Curiosidades
'Female rage': entenda como a fúria feminina contra injustiças alimenta ficções repletas de sangue e vingança
Febre nas redes, tendência reflete frustração coletiva das mulheres: 'Existe uma intolerância generalizada à nossa raiva', diz autora
Durante muito tempo, Bruna Maia ouviu que suas queixas eram “raivosas” e “tóxicas” . Hoje, um jornalista, romancista e cartunista responde da única forma que lhe interessa: criando personagens literários raivosas.
Vítima de abusos psicológicos, protagonista de “Com todo meu rancor” (Rocco), lançado em 2022, busca a cura pela vingança. Já a Cassandra de “Na beirada” (Rocco), que chega agora às livrarias, coloca os códigos morais de lado ao enfrentar aqueles que a traumatizaram.
Problemáticas e imperfeitas, as mulheres de Bruna refletem um sentimento que ganhou as redes e batiza um tipo de narrativa em alta no mercado editorial. Conhecida como raiva feminina , a tendência se apropria de uma figura antiga (a mulher vingativa, popularizada em filmes como “Kill Bill” ), mas agora sem o filtro masculino do passado.
No TikTok, a expressão acumula mais de dois bilhões de visualizações. Nas livrarias, aparece em lançamentos recentes como “Mindf*ck” (Paralela), uma série de livros de ST Abby (pseudônimo da americana Christie Owens) que passou a aparecer nas redes sociais; e dois novos títulos da rainha do thriller Freida McFadden: “Querida Debbie” e “A ex” (ambos editados pelo Arqueiro). Em geral, essas obras tratam a fúria não como um simples desvio de personalidade, mas como motor de uma narrativa sangrenta e apoteótica.
— Demorei para perceber que a minha raiva não era um defeito, mas uma ocorrência justa aos abusos que tinha vivido — diz Bruna, que escreveu “Com todo meu rancor” após sair de um relacionamento abusivo. — Muito do que os homens chamam de loucura e agressividade nas mulheres é, na verdade, uma ocorrência às violências machistas que elas sofrem. Então percebi que fazia mais sentido me apropriar dessa raiva de uma vez.
No universo da raiva feminina , as personagens se recusam ao papel da vítima virtuosa que muitos esperam. Em “Na beirada” , Cassandra questiona a sua própria sanidade ao relembrar traumas da juventude. Deprimida e solitária, deixa a raiva acumulada influência de suas ações como policial civil.
“Mindf*ck” , por sua vez, traz um serial killer decidido a eliminar o grupo de criminosos que torturaram no passado. Aparentemente implacável, a juíza Lana também tem suas incoerências e fragilidades, e até se apaixona pelo agente do FBI que a investiga. A série vai ganhar uma adaptação para o audiovisual produzido por Sophia Stallone, filha de Sylvester Stallone.
— Por que um personagem masculino como John Wick, que se lança numa carnificina por vingança, é visto como herói, enquanto a Lana de “Mindf*ck” é “problemática”? — indaga Quézia Cleto, editora-executiva da Paralela, que lança os livros da série por aqui. — Na vida real, os crimes de fato são cometidos majoritariamente contra as mulheres. Ou seja, essa inversão é algo que basicamente só acontece no campo ficcional, como reflexo de uma frustração coletiva das mulheres com falta de justiça.
Não por acaso, esses protagonistas potencialmente detestáveis da raiva feminina têm encontrado uma recepção positiva entre os leitores.
— Várias meninas me disseram que se sentiram vingadas ao ler “Com todo meu rancor” — conta Bruna. — Acho que a ficção de vingança ocupa essa função catártica para mulheres que passaram por algum tipo de violência.
A conexão entre trauma real e catarse artística é tema de estudo entre profissionais da saúde mental. Médica residente de psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp), Maria Lígia Solssia investiga ferramentas de escrita expressiva que possam funcionar como válvulas de escape. Cruzando dados sobre violência de gênero e sofrimento psíquico, aponta que a raiva funciona como uma resposta de defesa legítima aos abusos sofridos. A ficção, por sua vez, permitiria dar vazão a esse sentimento de forma segura.
— A expressão artística oferece uma saída simbólica para que a agressividade, tanto das mulheres quanto dos homens, não cause danos na vida real — diz ela. — Ainda assim, o público se espanta ao se comparar com obras que retratam mulheres violentas porque elas se contrapõem a padrões de comportamento feminino socialmente esperados.
Em seu premiado livro “As homicidas” (Fósforo), que retrata quatro casos reais de mulheres assassinadas que chocaram a sociedade, a escritora chilena Alia Trabucco Zerán foca no viés de gênero na percepção do crime. Para a autora, a proteção social dessas mulheres funciona quase como um “crime duplo” : elas são julgadas tanto por violar a lei quanto por romper com o que se espera de seu gênero. Na mesma linha, a médica Maria Lígia Solssia lamenta que a sociedade costume ser mais tolerante com o sofrimento da mulher do que com sua raiva ou pulsão por justiça:
— Várias autoras e pensadoras contemporâneas, como Rebecca Traister, Lilly Dancyger, Mary Valentis e Anne Devane, fazem excelentes análises sobre como a tristeza é um sentimento muito mais socialmente palatável do que o desejo de hardware — diz.
Em “Doce fúria” , lançado em 2025 pela Paralela, a americana Sash Bischoff desafia a expectativa de que as mulheres só mereçam empatia quando são irrepreensíveis. O romance acompanha Lila Crane, uma cineasta que tenta adaptar para o cinema uma obra de F. Scott Fitzgerald sob uma perspectiva feminista, enquanto se vê envolvida numa trama de abuso, manipulação e poder.
— Existe uma intolerância generalizada à nossa raiva, mesmo quando é uma ocorrência legítima ao que nós sofremos coletivamente — diz Sash. — Não há lugar para essa raiva na definição tradicional do que significa ser mulher. Por isso, para que ela exista, precisamos redefinir o que significa ser mulher.
Em determinado momento do livro, Lila fala sobre o desejo de não ser vista como uma mulher que precisa ser salva. Explorando as zonas cinzentas nas dinâmicas de violência, a narrativa traz um dilema familiar a muitas mulheres: escolher ser reconhecido como vítima ou como ser independente. Sash também lança uma reflexão sobre as verdadeiras formas de justiça num mundo cada vez mais dominadas por juízes e tribunais paralelos nas redes sociais.
— Um leitor pode achar que estou dando uma má fama ao feminismo por causa do meu protagonista, mas nunca foi minha intenção — diz a autora. — O livro quer justamente questionar os estereótipos sobre o feminismo e perguntar o que realmente faz de alguém uma feminista. Para mim, isso tem menos a ver com punir o homem que a feriu e mais com mulheres se unindo para fortalecer outras mulheres.
Lançado em maio na França e sem previsão de lançamento no Brasil, “Female Rage: la revanche des hystériques dans la pop culture” (“A revanche das histéricas na cultura pop”, em tradução livre), da jornalista Marion Olité, mostra que mulheres violentas sempre estiveram presentes na ficção. E quase sempre foram retratadas da mesma forma: tentadoras, feiticeiras ou antagonistas perigosas. As figuras mitológicas clássicas às mulheres fatais de Hollywood surgem como “fruto de um olhar masculino ao mesmo tempo fascinado e amedrontado pela sexualidade feminina” .
A grande virada para as mulheres raivosas, segundo a autora, acontece com o movimento #MeToo e com a chamada quarta onda feminista, que deveria legitimar a expressão pública da indignação feminina. A raiva feminina deixou de ser um desvio de comportamento e se transformou numa ferramenta de denúncia. Na carona, os artistas acabaram se reapropriando da expressão, que se popularizou a partir de 2020. Filmes como “Bela vingança” (2020) e “A substância” (2024), assim como a série “Fleabag” , seriam um reflexo desse aspecto.
— Essas novas narrativas mostraram que existem muitas formas de expressar a fúria na arte, seja com nuance, seja com radicalidade — observa Olité. — O fato dessas obras sendo identificados agora com o rótulo de raiva feminina mostra o quanto havia uma demanda reprimida por elas.
Olité abre sua publicação com a frase “Acredito que nasce com raiva” . No Brasil, a escritora Clarah Averbuck dá seu novo livro o título de “Sim, nós estamos com raiva” (Patuá). A autora começou a publicar ficção no início dos anos 2000 e viveu de forma íntima essa progressiva perda de tabu sobre a raiva feminina. Na coleção de crônicas autobiográficas, ela resgata memórias de juventude, disseca relacionamentos abusivos do passado e expõe um duplo padrão crítico para as mulheres no mercado editorial.
— Minhas personagens sempre foram detestáveis — lembra a autora, que teve sua grande projeção com “Máquina de pinball” , de 2002. — Ali eu já tinha a intenção de criar uma anti-heroína. A verdade é que ele foi uma loucura, fui xingadíssima, um backlash doido. A sorte do mundo é que escolhemos “apenas” fazer arte. Temos raiva suficiente para destruir tudo.
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