Curiosidades
Xande de Pilares e Mauro Júnior falam da turnê que marca o reencontro do cantor com o Revelação e lembram hits e tretas em mais de 30 anos de amizade
O ex-vocalista e o integrante que permanece até hoje compondo e tocando banjo no grupo de pagode revelam os motivos da separação da banda e comentam clima de ensaio para o show: 'A gente começou a tocar e já era um monte de gente chorando’
Estava escrito: Xande de Pilares voltaria a subir ao palco com o Revelação. Só que essa permissão aconteceu naturalmente, levou 12 anos. Finalmente, o ar que se respira agora expira novos tempos, e o cantor e compositor, finalmente, subirá ao palco ao lado do grupo que ajudou a fundar, nos anos 1990, e deixou em meio a desentendimentos para seguir carreira solo, em 2014. Não sem antes consolidar parceria de respeito com Mauro Júnior (e Helinho do Salgueiro), autores de sucessos que transformaram a banda de pagode numa das mais icônicas do país.
O revival se materializará no dia 27 de junho, na Farmasi Arena, no Rio de Janeiro. É a estreia da turnê especial “Tava escrito: O reencontro histórico”, que rodará o Brasil embalada por canções que permaneceram na boca do povo através do tempo: “Coração radiante”, “Velocidade da luz”, “Deixa acontecer”, “Tá escrito”, “Novos tempos”, etc. Em participação no “”, videocast do GLOBO que vai ao ar nesta quarta-feira (6), às 18h, no Youtube e no Spotify, Xande e Mauro Júnior falam do retorno, lembram sucessos e tretas dos mais de 30 anos de amizade.
Você está animado? Estavam com saudades?
MAURO: Saudades sempre tem, né? O ensaio já está dando uma prévia do que vai acontecer. Esse encontro nos remete ao passado, mas o grande presente vai ser para a galera mais jovem, que não assistiu e quer assistir. Uma galera que está vendendo o Xande e a Revelação por causa dos pais, dos avós. Vão poder ver o Revelação com o Xande e com o Mamute (Jhonatan Alexandre, atual vocalista do Revelação e sobrinho do Xande), ver o talento que a família deles gera. Todo mundo canta, todo mundo toca.
'Característica de família não tem para onde correr... Às vezes, quando estou cantando, parece que estou ouvindo a minha mãe',
Com Jonathan, o Mamute, que reencontrou os vocais em 2018 após a passagem de outros cantores, o Revelação se reencontrou depois da saída do Xande. Seu sobrinho pediu uma benção, Xande? Como é vê-lo arrasando no palco?
XANDE: Lembro quando ele foi lá em casa: "Queria falar com o senhor. Pô, recebi uma proposta do Revelação e queria saber o que o senhor acha". Falei: "Acho ótimo, vai ser muito bom para você e para a história do grupo, torço muito. Você vai sofrer um pouquinho, vai dizer que está me imitando, mas tem que aproveitar as oportunidades que Deus está te dando". Só que uma característica de família não tem para onde correr... Às vezes, quando estou cantando, parece que estou ouvindo a minha mãe, não tem jeito. Sobre o reencontro... é muita coisa. Lembro quando Paula (Lavigne, produtora) me fez a primeira proposta. Me chamou: "Tico-tico!". Ela me chama assim... Respondi: "Calma, Paula". Agora falei para ficar à vontade. No primeiro dia que a gente se reuniu para fotografar, começamos a tocar juntos e já era um monte de gente chorando do lado.
Bella Campos.
Luana Piovani.
Quando Mauro Júnior chegou no Revelação, levado por você, Xande, se consolidou uma parceria forte entre vocês (com Helinho do Salgueiro), comparada a, sei lá, Arlindo Cruz e Sombrinha, Zeca Pagodinho e Arlindo... O Revelação cantava músicas de outros, mas tinha uma cara, e era a de vocês...
XANDE: A gente era a maior influência. Interessante é que Helinho era meu vizinho de morro. Eu morava no Turano, ao lado do Salgueiro. Mauro morava em Padre Miguel. Mas me mudei do Helinho. Mauro sabia mais leitura musical. Procure ele pra aprender a ler cifra. Quando entrei para a Revelação, me deu uma segurança a mais, a composição ficou perfeita.
'Não consegui cantar porque tinha um casal que não parava de discutir na minha frente. Aí, puto pra caramba, falei: 'Muita calma nessa hora'. E virou um bordão', Xande de Pilares
E pensar que tudo começou com um CD pirata rosa vendido nos camelôs da Uruguaiana, que hoje virou item de colecionador...
MAURO: Pois é. E o pirata vendeu para caramba! Já que era ao vivo a gente falou: “Vamos fazer um CD oficial ao vivo”. Sem ensaio, sem nada, gravar o pagode que a gente fazia no Olimpo (extinta casa de shows no Rio) e ver o que acontece. Lançamos e vendemos quase um milhão de cópias.
XANDE: Aconteceu uma coisa engraçada nessa gravação... Eu estava sem voz. E também não consegui cantar "Grades do coração" porque tinha um casal que não parava de discutir na minha frente. Aí, puto pra caramba, falei: "Muita calma nessa hora". E virou um bordão, tipo: "Calma, que isso aí é normal".
'A menina veio correndo, agarrou o Xande e foi cavaco para um lado, eles para o outro... Tiramos Xande lá do meio e o show contínuo', Mauro Júnior
Pedro Bial.
Vocês viveram o auge entre o final dos anos 1990 e 2000. Qual foi a maior loucura que o sucesso trouxe?
XANDE: Fizemos um show em Angola. Os ingressos estavam esgotados, só que tinha um espaço enorme onde não tinha ninguém. Na porta, vários blindados do exército...
MAURO: É que o presidente de Angola foi ao show. Depois que ele entrou não podia entrar mais ninguém. Ele chegou cedo, e o povo ficou do lado de fora. Fizemos o show sem poder falar nada. Quando acabou, ele mandou perguntar se a gente poderia ficar e fazer o mesmo show no dia seguinte para o povo ver...
XANDE: Foi o dia em que tomei uma gravata de uma angolana. Ela me pegou por aqui (aponta o pescoço), me desceu e fomos os dois para o chão...
MAURO. Tinha um vai depois do palco, a menina veio correndo, agarrou o Xande e foi cavaco para um lado, eles para o outro... Tiramos Xande lá do meio e o show contínuo.
Afinal, Xande, porque você saiu do Revelação? E bem no auge... Vocês dois brigaram?
XANDE: A gente nunca brigou. Nunca tive briga por causa de roupa, de dinheiro, de comida. Mas as pessoas que estavam administrando o grupo não estavam se entendendo... No nosso caso aqui, tinha dia que eu chegava de camiseta e Mauro olhou pra mim e falou: "Vai tocar de camiseta?". Eu queria beber um golinho de uísque, e ele: "Poxa, no meio do dia, isso é hora de beber?". A gente tinha essa relação. Mas chegou uma época que ia dois para um lado, três pro outro e eu no meio. Estava vendo que era melhor evitar que saísse porrada. Nunca tivemos motivos para brigar. Mas esse moço lá em cima não brinca. Faz a gente passar um aperto para ver se acorda. E, aí, olho por esse lado: "Vou separar, cada um vai passar um sufoco de um lado". Da mesma forma que Deus fez com Moisés: mandou ele para o deserto para ver se segurava a onda.
'A gente nunca se deu bem, por que ia brigar?', brincaMauro Júnior sobre relação com Xande de Pilares
Ouvi dizer que vocês dois nunca se deram bem, que até na hora de compor parecia briga...
MAURO: Virou jargão: "A gente nunca se deu bem, por que ia brigar?" (risos). Sempre tivemos liberdade de cobrar um do outro. Eu falei da bebida porque a gente ia dar uma entrevista no meio do dia e ele: "Me dá um copo de uísque!". Não tem copo de uísque a essa hora! A gente já não dormia, só trabalhou. Se um não cuidasse do outro, onde íamos parar?
XANDE: Ficamos um bom tempo sem ninguém no Revelação beber. O único que bebê era ele, quando ele largou uma bebida, ficou aquela coisa... No Revelação, todo mundo é tímido e, quando entra em algum lugar, fica aquela coisa de não incomodar, fale só quando tem que falar. Isso aí é interpretado como marra: "Olha lá, os caras todos marrentos, não riem". A nossa maneira de sorrir era tocante.
Sei que foi, tipo, seis minutos de silêncio quando Xande anunciou a saída numa reunião.
XANDE: Era uma reunião para decidir um show nosso que teria no Coliseu, em Portugal. E anunciei minha saída. Eu Mauro temos uma coisa: Se tem dinheiro, tá tudo certo. Se não tem, também está. Tô vivo, com saúde. A gente sempre soube lidar com sucesso. Mas abri mão de tudo por ficar decepcionado com pessoas que não se entenderam. Aprendi com meu avô: "Se tiver um degrau errado, abra a escada e construa outra de novo". Fui lá para o primeiro degrau.
MAURO: Era nosso melhor momento, foi um baque em todo mundo. Deu aquele alerta e faltou calma para resolver o problema. Mas acho que já estava traçado. Depois, a gente começou a entender. O tempo é o melhor remédio.
'A gente não brigau, mas... Qual é a separação em que se sai sorrir?', Xande de Pilares
Mas em 2016, os jornais noticiaram que vocês dois saíram no tapa...
MAURO: Rolou um estressezinho, uma discussão. Aí, falei que dei uma tapa na cara do Xande. Que loucura!
XANDE: Foi calor da emoção. O momento estava tenso. Era o aniversário da mãe de um amigo nosso, já falecido. Ela queria que eu fosse. Pensei que cabia um parabéns pelo telefone, era cedo para a gente se reencontrar num ambiente. Só que ela, tadinha, já tinha uma idade e resolveu passar por cima disso. E aconteceu um pequeno estresse. Normal, porque rolava muita conversa afiada, nego fala daqui, fala dali. E a gente não estava em contato para saber o que um pensava do outro. Então, aconteceu, mas não como noticiado. Foi maldade. Aconteceu o que tinha que acontecer. Qual é a separação em que se sai sorrindo?
Mas teve uma coisa boa. A saída do Xande serviu de estímulo criativo para você, Mauro, que voltou a compor depois de um hiato, e foi fundamental para manter o grupo ativo...
MAURO. Sim, fiquei bastante tempo sem compor. Sou proeminente. Antigamente, a gente fazia duas, três músicas por dia. Na corrida de estrada, vai dirigindo. Tem cansaço mental, físico. E quando o Xande saiu, eu vi na necessidade de municiar o Revelação, manter aquele padrão e voltarei a compor.
'Pensei em parar, mas meu tio não deixou e Arlindo (Cruz), me orientou', Xande de Pilares
Como foi, Xande, quando se viu no palco sozinho?
XANDE. Preparei o corpo para as coisas que ia passar. Até decidir se eu vou seguir a música ou se eu vou parar. Sabia que não seria fácil. Tanto que fala para todo o mundo quando dizem que vão sair de grupo: "Vai sair pra quê? Para ganhar mais ou para trabalhar da forma que quer? Se for para ganhar mais, fique aí, porque a estrada não é fácil". Fui fazer um show em Queimados e ninguém sabia da minha música. Aí, voltei para o morro, para laje do meu primo. Porque quando eu fiquei do morro imaginando a rua, o que eu ia fazer, era lá. Foi lá que começou tudo. Então, era lá que tinha que recomeçar.
Primeiro cavaquinho achado no lixo, carro sem chão e muita parceria
Então, chegou a pensar em parar?
XANDE. Pensei, mas meu tio não deixou. Um dia, Arlindo (Cruz) me chamou no "Esquenta" (programa de TV apresentado por Regina Casé, do qual Xande participava): "Senta aí, brigou com alguém? Com o Mauro? Quer que a gente troque uma ideia todo mundo junto?". Eu disse que só tinha tomado a decisão de sair. E ele: "Quero que você aprenda só uma coisa: quando saí do Fundo de Quintal, achei que era o cara. Não quero que passe o que passei". E Arlindo começou a me orientar sobre como eu tinha que me comportar. E me ensinou algo que fez muita diferença: "Não saia de perto do povo e não abandone as rodas de samba para não perder sua conexão com a música". Mas foi difícil para caramba. O mais difícil, para mim, não foi só cantar sozinho. Foi a relação que tenho com o filho de cada um, a relação de família. De vez em quando, na hora de dormir, eu me perguntava: "Será que tomei a decisão certa?" Aí, lembrei das coisas que me levaram a tomar essa decisão. Saí do Revelação sem querer sair.
'Eu ia fazer uma música para ver se ganhasse um vizinho. Ela não me deu mole, eu fiquei puto, aí quis jogar a música fora', Xande de Pilares sobre 'Coração radiante'
Aos olhos de hoje, você acha que fez uma escolha certa?
XANDE. Acho. Porque a gente amadureceu. Eu amadureci, construo família, coisa que nunca quis. Sai da noite. Era um cara muito rebelde, bebia todo dia. Quando a gente fez uma live juntos na pandemia, vi que aquilo tinha que ter acontecido, embora ninguém tenha entendido. Hoje, entendo e acredito que a Revelação também. Estamos vivendo esse momento que não conseguimos que fôssemos viver, de se reencontrar e juntar nossos instrumentos, relembrar a nossa história. Eu voltei a tocar... Porque estava sem tocar... No primeiro ensaio, estava com medo, disse: "Será que ainda consigo acompanhar a rapaziada?".
É verdade que "Coração radiante", um dos maiores hits do Revelação, quase foi parar no lixo?
MAURO: Muita coisa!
XANDE: Eu ia fazer uma música para ver se ganhava um vizinho. Ela não me deu mole, eu fiquei puto, aí quis jogar fora. Fiz outra e mandei para o Mauro. Só que eu esqueci que ela estava na fita. Só tinha uma frase...
MAURO: Botei a fita e fui fazer um café. Quando voltei, estava rolando o início de "meu coração está radiante...". Peguei aquele início, fiz a melodia todinha e gravei. Terminei a outra e fui levar para ele, dizendo "tinha uma outra música lá...". E ele: "Ih, joga essa merda fora, larguei, não gostei de nada". Insistiu e ele deixou eu terminar. Fui pra casa, chamei o Helinho, que começou a escrever a letra. Saiu e ligamos para o Xande. Quando ele ouviu, ficou doido. Ó Xande pulava!
'Antigamente, os compositores datilografavam no mimeografo, aí levavam pra roda de samba e distribuíam: 'Ó, vai cantar essa música aqui'. E todo mundo aprendeu a cantar, acompanhava', Mauro Júnior
É curioso a gente cantando animado "Velocidade da luz". É uma melodia super astral para uma letra sobre... suicídio. E você teve uma relação forte com essa música, né, Xande?
XANDE: Eu tinha 12 anos, trabalhava no mercado, e minha mãe não me deixava desviar o caminho. Aí, passo na porta de um botequim com o toque pessoal. Paro. Só que, quando eu parei, estava no "todo mundo erra" (cantarola). Não sei porque aquela melodia ficou na minha cabeça. Eu cantava aquilo com um sentimento... Fiquei ouvindo toda hora. Peguei um caderno de escola e escrevi uma letra por cima, porque não sabia o resto. Escrevi para não esquecer a música. Aí, fui num outro pagode, na casa do Binho Sá, cantei a versão que fiz. Falaram: "Se o Tundy (autor da canção) vir tu cantando a música dele com essa letra, vai te dar um cascudo". Eu disse: "Então, me ensina a cantar como é". Aí me deram os detalhes que eu não conhecia. Não consegui entender porque ninguém gravou essa música. Fazia tanto sucesso...
MAURO: Antigamente, os compositores datilografavam no mimeografo, aí levavam pra roda e distribuíam: "Ó, vai cantar essa música aqui". E todo mundo aprendeu a cantar, acompanhava.
XANDE: Arlindo falou que não gostava de música. Eu quis saber por isso. "Pô, tu num prestou atenção na letra?". Vou confirmar. Só fui entender o que era quando a Beth falou.
E aí vocês gravaram 25 anos depois....
XANDE: A gente foi fazer um show no Morro da Formiga e a música fez um sucesso dando, era todo mundo chorando. Falei: "Pô, vamos gravar essa música, é hora".
'Sempre que estava fazendo show e começava a chover, Xande ficou preocupado com a casa da mãe dele cheio. Fui lá e comprei um apartamento para ela', Mauro Júnior
"Preciso te amar" tem uma história curiosa...
MAURO. Sempre que a gente fazia show e estava chovendo, a voz do Xande embargava. Eu olhei para a cara dele e sabia que estava preocupado com alguma coisa. Um dia, queria e ele disse que era porque a casa da mãe dele ia encher, que a água subia e ela perdia tudo... Eu sempre falei: "Tem que dar um jeito de tirar sua mãe de lá". O único jeito era com composição. Tocar na noite a gente não vai conseguir comprar um imóvel. Aí, o Bira Havaí (produtor do Revelação à época) reclamava que a gente nunca tinha mandando uma música pro Soweto. Fizemos uma em São Paulo e ficamos guardados numa fita. Falei: "Não mostra pra ninguém". Porque o Xande sai dando música para todo o mundo. Aí, mandei essa para o Soweto. E o Bira me ligou de madrugada já com o Belo cantando a canção. Sabia que com aquele dinheiro dava para comprar alguma coisa para a mãe dele e a gente precisava ter o cantor inteiro. Mas me deu um trabalho.... Porque o Xande pegou o dinheiro, botou na conta dele e não saiu do shopping. Pensei: "Ele vai torrar esse dinheiro".
XANDE: Torro mesmo!
MAURO. Mas peguei a mãe dele, levei no apartamento que queria e paguei o apartamento. Aí disse: "Xande, agora me paga". Ele me pagou.
'Seu Ferro Velho, meu pai, me ensinou: 'A gente não precisa ter os olhos verdes dos privilegiados. Temos que é andar bem vestido, botar um bom perfume, falar um pouco, ser educado, ter postura, Xande de Pilares
Você está muito bem, Xande? Esse cabelo aí é pintado com Henna?
XANDE. Sou vaidoso ao extremo. Quando usava trança, pintava aqui no lado. Agora estou me recuperando. Nunca mais quero saber de trança, acabou com o meu cabelo todo. Mas "Seu Ferro Velho", meu pai, me ensinou: "A gente não precisa ter os olhos verdes dos privilegiados. Temos que é andar bem vestido, botar um bom perfume, falar, ser um pouco educado, ter postura". Eu sigo.
"Tá escrito", que se tornou um hino de superação, já te ajudou em momentos difíceis, Xande?
XANDE. Na saída do Revelação me ajudou muito. Nunca parei de cantar por isso. E foi uma música feita para aliviar o momento que (Gilson) Bernini (parceiro na música) viveu: ter perdido um filho... Entrou na abertura da novela "A Dona do Pedaço", Caetano (Veloso) botou no show dele com os filhos... Um dia, me chamaram para ir ao show do Caetano e, no bis, ele começa a cantar "Tá escrito". O teatro todo olhando para a minha cara... Djavan, João Bosco, Regina (Casé)... Sou muito tímido... Quando a gente vê um ídolo cantando a gente...
'Uma sobrinha me agradeceu porque estava ouvindo Caetano por causa de mim. A avó da amiga dela de escola, me agradeço porque estava ouvindo Revelação porque escutou o 'Xande Canta Caetano', Xande de Pilares
Aí, depois, você pôs Caetano para ecoar na favela com o disco “Xande canta Caetano”. Há lugares onde a MPB não chega, mas o samba...
XANDE. Cheguei no Morro do Salgueiro e tinha uma rapaziada reunida, como sempre, nos bares, nas tendinhas. Na minha época, tocava Bezerra da Silva, Dicró, Fundo de Quintal... Um pouco mais pra frente tocava um funk ou um rap. Mas estava tocando "Xande canta Caetano". Aí, uma sobrinha me agradeço porque estava ouvindo Caetano por causa de mim. A avó da amiga dela da escola me agradece porque estava ouvindo Revelação porque escutou o "Xande canta Caetano"...
Tantos desdobramentos, uma coisa vai puxando a outra...
XANDE. Quando falo que a minha separação do Revelação tem um significado.... Tenho um lado musical que nem todo mundo conhece. Conheço Caetano, Chico (Buarque). Esse "Xande Canta Caetano" foi um projeto de nossa gaveta. Tínhamos feito um repertório querendo transformar MPB em samba. A gente sempre fez isso. Ouvia MPB por causa do meu avô. A gente tem oportunidade de cuidar, respeitando a música. Para mim, abaixo de Deus, é ela.
Xande canta desde os 12 anos e só gravou com 29 anos, perdeu casa em enchente, só tinha uma calça e uma blusa na juventude. Mauro também passou seus próprios perrengues. O que você diria para a galera que busca sucesso rápido?
XANDE. Já empurrei o carro do Mauro em cima do viaduto. Chegou lá em cima, começou a pegar. Ele tinha um carro que não tinha chão. Me deu muita carona naquela "Muzenza". Já cheguei na casa do Mauro e só tinha macarrão. Um dia, a gente foi fazer o Pagode do Pimpolho, cheguei atrasado e me deram um tíquete de refeição como pagamento....
Já botaram muita cerveja no gelo para ganhar na bebida porque não conseguiram fazer dinheiro no pagode da Tia Gessy...
XANDE. E quando não dava dinheiro, a gente continuava lá fazendo o que a gente gostava.
MAURO. Uma época era outra. A gente olhou um bar e pensou: "Ali ia ficar legal de fazer um som".
É verdade, Xande, que seu primeiro cavaco veio do lixo?
XANDE. É. Foi seu Luis, lá do Cachambi. Ele era marceneiro e via que eu não tinha cavaco. Achou um no lixo, reformou e me deu. Tenho foto até hoje. Era bonitinho, tinha um som bom...
'Muita gente me ajudou a ajudar, prometiam-me dar um cavaco novinho. E uma pessoa que me ajudou: Seu Luis. Ali, vi a importância de que é saber tocar um instrumento e não ter um. Faço pelas pessoas que fizeram pela gente', Xande de Pilares.
A importância da oportunidade... É por isso que vive distribuindo cavaco por aí? Miguelzinho do Cavaco foi um que você apresentou...
XANDE. A gente vê o talento da pessoa. Muita gente ajudou-me a ajudar, prometiam-me dar um cavaco novinho. E uma pessoa que me ajudou: Seu Luis. Ali, vi a importância de que é saber tocar um instrumento e não ter um. Faça pelas pessoas o que fez pela gente.
E convida todo o mundo para cantar com você. Outro dia, foi uma enfermeira que fez sua colonoscopia...
XANDE. O enfermeiro falou: "Xande, ela canta". Chamei para ir ao Bar do Zeca. Ela foi e cantou. Na nossa época, isso era normal.
'Hoje, a roda de samba é ensaiada, tem regência. Antigamente, quem sabia tocar, chegava na roda e tocava. O problema é que o novo está fazendo o mesmo, o novo não é novo', Mauro Júnior
Vivemos um boom do samba outra vez, temos uma roda a cada esquina no Rio, mas minha sensação é que está todo mundo cantando o mesmo repertório...
XANDE. Tá todo o mundo com medo de cantar o novo.
MAURO. Hoje a roda de samba é ensaiada, tem regência. Antigamente, quem sabia tocar, chegava na roda e tocava. O problema é que o novo está fazendo o mesmo, o novo não é novo. Muita gente boa fazendo o que todo mundo faz. É um privilégio para a Revelação ter um vasto repertório de sucesso antigo. Podemos tocar coisas de outros artistas, mas conseguimos fazer um show inteiro com músicas só de sucesso. Esses novos artistas têm que se conscientizar que podem tocar o Revelação, Fundo de Quintal, Zeca, mas têm que ter repertório próprio para a coisa sair do lugar.
XANDE: Por exemplo: Ataulfo (Alves) chega nos anos 1920 no Rio, começa a desenvolver o trabalho dele ali nos anos 1930. Aí, os de 1940 fazem o seu incentivo por ele. E por aí vai. Chegou um determinado momento que você desconectou. A rapaziada aqui é, tipo... ninguém tem avô, tio. Escutei um menino, músico extraordinário, dizer: "Não tenho que ter referência de nada, puxa saco de ninguém". Ué, gente, eu cresci orientado por mãe, pai, tio, avós, professor na escola, não aprendi sozinho. É um momento perigoso. Tipo: "Faço isso aqui e acabou". Só que quando você começa a tocar, dá 15 minutos e vai ter que ir lá atrás cantando os anos 80, 90, 2000...
'A gente usa muito a ficção, a mulher não. Quando ela compõe, fala o que sente, o que ela passa na vida', Xande de Pilares
Mas quem você está renovando o cenário?
XANDE. Veja vários: João Martins, Renato da Rocinha, Juninho Thybau, o próprio Balacobaco.
E mulheres? A ocupação de espaços por elas trouxe novos assuntos e abordagens para as composições?
XANDE. Mulher tem um monte. Da Marcelle Motta, eu gosto muito. Tem a Késia (Estácio), a própria Ludmilla, que cantamos de ver no aeroporto, deitada em cima do violão dela, junto com a mãe. Uma história bonita pra caramba que posso associar à nossa... A gente usa muito a ficção, a mulher não. Quando ela compõe, fala o que sente, o que ela passa na vida.
MAURO. Tio Alcione, Beth Carvalho, Leci Brandão, Jovelina, a mais partideira braba. Acho que faltou oportunidade de mercado para outras mulheres.
XANDE: Faltou dar espaço como deram no sertanejo. Nunca vi o sertanejo tão feminino como tenho visto. Sofrência eu já conheço desde a época da Marrom (Alcione) nova, né?
Tem gente boa versando partido alto por aí?
XANDE: Vou continuar falando dele enquanto tiver a oportunidade: Gabrielzinho do Irajá. Quando a gente está conversando, preste atenção em tudo que está em volta e na ocorrência da pessoa com quem está trocando essa ideia. Versar é trocar ideia. Só que o Gabriel não está vendendo nada (o artista tem deficiência visual), não sabe nem onde você está. O moleque é brabo demais! Se você deixar, ele te amassará. Uma vez, acabou comigo e com Anderson Leonardo (cantor).
As redes sociais ajudaram a trazer de volta à moda o pagode anos 1990. A geração do TikTok começa a viver o que não viveu. Jovens que nunca vão saber o que é "me liga, me manda um telegrama, uma carta de amor", mas ajudam a renovar o público...
MAURO: As plataformas digitais ajudaram porque muita coisa ficou perdida no tempo. Discos de vinil... Xande tem uma memória surreal, canta Jamelão, coisas que estavam no vinil. Mas o digital trouxe essa possibilidade, esse acervo de pesquisa. Para as pessoas, ainda há essa dificuldade em lidar com o digital. Vejo um monte de gente que cuida de artista digital falando que temos que participar da venda do produto, algo que não fazíamos. Entregávamos para a gravadora e eles faziam o trabalho de divulgação e venda. A gente não é vendedor de nada. Tá difícil se adaptar a isso.
O samba foi acolhido pela MPB, mas a inteligência brasileira já torceu o nariz para o pagode. Ainda há certo preconceito?
XANDE. O que é bossa nova? Os caras tocaram samba no violão, e aí virou bossa nova. Aí tem o samba de partido alto em que a rapaziada se reúne pra ver. O Partido em 5 (projeto que reuniu grandes bambas para valorizar o improviso e a batucada de terreiro) teve uma influência muito grande nisso. São coisas que vão acontecer por décadas e a gente vai ficar "ah, porque o pagode..."? Já era! A música tem que andar de mãos dadas. Deixa eu te dar um exemplo aqui... (Xande toca "Chega de saudade", de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, no cavaquinho). Beth gravou isso lindamente. Quando gravei "Xande canta Caetano", eu já cantava "não tenho nada com isso, mas vou falar" (cantarola "Muito romântico", de Caetano Veloso). Lá em casa, só tinha revista de violão. Eu lia e era bossa nova... e aí virava tudo samba. Vivemos um momento melhor do que antigamente. Ainda tem um preconceito, sim, com o samba, mas hoje é menor. As pessoas estão cantando samba, rock, tá tudo certo e "vambora"!
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