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Casal audiovisual: A história de amor de sete décadas entre Luiz Carlos e Lucy Barreto

Casal se conheceu em 1951; juntos, produziram clássicos do cinema brasileiro como 'Terra em transe', 'Bye bye Brasil' e 'Dona Flor e seus dois maridos'

Agência O Globo - 22/07/2026
Casal audiovisual: A história de amor de sete décadas entre Luiz Carlos e Lucy Barreto
produtor Luiz Carlos Barreto

O produtor Luiz Carlos Barreto, aos 98 anos , é conhecido por seu papel em clássicos do cinema nacional, como "Dona Flor e seus dois maridos" e "Bye Bye Brasil". Ao longo de sua vida, trabalhou ao lado da esposa, Lucy Barreto. Juntos, eles protagonizaram uma relação de amor e dedicação ao cinema durante sete décadas. Ele, com experiência na fotografia, e ela, oriunda da música, formaram o que se chamou de 'casal audiovisual'.

Despedida:

O casal se conheceu em 1951. Luiz, então repórter e fotojornalista do Cruzeiro, visitou a casa da família da futura companheira no Rio, onde se realizou uma entrevista com a então Miss Goiás. Durante a sessão de fotos, Lucy se sentou ao piano e começou a tocar, despertando a atenção de Luiz Carlos. Contudo, a relação foi interrompida temporariamente devido a uma bolsa de estudos que ela recebeu para estudar piano em Paris. O reencontro, no entanto, foi o próximo.

— Descobri que ela estava se interessando por um armênio. Então, me mandei para Paris para lutar pelo meu amor — recordou Luiz Carlos em entrevista ao GLOBO ao lado da parceira, em 2023. — Cheguei e me matriculei no IDHEC (Instituto de Altos Estudos Cinematográficos). Após três meses, considerei o curso um pouco 'blá-blá-blá', então usei minha carteira de repórter para visitar estúdios de filmagem, acompanhando filmagens e conversando com diretores e produtores. Foi minha verdadeira faculdade de cinema.

Os dois se casaram em Paris, em 1954, e desfrutaram de uma lua de mel em Veneza, onde Luiz, correspondente do Cruzeiro, aproveitou para cobrir o Festival de Veneza. Lucy o ajudou a identificar os principais nomes do cinema europeu que passavam pela cidade.

Pouco depois, retornaram ao Brasil, com Lucy grávida do primeiro filho, do diretor Bruno Barreto. Nos anos seguintes, Luiz Carlos se mudou de Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha, sendo incentivado a entrar no mundo do cinema. Após colaborar no roteiro do clássico "O assalto ao trem pagador" (1961), dirigido por Roberto Farias, ele fundou sua produtora: a LC Barreto, começando com a produção de "Garrincha, alegria do povo" de Joaquim Pedro de Andrade.

— Dessa parceria entre música e cinema nasceram nossos filhos, que cresceram em uma casa caindo aos pedaços na Rua 19 de Fevereiro, em Botafogo, onde montamos vários filmes com uma moviola que havia no quintal. O vírus do cinema acabou contaminando toda a família — recordou Luiz Carlos. — Além de Bruno, nossos numerosos Fábio (1957-2019) e Paula Barreto, com quem tivemos nove netos: Júlia, Mariana, Lucas e João, filhos de Fábio; Helena, Olímpia e Gabriel, de Bruno; e Camilla e Felipe, de Paula.

Barretão, como ficou conhecido, foi um dos maiores expoentes do Cinema Novo, atuando como diretor de fotografia e produtor de clássicos como "Vidas secas" e "Terra em transe", sempre com Lucy ao seu lado. Ela começou como estagiária de produção em "Vidas secas" e exerceu diversas funções em conjuntos de filmagens, produzindo eventualmente os filmes do filho, Bruno Barreto, ao lado de sua mãe, Lucíola Vilella. Juntas, elas produziram 16 curtas até realizarem seu primeiro longa: "Tati, a garota". Quando Bruno aceitou o desafio de dirigir "Dona Flor e seus dois maridos", ele tinha apenas 20 anos e o filme se tornou um dos maiores sucessos da história do cinema nacional.

Com Lucy cada vez mais à frente da produtora, Barretão começou a se dedicar mais às questões políticas do audiovisual brasileiro, enquanto a companheira gerenciava o dia a dia de LC Barreto, ajudando nas primeiras experiências de figuras importantes da indústria atual como André Saddy, Bruno Wainer, Mariza Leão, Rodrigo Teixeira e Gisela Camara.

— As pessoas chamavam de jardim da infância da Lucy — recordou a produtora.

Em 2024, Luiz Carlos sofreu uma queda em Fortaleza, sua cidade natal, enquanto estava em uma homenagem. O piorou sua saúde e ele passou por cirurgias e incidentes internos, seguido de um longo tratamento em casa. Diante das necessidades do parceiro, Lucy decidiu reduzir seu ritmo de viagens, mas nunca deixou de cuidar da LC Barreto.

— Minha vida, como diriam os franceses, é totalmente boulversé (virada de avesso, na tradução livre). De repente, estou cercada de técnicos de enfermagem, fisioterapeuta e cuidador. Está muito difícil, mas ele está lutando como um bom sertanejo que é — emocionou-se Lucy em depoimento ao GLOBO em maio de 2025. — Tive uma felicidade de viajar muito na vida. Agora chegou o momento de ficar quieta e cuidar do meu querido, do meu Barretinho. Todos o chamam de Barretão, mas para mim, ele será sempre Barretinho. São mais de 70 anos de mãos dadas.