Curiosidades

Reunião em família embalada pela (boa) música

Marianna Leporace lança álbum nesta quinta-feira (23) em show que terá encontro inédito no palco com os irmãos Fernando e Gracinha, viúva de Sergio Mendes e cujo único disco solo, de 1968, chegou às plataformas

Agência O Globo - 23/07/2026
Reunião em família embalada pela (boa) música
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Marianna Leporace tinha apenas 2 anos quando sua irmã Maria da Graça partiu para os EUA. Gracinha Leporace integrou a Bossa Rio e, em 1970, entrou para o conjunto Brasil 66, do pianista e compositor Sergio Mendes, com quem ela se casou em 1974. Fez carreira lá, criou raízes em Los Angeles e nunca mais voltou a morar no Rio.

Após sobreviver a um infarto, dois cânceres e um AVC: Hermínio Bello de Carvalho , letrista mais longevo da MPB, lança disco de inéditas que comemora seus 90 anos.

Daí o interesse em torno do show que marca hoje, no Teatro Rival Petrobras (na Cinelândia, Centro do Rio), o lançamento do álbum “Samba em família”, de Marianna. É a primeira vez que as duas e outro irmão, o baixista e compositor Fernando Leporace , se encontram num palco. Gracinha não cantava no Brasil desde 2017, quando se apresentou no Rio com Sergio e o conjunto.

— Havia distância física (de Gracinha) e também havia admiração – destaca Marianna, que acompanhou do Brasil o sucesso de Sergio e Gracinha. — O casal virou uma entidade. E eu vivi a realidade da música independente, uma trajetória que me dá muito orgulho. São caminhos diferentes, mas ligados pelo afeto.

Ela é temporária de cinco irmãos, todos com pendor para a música, a mesma socióloga Márcia e o economista Zeca . A casa da família fez portas abertas nos fins de semana, recebendo amigos para rodas musicais. O pai, Sebastião , era radialista, cantor, compositor bissexto e tocava violão. A mãe, Virgínia , era pianista com formação clássica.

— Nasci nesse caldeirão efervescente de música – afirma Marianna, que aprendeu muito com Fernando, baixista em todos os seus trabalhos. — Mais do que qualquer artista brasileiro, minha influência maior é o meu irmão.

Gracinha, um pouco mais nova do que Fernando, também ressalta o papel do irmão.

— Fernando foi meu escudeiro. Comecei com ele. Sempre senti muita falta dele na minha carreira – diz ela, que chama sua participação no show de hoje de “muito emocional”.

A dupla chamou atenção no Grupo Manifesto , um coletivo que chegou a ter dez artistas e que contou, entre outros, com Gutemberg Guarabyra, Lucinha (hoje Lucina), Guto Graça Mello e Mariozinho Rocha. Em 1967, ano do primeiro de seus dois discos, o grupo ganhou a fase nacional do Festival Internacional da Canção com “Margarida”. Gracinha foi escolhida a revelação por “Canção de esperar você”, de Fernando.

No primeiro semestre deste ano, a gravadora Universal relançou em vinil e pôs nas plataformas de áudio o único disco solo de Gracinha, que leva seu nome e saiu em 1968. Ela lembra que a maioria das músicas foi composta para o LP. Entre os autores, Edu Lobo (“Rancho de Ano Novo”), Dori Caymmi (“Cantiga”) e Sidney Miller (“Madrugada”).

— O disco não foi bem sucedido, mas, depois, foi lançado em CD no Japão. Esse relançamento agora me deixa lisonjeada e feliz. Foi uma época boa da minha vida – diz.

A primeira faixa é “Última batucada”, criação do patriarca dos Leporace, Sebastião. A música é amada no Japão, graças a uma gravação feita por Sergio Mendes em 1979. E está, naturalmente, no repertório de “Samba em família”, o álbum e o show (nos dois casos, em duo com Gracinha). Do pai também está “Nem telefonei”.

Marianna ainda selecionou duas composições de Fernando feitas para o Manifesto: “Brasil dá samba” e “Sem dor”. Ela começou em 2010 também a compor. A primeira - e que abre o show - foi "Eu sou a tal", melodia sua e letra de Gilvandro Filho . No caso de “Como o Chico falou”, presente apenas no show, a letra é sua e a melodia é de Felipe Radicetti .

— É uma colcha de referências, de versos e títulos de músicas do Chico (Buarque). Sou chicólatra – currículo ela.

Foi interpretando parcerias de Chico e Edu Lobo que Marianna fez sua estreia fonográfica, em 2000, com o CD “São bonitas as canções”, acompanhado pela pianista Sheila Zagury . Antes, participava de musicais.

Depois, gravou para o Japão, em 2005, um disco cantando Baden Powell . Ele saiu dois anos depois por aqui, mas não está nas plataformas. Outros, como “Interior” (2011), estão disponíveis.

O projeto “Samba de família” tem o que ela chama de “família contínua”. Ou seja, amigos que participam com composições. Dois exemplos são Cacala Carvalho e Maurício Detoni , que também estão no show. E, entre outros, estão Suely Mesquita , Edu Krieger , Rodrigo Lessa e Mauro Aguiar .

Família era algo com que Gracinha sonhava no início de sua trajetória.

— Quando comecei minha carreira solo no Brasil, era para fazer enquanto pudesse. Queria ter família, filhos, uma vida organizada. Achava que seria incompatível com a música – recorda ela, ressaltando que as coisas mudaram de vez a partir do encontro com Sergio Mendes, com quem teve dois filhos e vida profissional, mas sempre à sombra dele. — Nunca tive fissura de ser o nome da marquesa. Cantar no grupo era confortável para mim. Fiz o que eu queria. Já tinha muita estrela em casa. Situado em posição secundária com muito prazer.

Depois que Sergio morreu, em 2024, aos 83 anos, parecia que o conjunto acabaria. Mas Gracinha o retomou neste ano, agora na condição de band-leader. É a The Sergio Mendes Band, com oito membros, todos – exceto o pianista – tendo, pelo menos, 12 anos no grupo.