Curiosidades

Em 'As cores do tempo', Cécile de France celebra sexta parceria com diretor Cédric Klapisch: 'É um humanista'

Vencedora de dois prêmios César, atriz belga foi revelada em 'O albergue espanhol'

Agência O Globo - 02/08/2026
Em 'As cores do tempo', Cécile de France celebra sexta parceria com diretor Cédric Klapisch: 'É um humanista'
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Se depender de Cécile de France, nenhum filme de Cédric Klapisch será rodado sem que ela garanta seu lugar no elenco. Desde a primeira parceria em “O albergue espanhol” (2002), é sempre uma atriz que toma a iniciativa e liga para o diretor querendo saber sobre seus novos projetos. No caso de “As cores do tempo” , comédia dramática em cartaz nos cinemas brasileiros, a insistência rendeu um papel secundário, mas decisivo para os rumores da trama.

Cécile ganhou dois prêmios César, o mais importante do cinema francês, em dois trabalhos com Klapisch: atriz revelação por “O albergue espanhol” em 2003 e atriz coadjuvante por “Bonecas russas” (2005). Nesta sexta colaboração com o diretor, a belga interpreta uma historiadora de arte que ajuda uma família a desvendar os mistérios de uma herança familiar surpreendente.

Exibido no Festival de Cannes deste ano, o longa alterna a Belle Époque francesa e os hiperconectados anos 2020 para aproximar passado e presente na história de quatro primos que herdam uma casa fechada desde 1944 e descobrem que sua história familiar está intimamente ligada ao nascimento do impressionismo.

Enquanto os herdeiros desencavam um arquivo de fotos, pinturas e cartas esquecidas na casa, acompanhamos paralelamente a jornada de uma de suas antepassadas, a jovem Adèle Meunier (Suzanne Lindon). Transitando por uma Paris repleta de novidades, ela vê os limiares de um novo mundo enquanto testemunha os primórdios da fotografia profissional e a chegada da eletricidade.

— Cédric é um diretor humanista, maravilhoso para atores, muito fiel às pessoas com quem trabalha. Ele me deixa trabalhar com muita liberdade, me fazendo inventar sem perder a substituição — diz Cécile, em entrevista por videoconferência.

A personagem de Cécile de France foi inspirada numa historiadora da arte conhecida por publicar vídeos sobre impressionismo no YouTube. Para evitar uma imitação caricata da figura real (cuja identidade ela prefere não revelar), a atriz afeta a única orientação de Klapisch: transtorno emocional. Mergulhou em livros, revistas e pesquisas sobre o impressionismo e a Belle Époque até acreditar, ela própria, na paixão de seu personagem pelo tema.

A preparação não era exatamente um território desconhecido. Em 2024, Cécile interpretou a pintora Marthe de Bonnard em “A Musa de Bonnard” , cinebiografia do artista Pierre Bonnard também ambientada no fim do século XIX. Durante as filmagens, a atriz chegou a aprender técnicas de desenho em pastel para dar mais veracidade à personagem.

Numa das cenas mais excêntricas de “As cores do tempo” , os primos e a historiadora alucinam uma viagem ao passado enquanto experimentam ayahuasca na casa familiar. Os dois espaços temporais do filme se encontram e a personagem de Cécile se vê em meio à polêmica Primeira Exposição Impressionista de 1874, defendendo Claude Monet das críticas. Foi nessa cena que a atriz recebeu o pedido de Klapisch por sinceridade:

— Quando o filme entra em outra dimensão temporal, a emoção do personagem ao perceber que está diante daquela época e daqueles pintores que sempre admiraram provavelmente será completamente verdadeira — diz ela. — Era necessário que eu realmente me emocionasse. Mais uma vez, Cédric acertou.

Sob a superfície da comédia, “As cores do tempo” propõe uma discussão sobre a forma como um país lida com seu patrimônio cultural. Enquanto os herdeiros discutem uma proposta de transformar a antiga casa da família num estacionamento, o diretor contrapõe a lógica da exploração comercial à ideia de um passado que continua vivo, capaz de dialogar com o presente em vez de permanecer congelado em museus ou cartões-postais.

Uma reflexão sobre memória, herança e transmissão tem um peso particular em Paris, cidade cuja identidade é construída em torno da preservação de sua história. Cécile se mudou para a capital francesa aos 18 anos e, mais de duas décadas depois, ainda se sente uma “convidada” , e acolhida por uma grande tradição artística e cultural.

— Sinto que tenho meu lugar ali como artista, numa cidade que reúne tantos artistas extraordinários — diz ela. — O bonito é que o Cédric, sendo um verdadeiro parisiense, transforma esse orgulho em algo positivo. Faz dele uma mensagem cheia de amor, de beleza, de poesia e de alegria. Não é uma atitude de dizer: “Fomos nós que inventamos tudo, que revolucionamos a pintura” . Ele o faz, como os impressionistas, de maneira humana, olhando para a vida cotidiana e para as pessoas comuns.

De férias no sudoeste da França, a cerca de 100 quilômetros de Girona, foco de incêndios florestais que atingem o país desde a semana passada, Cécile diz enxergar sua vida e sua carreira como uma travessia em dois tempos. Aos 51 anos recém-completados, ela se vê, como os personagens do filme, às portas de um novo mundo, ao mesmo tempo estimulado e preocupado.

— Tenho a impressão de que ao meio da vida — confesso. — É uma nova energia, um novo ciclo, em que também existe um desejo maior de transmitir. Ao mesmo tempo, nosso país está pegando fogo. Vivemos uma época de grandes transformações e ninguém sabe exatamente o que veio depois. Por isso não quero ser nem pessimista nem otimista.

Uma coisa, porém, é certa: em outubro, Cédric Klapisch começa a filmagem de seu novo longa, “L'amour sur Mars” , e não precisa dizer quem já está escalando.

— Estarei no filme, é claro — confirma Cécile. — Estou muito feliz.