Curiosidades
Dia do Cinema Brasileiro celebra 128 anos da primeira filmagem no país
Registro feito por Afonso Segreto na baía de Guanabara inspira documentário e ganha programação especial na TV
Em 19 de junho de 1898, Afonso Segreto, italiano radicado no Brasil, retornava ao Rio de Janeiro após uma temporada em Nova York e Paris. Na viagem, trouxe filmes para exibição na então capital federal e equipamentos para produzir seus próprios curtas, chamados à época de “vistas”. Antes mesmo de desembarcar, a bordo do navio que o trazia, registrou imagens da entrada da baía de Guanabara.
A data passou a ser reconhecida como marco das primeiras filmagens realizadas no país. Por isso, nesta sexta-feira (19), o Brasil celebra o Dia do Cinema Brasileiro, que completa 128 anos.
O jornal Gazeta de Notícias, em sua edição de 20 de junho de 1898, publicou aquela que é considerada a “certidão de nascimento” do cinema nacional: uma nota simples, mas histórica, mencionando a filmagem — o único relato oficial conhecido sobre o episódio.
“O sr. Afonso Segreto há sete meses que fora buscar o aparelho fotográfico para preparo de vistas destinadas ao cinematógrafo e agora volta habilitado a montar aqui uma verdadeira novidade, que é a exibição de vistas movimentadas do Brasil. Já ao entrar à barra, fotografou ele as fortalezas e navios de guerra. Teremos para dentro em pouco verdadeiras surpresas”, registrou a publicação, em trecho citado no livro A bela época do cinema brasileiro, de Vicente de Paula Araújo.
Foi esse registro na imprensa que consolidou a data e o pioneirismo de Afonso Segreto. No mesmo dia da publicação, estava prevista uma sessão com a vista no Salão de Novidades Paris, primeira sala fixa de cinema do Brasil, inaugurada em 1897 na Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, por Paschoal Segreto, irmão de Afonso e importante nome do entretenimento brasileiro no fim do século XIX e início do século XX.
Para a exibição, foram convidadas autoridades como o então presidente da República, Prudente de Morais, e o jurista Rui Barbosa. Um convite para a sessão integra o acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa.
Cinema brasileiro
A sessão, porém, não ocorreu como se pretendia. Ainda inexperiente como cinegrafista, Afonso abriu inadvertidamente a câmera, e a película acabou danificada, segundo relato do sobrinho Domingos Segreto, citado no livro Palácios e poeiras, de Alice Gonzaga. Assim, o primeiro filme brasileiro nunca chegou a ser exibido. Diante do imprevisto, os irmãos Segreto apresentaram vistas estrangeiras ao público presente, que saiu frustrado.
— A data de 19 de junho é muito simbólica da dificuldade que se tem de fazer cinema no Brasil, porque marca uma ausência, um filme que não existiu — afirma Hernani Heffner, gerente da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM). — Além da dificuldade, retrata a perseverança e a força de fazer cinema contra todas as expectativas. É o marco inicial de uma história com muitos percalços, mas que segue em frente, com muita persistência até hoje.
Hernani lembra que, apesar do fracasso da primeira tentativa, Afonso Segreto se tornaria, de fato, o primeiro realizador cinematográfico do país. As primeiras filmagens completas ocorreram menos de um mês após seu desembarque, em 5 de julho de 1898, quando ele registrou duas vistas: o desfile fúnebre do marechal Floriano Peixoto e a visita de Prudente de Morais ao cruzador Benjamin Constant, no Arsenal de Marinha.
Entre 1898 e 1903, Afonso realizou mais de 100 filmes. Todos se perderam com o tempo, assim como praticamente todo o cinema brasileiro anterior a 1909. À frente da Empresa Paschoal Segreto, Paschoal manteve-se como principal exibidor e produtor do Brasil até 1907, quando passou a investir em outras áreas do entretenimento, especialmente o teatro, sua grande paixão. Hoje, a principal herança viva da família Segreto no Rio é o Teatro Carlos Gomes, no Centro.
Outras hipóteses
Há quem considere que o primeiro filme brasileiro teria sido Chegada do trem em Petrópolis, com base em um recorte do jornal Gazeta de Petrópolis. A publicação convidava o público para uma sessão de vistas organizada por Vittorio di Maio em 1º de maio de 1897, no Theatro Cassino de Petrópolis, onde seria apresentada uma obra com esse nome.
A falta de matérias posteriores sobre a exibição, a ausência de informações sobre o cinegrafista e o fato de Di Maio ter vendido posteriormente seu projetor e acervo para Paschoal Segreto, sem qualquer menção ao filme, levam historiadores a contestar a existência da obra. Vale lembrar que sessões de cinema já ocorriam no Brasil desde 8 de julho de 1896.
Também data de 1897 a vista Ancoradouro de pescadores na baía da Guanabara, atribuída a José Roberto Cunha Sales e preservada no Arquivo Nacional. Ainda assim, historiadores questionam sua “brasilidade” e acreditam que o registro possa ter sido recortado de uma vista estrangeira pelo cinegrafista, que tinha ligações com o jogo do bicho.
Documentário a caminho
O documentário Os irmãos Segreto, dos cineastas italianos Federico Ferrone e Michele Manzolini, é uma coprodução entre Brasil e Itália e revisita a trajetória de Paschoal, Gaetano e Alfonso Segreto. Os irmãos deixaram San Martino de Cilento, na Itália, para se tornarem nomes importantes da cena cultural da Belle Époque carioca.
Gaetano, o irmão do meio, foi sócio de Paschoal em seus empreendimentos, mas dedicou-se especialmente ao jornalismo, contribuindo também para divulgar os filmes realizados e exibidos pela família.
— Os Segreto foram os nossos irmãos Lumière. Mais do que pioneiros do cinema, foram pioneiros do entretenimento, dessa cultura carioca do divertimento — destaca Juliana de Carvalho, produtora brasileira do filme pela Bang Filmes. — O documentário também aborda a influência da imigração italiana no Rio, que é pouco valorizada. Sempre falamos das influências francesas, como se todos os italianos tivessem ido para o Sul, mas não foi bem assim. O filme mostra que, na nossa cultura, temos muito mais de italianos do que de franceses.
O longa integra a programação do 8½ Festa do Cinema Italiano, evento realizado entre 25 de junho e 1º de julho em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Aracaju, Recife, Porto Alegre e Florianópolis.
Programação dedicada
O Dia do Cinema Brasileiro terá programação especial no Canal Brasil, com maratona a partir das 14h30. A seleção reúne clássicos como Deus e o Diabo na Terra do Sol, Cabra marcado para morrer, Carlota Joaquina, Princesa do Brazil e Central do Brasil.
Já o Itaú Cultural Play disponibiliza uma seleção de filmes do 18º In-Edit Brasil – Festival Internacional do Documentário Musical. O recorte reúne cinco produções que têm a música e a cultura brasileiras como eixo central.
Mais lidas
-
1MÚSICA
Joelson dos Oito Baixos leva o forró pé-de-serra ao Giro das Tradições nesta terça-feira (22)
-
2RODOVIAS
Obras da ponte entre Penedo (AL) e Neópolis (SE) avançam e ultrapassam 60% de execução
-
3CULTURA
Rick e Renner: dupla que atravessou quatro décadas e teve separações e polêmicas ao longo da carreira
-
4SEGURANÇA PÚBLICA
Homem apontado como integrante de 'Equipe Caos' do CV no Morro do Fubá morre em confronto com PMs
-
5CULTURA
Cantor Rick, da dupla com Renner, ostenta mansões nos Estados Unidos e interior de São Paulo; conheça