Curiosidades
'A fama é uma ilusão', diz Padre Fábio de Melo
Em entrevista ao 'Conversa vai, conversa vem', sacerdote afirma que vida pública o adoeceu, conta como transformou depressão em disco, revela como lida com desejo sexual e alerta: 'A alegria não sabe onde você mora, é preciso convidá-la, bajulá-la'
O novo disco do padre nasceu da depressão. Tudo começou com uma música de Dominguinhos, “Quem me trouxe sou eu”, que o resgatou do fundo do poço ao conectá-lo com a mensagem que eu precisava ouvir: não adiantava procurar do lado de fora, a solução para emergir estava dentro dele. A canção acabou por nortear o álbum que ele lançou na sexta-feira, “O beijo que vós me nordestes”, uma ode ao Nordeste.
O trabalho traz canções de Chico César e Luiz Gonzaga, entre outros, e participações de Gilberto Gil, Milton Nascimento, Mônica Salmaso, Maria Rita e Elba Ramalho. Filósofo, escritor com coleções de livros lançados, influenciador com mais de 52 milhões de seguidores, cantor com 20 discos gravados e mais de cinco milhões de cópias vendidas, padre Fábio participou do “”, videocast do GLOBO que vai ao ar hoje, às 18h, no YouTube e no Spotify. Confira abaixo trechos da entrevista.
O álbum é uma ode de um mineiro ao Nordeste?
Sim. Embora tenha surgido com o lançamento de um disco pela Som Livre já tinha um trabalho consistente dentro da igreja. Viajava e conhecia muito o Brasil por meio da música. E o Nordeste foi uma epifania, uma experiência linda de ficar diante de uma humanidade que fazia muito sentido, toquei sentimentos que até então eram inéditos para mim, que estavam ligados à generosidade de quem me escolheua, de ser extremamente bem tratado em situações que me lembravam minha vida, a simplicidade, a pobreza material e, ao mesmo tempo, uma riqueza espiritual rendansurável. O Nordeste era uma faculdade que eu precisava frequentar. Sou mineiro meio nordestino.
Fala muito sobre a espiritualidade fora das religiões. A arte sempre foi o filtro pelo qual olhou o mundo. Seu encontro com Deus se deu através dela...
A arte foi a primeira religião que conheci. Antes de ser adepto de Jesus, fui da beleza. O cristianismo só fez sentido porque encontrou atributos aristotélicos que tornam uma realidade válida: beleza, verdade, justiça. Entenda que a religião também pode ser um lugar de beleza. Tive a graça de rezar numa igreja barroca. Ficava encantado com volutas, altares. Eu entendi isso como experiência religiosa.
Bella Campos.
Luana Piovani.
A música ajuda a refletir sobre questões de natureza religiosa?
Com certeza. A MPB sempre fez parte do meu repertório. Fui criticado: “Como é padre e fica cantando Luiz Gonzaga?” Não acredito que a música religiosa é apenas composta para cantar na igreja. Religioso é tudo que se liga. Somos fragmentados e precisamos de religamentos. Ele é feito pela palavra. Não é sem razão que a terapia tenha como fonte de cura a palavra. Quando fico diante de uma letra que tem o poder de alçar dentro de mim aquilo que não sei dizer, fiz uma experiência religiosa.
'Em muitos contextos religiosos não encontro espiritualidade. Posso ser religioso sem espiritualidade. E também alguém dentro do contexto do ateísmo e ter uma profunda espiritualidade porque a descobriu na arte, no conhecimento, na filosofia'
A religião não é dona da espiritualidade.
Nunca foi. Em muitos contextos religiosos não encontram espiritualidade. Temos visão empobrecida do que é ser religioso. Espiritual é tudo que me eleva, faz transcender, entender quem sou. Posso ser religioso sem espiritualidade. E também alguém dentro do contexto do ateísmo e ter profunda espiritualidade porque a descobriu na arte, no conhecimento, na filosofia. Nas principais experiências que vivi diante de Deus estava em profundo estado de miséria e tristeza. Tanto que o disco nasce por causa de uma música do Dominguinhos importanteíssima na minha compreensão quando vivi uma pior crise de depressão.
'Tenho predisposição genética à depressão, muitos suicídios na família. Durante muito tempo, convivi com isso. Mas em 2017, a casa ruiu'
“Quem me sou eu”.
É. Vivi um combo difícil de ser administrado: depressão e síndrome do pânico. Resultado da vida que vivia. Tenho predisposição genética para depressão, muitos suicídios na família. Durante muito tempo, convivi com isso. Mas em 2017, a casa ruiu. Pessoas que me amavam ficaram perto de mim, mas ninguém me socorria. Queria solidão. Aí entendi que os piores desertos eu atravesso sozinho. Foi logo após o suicídio da minha irmã.
Taís Araújo.
Xande de Pilares.
Tem sete irmãos e todos atentaram contra a própria vida. Isso também passou pela sua cabeça?
Em 2017, era só o que queria e pensava. Com exceção de uma irmã, que morreu de acidente, todos nós incidentes. Nunca tentei. Mas em muitos momentos, espero. Em janeiro, tive uma crise muito ruim. Quando entendi que, por mais que estimulado por alguém, a luta está dentro de mim... Preciso encontrar recurso para sobreviver a mim mesmo. Quem me adoece não é o outro. Sou eu.
'A fama é um roubo. Primeiro, porque ela é uma ilusão'
O que detonou o processo? A cabeça não deu conta da vida do padre popstar?
Foi a vida pública, sim. A fama é um roubo. É uma ilusão. Rouba você daquilo que você mais ama fazer. Vai retirando a espontaneidade, privando os caminhos. O risco de se achar mais importante...
'Minhas maiores desculpas foram quando identifiquei a arrogância que reprovo no outro repetidas vezes em mim'
Caiu nessa esparrela?
Não começo, sim. Minhas maiores desculpas foram quando identifiquei a arrogância que reprovo no outro repetidas vezes em mim. Foi rápida minha visibilidade. Provocou dispersão interior. Sempre fui calmo, gostei da rotina. De repente, fazia 35 shows por mês pelo Brasil. Hoje, lido bem. Eu entendo que há uma medida. O tanto que sou para o outro preciso ser duas vezes para mim em termos de busca, viagem interior.
'Nada nos amarra mais no lugar certo que a dor. Quando minha irmã se matou, foi muito doloroso'
O que te trouxe de volta?
Nada nos amarra mais no lugar certo que a dor. Quando minha irmã se matou, foi muito doloroso. Ainda é. Porque é da natureza humana a culpabilidade. Mesmo sabendo que tínhamos tudo o que podíamos. Foi um contexto de muito sofrimento. Foi muito cruel. Se estivesse ali, jamais me acostumaria com a ausência dela. Todo o mundo tem que ser procurado. Fiquei pai por isso. Também já fui esquecido, não fui convidado. Só entrei porque forcei a porta. Às vezes, era ridicularizado: “Esse não vai dar em nada.” Vivo para buscar os que não chegaram.
Angélica.
'Fui para o seminário porque tinha uma piscina bacana. A rotina daquela casa era tão aprazível, era muito diferente da rotina dolorosa que tinha'
O que a epidemia da solidão no Brasil diz sobre a sociedade?
Fomos cavando um poço do qual não conseguimos mais sair. Antes, tínhamos dificuldades com as pessoas da nossa rua, que davam palpitar na nossa vida, nos julgavam. Ninguém suporta ser tão importante. As regras da boa educação diziam que não deveríamos parar na porta de alguém e gritar desaforos. As redes sociais quebraram isso. Não existe mais respeito ao outro. Nunca andei os seus caminhos e me sinto no direito de dizer coisas absurdas sobre você. A solidão está ligada à inconsistência dos vínculos. Temos medo de aprofundar porque entendemos que o excesso de observação do outro sobre nossa vida é doentio e nos retira as espontaneidades que deveriam ser naturais. Está todo o mundo com medo do que pode ser dito, interpretado. Não podemos ter mais ninguém do nosso lado que já cria uma narrativa.
'A solidão está ligada à inconsistência dos vínculos'
Você foi muito julgado ao demonstrar vulnerabilidades e fragilidades. Há uma visão caricata do padre, como se não fosse humano... Como se o fato de ter atravessado uma depressão não te autorizasse a dar conselhos aos que precisam...
Minha mãe era devota do Sagrado Coração de Jesus, cuja imagem é um homem com os braços abertos e o coração inteiro para fora. Perguntei à minha mãe, quando era menino: "Por que ele tem o coração para fora?". Ela, sem nenhuma teologia, me disse: "Porque não tem nada a esconder". Minha mãe me educou para ser um homem com o coração para fora. Amo com facilidade, me irrito com facilidade, tudo em mim é excesso, dói ou me alegra muito. Quando me tornei conhecido, só tive uma escolha: ou vou ser de verdade ou não vou suportar. Nunca fui um homem de respostas prontas ou aceitei estar dentro de uma redoma. Sou um homem que tenta viver, acertar e errar muitas vezes. Um homem que é pai. Misturar tudo é a única forma honesta de viver. Não sou compartimentado, "agora sou padre; agora sou humano". Não existe divisão.
'O interesse pela repercussão é acima da ética. Hater é profissão'
Foi cruelmente questionado, diziam que não era padre de verdade. Como foi esse momento?
Primeiro, fiquei indignado. Como alguém que não vê meu dia a dia como padre me julga assim? Depois, entendi que não há como lutar contra, não adianta tentar explicar a quem não quer entender. Não quero a verdade, mas o clique. O interesse pela repercussão é acima da ética. Hater é profissão.
Você bombava no Twitter quando tudo ainda era mato. O que aprendeu sobre a vida nas redes lá para cá?
Toda pessoa pública é imaginada. Me imagino ou muito pior ou melhor do que sou ou muito melhor. Nos dois extremos é ruim habitar. Queria apenas ser criticado pela verdade. Não é nenhum problema não gostarem de mim. Também não gosto de um monte de gente.
'A vida sexual de um pai sempre gera curiosidade. Estou acostumado'
Como se sentiu ao ter sua sexualidade questionada por uma deputada nas redes?
O que você pode dizer? Essa pessoa me conhece? Já participou da minha intimidação? Como posso reagir a isso? Da maneira como escolhi viver: fazendo o bem a quem puder. Se por interrupção o que faço para cuidar de cada um que tem opinião sobre mim, não vou viver. Estamos mudando a vida num campo de batalha, isso nos adoece. A vida sexual de um pai sempre gera curiosidade. Estou acostumado.
A vida sexual do pai existe?
Claro! Pode não ter uma vida genital, mas a sexualidade envolve todos os nossos afetos. A força da comunicação vem de onde?É sempre de sedução. Na linguagem, todos os recursos humanos se manifestam. E isso chamamos de sexualidade também. Agora, vai ser sempre um problema... Se ando com você, estou tendo caso. Você sempre será vítima disso. Pra mim, não faz diferença. Me ofenderia dizer que sou mau caráter, que roubei, feri, tratei mal alguém.
Como lida com o celibato e tentativas do campo mundano como desejo sexual?
Com as dificuldades que uma pessoa precisa para ser fiel ao que escolheu. A vida de um pai tem limites e possibilidades. Gosto de estudar, ler. Minha opção pela arte me ajuda a sublimar. Limitamos desejos aos carnais. Mas os desejos espirituais são maravilhosos.
'Muita gente acha que não deixo de ser pai porque não tenho coragem. Pelo amor de Deus!' Tenho todos os recursos para ser muitas coisas
Que desejos estes?
Escutar boa música, ler o novo livro de Adélia Prado, ver uma série. Fui ver “Eu sou minha própria mulher”, com Edwin Luisi. Das coisas mais bonitas que já vi. Quando li Proust, “Em busca do tempo perdido”, disse: “Como a capacidade humana é capaz de criar isso?” Estou lendo novamente Dostoiévski. Acham que não deixo de ser pai porque não tenho coragem. Pelo amor de Deus! Tenho todos os recursos para ser muitas coisas. Estou sendo pai porque amo o meu ofício.
Para onde vai o seu amor, quais são os seus vínculos?
Meus vínculos principais são com pessoas que trabalham comigo. Entenda que o parênteses que de fato nos salva é o vínculo estabelecido pela escolha. O de sangue pode não representar nada. Posso muito bem ser para minha família uma caixa eletrônica, um cartão de débito, um Pix.
Já disse: “A gente reza, chora, mas treina.” Há contradição entre o sacerdócio e a vaidade, considerado pecado pela Igreja?
Ser vaidoso é tomar banho, vestir-se bem, passar perfume, manter o corpo em ordem, cortar o cabelo, fazer a barba ou exercício? Não. Vaidoso é eu me sinto melhor que você por isso. Acho que as duas faculdades e mestrados que tenho me tornam superiores.
'Do sofrimento, não precisa correr atrás, ele vem, sabe o seu endereço. A bendita da alegria não sabe onde você mora, tem que construir-la convidá-la, bajulá-la'
Como enxergar a definição religiosa de Luana Piovani: "evangélica macumbeira"?
O que sei é que são correntes religiosas muito diferentes. O que temos em comum? Fazer o bem. O cristianismo precisa que eu ensine a fazer o bem, como as religiões de matriz africana também pretendem, o espiritismo, idem. Quando encontro a possibilidade de me identificar com o discurso religioso, é porque estou encontrando ali uma oportunidade de fazer o bem. Isso é indiscutível e não posso questionar.
Já falei sobre ter “gente louca e diabólica com rosário na mão, usa batina”...
Sim. E eu incluo isso. Em muitos momentos, tive o desafio de separar minhas neuroses do meu discurso. Estudei 16 anos para ser padre, não posso ir ao encontro do povo e falar qualquer coisa. Todo discurso sobre Deus passa pelo filtro da personalidade de quem está fazendo, toda teologia tem viés, todo falar sobre Deus é também o falar sobre nós. Se não me trato com amor, se sou duro comigo, é provável que você coloque você diante de um Deus tão duro quanto eu. Por isso, preciso me curar para que possa pregar o fato do Evangelho de Jesus.
Praticar o bem e o amor é o princípio, ou deveria ser, de toda religião.
Em muitos momentos, a religião aprisiona a espiritualidade. E também quis aprisionar a hold, atributo humano. Se tem uma crença religiosa que entende que é Deus quem possibilita isso... É o meu caso... Acredito que a esperança que posso fazer já é um movimento de Deus dentro de mim. Mas não posso aprisionar a espera. Qualquer ser humano, quando movido por aquilo que tem de melhor, é capaz de fazer o bem, mesmo que ele não acredite em Deus. Qualquer ser humano, quando movido pelo desejo de trazer o mundo, está sendo bondoso, mesmo sem se prostrar diante de um altar. E há quem se prostre diante do altar e não pratique nenhuma espera.
Estudos apontam que, em 2049, o Brasil terá mais evangélicos que católicos no país. Como você vê o avanço da religião evangélica no país?
A religião precisa fazer sentido para mim. Se uma pessoa se encontra dentro do contexto evangélico, o que preciso pensar? Na qualidade do que oferecemos ao povo. Será que a minha postura como padre fomenta uma religiosidade positiva, madura, que proporciona às pessoas a viverem o desconforto da autonomia? Ou estou propondo uma religião que prende as pessoas a mim e à minha mediação? Tudo é uma questão de questionar: Qual é a religião que as pessoas procuram? O que você quer encontrar lá? Perguntas indigestas ou respostas prontas? Sou adepto da religião das perguntas indigestas e faço com que o meu papel seja fazer as perguntas indigestas, mesmo que também tenha dificuldade com elas.
Depois de tudo que passou, imagino que conceito sobre o divino na sua visão tenha se alargado. O que é Deus para você hoje?
Humanamente falando, Deus é tudo aquilo que me conforta, porque é ali que eu o vejo, o encontro. Tudo aquilo que me desinstala, que me conforta existencialmente mesmo desinstalado. Porque a autonomia é um desconforto enorme. Por isso, queremos evitá-la. Sempre queremos que alguém faça por nós, faça por nós. Buscamos insistentemente por alguém que seja responsável pelos nossos erros. Quando ouso trilhar o caminho da espiritualidade, que é do autoconhecimento, você viverá cada vez mais o esclarecimento de que sou eu. Quando me deparo com os desconfortos de ser quem eu sou, preciso fazer que é sagrado, porque humanamente eu não suporto. (Maria) Bethânia disse isso: "Preciso de algum delírio". Não chamaria de delírio. Pra mim, é encantamento. Preciso de encantamento: um bom livro, uma boa oração, um bom momento entre amigos. Ali, eu vejo Deus satisfeito em mim. Sinto concretamente a presença dele na minha vida por meio de realidades humanas.
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