior fidelidade às intenções originais das obras. No entanto, "Don Carlo" é uma obra de Verdi que se beneficia de olhares mais irreverentes, uma vez que seus cinco atos se revestem de solenidade, sem concessões ao humor. Apesar de acessórias, essas leituras enriquecem personagens que, fora a música, têm pouco estofo na origem.

Resta-nos buscar apoios no visual de um conto sobrenatural de tons lúgubres, que tem grandes trunfos visuais no cenário de Duda Arruk: principalmente no túmulo do rei Carlos V, que encerra a ópera, e na enorme coroa de espinhos que protagoniza a célebre cena do auto-da-fé no Ato III. Embora os grafismos que evocam a floresta de Fontainebleau não sustentem o interesse por muito tempo. Se a iluminação permanece uma das principais armas de Vilela, com efeitos gloriosos nas cenas de claustro e prisão, a opção por uma visão austera da corte espanhola, com os figurinos de Fabio Namatame, historicamente justificados em um preto abundante, deixou os 270 minutos do espetáculo um pouco mais monótonos. No grandioso Auto-da-Fé, em que vemos os réus da Inquisição, o excesso de roupas negras à boca do palco deixou uma sensação de oportunidade perdida para mais movimentos do coro, que, em termos vocais, se apresentou muito bem.

No entanto, Don Carlo é uma ópera de elenco, e aqui nada a reclamar: são seis papéis abundantes em exigências, que mais uma vez mostraram o excelente momento spinto do paraense Atalla Ayan e o refinamento de Paulo Szot, ambos sempre muito à vontade no repertório verdiano. Juntos, cantaram um "Dio, che nell'Alma Infondere" para as eras, que não deveu nada às grandes casas do mundo. A americana Aylin Pérez (como Elisabetta de Valois) começou com uma dicção não muito cristalina, mas sua performance vocal evoluiu a partir da metade, imprimindo um "Tu Che le Vanità Conoscesti" de excelente nível. O baixo Luiz-Ottavio Faria, como rei Felipe II, soube contar as diferentes nuances de um monarca paranoico, culminando com um tocante "Ella Gimmai M'Amò". Por fim, Ana Lucia Benedetti, como princesa Eboli, e o portentoso Solomon Howard, como o Grande Inquisidor, dotaram a récita da última quarta-feira de uma bela leitura de "O Don Fatale", da parte de Benedetti, e uma crueza autoritária volumosa no que coube ao baixo americano.

Regida por Minczuk, a Orquestra Sinfônica do Municipal de São Paulo se esbaldou nos ritmos espanhóis com que Verdi se delicia em tantas óperas ("O Trovador", "A Força do Destino", o Ato II de "La Traviata"). Houve, contudo, certa falta de energia nos andamentos a partir do fim do Auto-da-Fé, o que comprometeu os dois últimos atos de um espetáculo de 270 minutos e disparou alguns bocejos.

No todo, "Don Carlo" continua sendo uma construção monumental: um teste de fogo na escolha de elenco, pelo qual o Municipal de São Paulo passou com louvor, e uma ópera de encenação praticamente impossível se o objetivo for uma fluidez narrativa.

Cotação: Bom