Curiosidades

‘Tenho alma jovem, disposta a descobrir’, diz Fátima Bernardes

Jornalista e apresentadora fala da transição para a internet, revela o que aprendeu com os filhos e conta como aprendeu a conviver com crises de ansiedade

Agência O Globo - 27/07/2026

Sucesso. Esse será o tema da segunda temporada do "Cá entre nós", videocast apresentado por Fátima Bernardes e sua filha Bia Bonemer, no Youtube. Tudo a ver com a dona de uma das trajetórias mais sólidas e respeitadas do país, que parece estar sempre na melhor fase porque não tem medo de se reinventar. Foi em 2024, após 36 anos na TV, que a jornalista e apresentadora migrou para a internet. Criou o próprio canal, focou na produção de conteúdo para redes sociais e plataformas de streaming.

Antes, já havia se afastado das notícias do Jornal Nacional rumo ao entretenimento, quando mostrou todo o seu carisma, soltinha, no “Encontro”. Carisma que reitera no ambiente digital, ao qual se adaptou bem, como conta no videocast, que vai ao ar nesta segunda-feira (27), às 18h, no Youtube e no Spotify, numa entrevista em que também falou sobre o aprendizado com os filhos e o namoro com o político Túlio Gadelha. Leia um trecho:

Os diferentes pontos de vista, que são resultado da diferença geracional, foi um aspecto do sucesso da primeira temporada do videocast com sua filha...

“Vimos que funciona muito. E vou te dar o tema da segunda temporada: sucesso. Queremos discutir o que é o sucesso nos dias de hoje? Quem é sucesso para cada uma? Para a geração da minha filha, sucesso é diferente do que a minha geração almejava: aquela construção de carreira de anos na mesma empresa.”

O que Bia tem te ensinado?

“Quando estávamos discutindo sobre o programa, ela me disse: 'Mãe, nada do que eu disser será tão grave'. Muito diferente de mim, né? Porque a vida inteira eu sabia que tudo que eu dissesse era muito grave. Perguntavam a ela como era começar ao lado da mãe e ela disse: 'Ela também está começando, nunca fez Youtube'. Isso deixou mais leve para mim também.”

Laura, psicóloga, Vinicius, engenheiro, são de outras áreas, mas... Não ficaram com ciúmes do programa?

“Não! O Instagram da Laura é fechado. Para fazer uma foto já é um sacrifício. Vinícius nem Instagram tem. Se eu quisesse fazer um episódio com os três, não conseguiria.”

Se preocupava com seus filhos desenvolverem uma relação prazerosa com o trabalho e não se comportarem como herdeiros?

“Disso sempre tiveram certeza: não havia dúvida de que teriam que trabalhar. Meu maior sonho era que tivessem relação saudável com o trabalho. Eu tenho. Por mais que falemos de cobranças, dificuldades, eu tenho. Trabalho é fundamental para mim. É o que me dá energia. Nunca disse: 'A mamãe tá indo trabalhar para comprar presente, para ganhar dinheiro. Adoro o que eu faço e um dia também vão trabalhar em algo que gostem'. Quando eu já estava querendo mudar de vida, ouço da minha filha psicóloga: 'Mãe, já percebeu que você trabalha igual se estivesse começando sua carreira?'. Ela percebeu que eu estava começando a reclamar do que, até então, era muito prazeroso. Eu disse: 'Eita!, é isso, é aqui que está o erro'. E aí várias mudanças começaram a vir na minha cabeça.”

O que sentiu na hora?

“Quando dei um primeiro autógrafo. Estava num posto de atendimento na Av. Venezuela (Centro do Rio de Janeiro), às seis da manhã, e falei pra moça que me pediu: 'Mas eu não sou artista'. E ela: 'Eu sei, é a moça do jornal'. Achei que ela tivesse me confundido com alguém. Dei o autógrafo e falei: 'A coisa tá indo'. Claro que, depois, outros momentos suplantaram esse, mas ali foi uma percepção importante.”

“A vida inteira eu sabia que tudo que eu dissesse era muito grave.”

“Maria Rita.”

“Claudia Raia.”

Você já contou que tem esse medo de morrer e deixá-los pequenos?

“A vida inteira eu soube que tudo que eu dissesse era muito grave. Sempre tive muito medo de morrer e deixar filho pequeno, criei pânico de avião.”

“Se as crianças não tivessem, era cada um no avião. Se tivessem os cinco junto, sem problema, porque aí morria todo mundo. Fico tão feliz de vê-los. E acho que ainda faço falta para eles. A gente sempre acha que a gente vai ter uma importância, mas sei que tudo vai continuar funcionando, então isso me dá uma paz de espírito. E eu não sou mais tão dependente do bem estar deles para estar bem.”

Durante dois anos, precisei tomar uma medicação. Não tive problema. Se tivesse que tomar a vida toda, tomaria. É um ansiolítico, o mesmo remédio pode servir para depressão, mas se numa dosagem diferente para ansiedade. Foi justo no período em que estava elaborando a vontade de sair do JN para fazer outro programa e aquilo aumentou muito a minha ansiedade. Faço terapia. Entendi que não vou ser uma pessoa zen. Falar me ajuda.”

O que mais te surpreendeu na transição para a internet?

“O erro estar incorporado ao conteúdo. Não existe editar ou refazer. Errou, errou e segue em frente. Eu falei: 'Meu Deus do céu!'. Porque uma coisa é errar lendo uma notícia, você fala 'desculpa', e corrige. Outra, é deixar ali uma coisa gravada. Percebi que isso, aos poucos, que o erro aproximava as pessoas que estão em casa.”

Qual é a importância da representatividade para alguém que só acreditou ser possível estar no JN quando viu Lillian Witte Fibe na bancada?

“A gente não pensa naquilo e fala: 'Não é para mim, não sou eu que tenho que estar lá'. Quando Ingrid Silva decide pintar sapatilha para mostrar 'eu existo e não quero dançar com uma sapatilha que não é da cor da minha pele', faz a indústria se mexer. Fundamental ter alguém que sirva como referência.”

“Vi a Sandra Passarinho com casaco de pele fazendo de Londres. Eu, que nunca tinha nem saído do estado do Rio de Janeiro, falava 'nossa! Isso pode, que legal!'. Isso faz com que você consiga se imaginar, trabalhar e lutar por aquilo.”

Você consolidou essa imagem de credibilidade e confiança, o que também rendeu uma fama de certinha. Isso te incomoda? É verdade que nunca ficou bêbada?

“Nunca fiquei bêbada. Isso tem a ver com ansiedade. Detesto coisas das quais não tenha controle, não possa resolver. Me apavoram. A bebida tem esse medo da perda do controle. O que que vem quando perco o controle? Não estou disposta a saber. Acho que sou mesmo meio certinha. Minhas transgressões são outras, são no trabalho.”

Você segue com ética jornalística inabalável mesmo tendo migrado para o entretenimento. Tem consciência do papel que representa. Publicidade tem limite para você?

“Recebo muitos convites, mas acabo selecionando. Não queria virar uma banca de anúncios, não é o meu objetivo. Essa questão da postura, de equilibrar os dois lados... eu acredito na distribuição da informação. Quanto mais você oferece informação, mais municia a pessoa para ela tomar uma decisão por conta própria. Até para discordar.”

A questão geracional entre você e Túlio Gadelha, seu namorado, foi um abismo de referências ou uma troca alimentadora?

“A troca é muito boa. Ele tem uma vida muito diferente. Nunca fui repórter de política. Hoje, tenho um entendimento de coisas que via superficialmente. Acho que tenho uma alma muito jovem, muito disposta a descobrir e fazer coisas. Isso aproxima a gente. A gente é leve, sabe?”

“Ele me conta das reuniões, propostas, o que está pensando. Mas não preciso estar nesses palanques. Não é um compromisso meu com ele, que não espera isso de mim.”

“Quando estava no 'Encontro', que ainda tinha um pé no jornalismo, eu falava: 'Não, posso precisar me jogar’ e não quero nenhum tipo de ruído. Agora, é outro momento de vida. Mas não é minha área, não tem porque ficar me metendo nisso. Tenho as minhas opiniões, mas elas ficam aqui dentro.”