Curiosidades

Exposição no IMS Paulista reúne mais de 100 fotolivros históricos de mulheres

A mostra está em cartaz na Biblioteca de Fotografia do IMS Paulista até o dia 2 de agosto e traça em ordem cronológica 200 anos de história contada a partir de autoras pioneiras que definiram a cultura visual e retrataram a construção do papel feminino

Agência O Globo - 05/05/2026
Exposição no IMS Paulista reúne mais de 100 fotolivros históricos de mulheres
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Com estudo histórico relativamente recente, a história do fotolivro até o momento foi escrita principalmente por homens e se concentrou em publicações de autoria masculina. As mulheres têm contribuído consistentemente para a história do fotolivro, porém suas contribuições são muitas vezes negligenciadas e diminuídas. Foi isso que motivou a 10x10 Photobooks, uma organização sem fins lucrativos, a lançar a exposição “O que elas viram: fotolivros históricos de mulheres, 1843-1999”. A mostra está em cartaz na Biblioteca de Fotografia do IMS Paulista até o dia 2 de agosto e traça em ordem cronológica 200 anos de história contada a partir de autoras pioneiras que definiram a cultura visual e retrataram a construção do papel feminino.

"A realidade, como tal, é redefinida pela fotografia", escreveu Susan Sontag, uma das intelectuais mais influentes do século vinte que escreveu obsessivamente sobre fotografia. “O que elas viram” se propõe a revisitar e discutir as perspectivas distorcidas da escrita da história do fotolivro e ressalta a importância das mulheres na construção da fotografia como um campo, contando com obras de autoras de todo o mundo que vão do Brasil, com Claudia Andujar, até o Irã, com Shirin Neshat.

Exibida em instituições de prestígio em todo o mundo, como o Getty Research Institute, em Los Angeles (2025), o Museo Reina Sofía, em Madri (2024), o Rijksmuseum, em Amsterdã (2022) e a New York Public Library (2022), a mostra reúne mais de 100 fotolivros, incluindo títulos recém-incorporados ao acervo da Biblioteca de Fotografia do IMS.

Os exemplares ficam dispostos em um formato de sala de leitura e cobrem obras das pioneiras que produziram em meados do século XIX. O livro que abre a exposição é o da britânica Anna Atkins (1799-1871), considerado o primeiro já publicado na história, o “Sun Gardens: Cyanotypes by Anna Atkins” (Jardins solares: cianotipias de Anna Atkins).

A linha do tempo continua até importantes nomes da cena contemporânea, como a fotonovela "Quem você pensa que ela é?" da brasileira Cláudia Jaguaribe, publicada em 1995, e o livro autointitulado da japonesa Hiromix, publicado em 1998.

A 10x10 Photobooks foi fundada em 2012 pelas curadoras e pesquisadoras da mostra Russet Lederman e Olga Yatskevich com o intuito de compartilhar fotolivros globalmente. O projeto “promove o estudo crítico e o engajamento com o fotolivro, com atenção especial a práticas contemporâneas, publicações negligenciadas e áreas pouco exploradas”.

Na introdução do catálogo da mostra, Lederman e Yatskevich argumentam que a história dos fotolivros precisa ser "desescrita", pois esta é repleta de omissões. “O que é deixado de fora não é por engano — é indicativo de viés e pesquisa incompleta por parte dos atuais responsáveis ​​pela seleção dos autores. Se quisermos apresentar uma visão mais inclusiva e diversa, devemos primeiro abordar as lacunas e falhas.”

A maioria dos exemplares expostos são naturalmente, por estes serem historicamente grandes produtores de livros, dos Estados Unidos e da Europa. Com uma pesquisa que abrange um recorte internacional, as curadoras não medem esforços para expandir esse horizonte.

A mostra já incluía autoras brasileiras, como Andujar, Gretta Sarfaty e Maureen Bisilliat, que publicou o “A João Guimarães Rosa”, em homenagem ao clássico do autor, que acompanhou a montagem do fotolivro. Mas, com a ajuda de Miguel Del Castillo, coordenador da biblioteca de fotografia do Instituto, somaram-se livros de Stefania Bril, Ana Mariani, Cláudia Jaguaribe e Vilma Slomp, as últimas duas ainda em atividade.

— Pensando em adaptar a pesquisa à localidade, o Miguel junto à equipe do IMS sugeriu autoras brasileiras importantes que entraram para compor as sessões — conta Lederman.

— São duas autoras que já faleceram e duas autoras que ainda estão vivas, produzindo, e que, enfim, ajudam a compor um pouco mais esse panorama. Juntos achamos importante destacar esses trabalhos. Poderiam ser muitos outros, que inclusive temos aqui no acervo — explica Del Castillo.

Além disso, a pesquisa rompe com a definição padrão do conceito de um fotolivro — um volume encadernado com ilustrações fotográficas que é publicado pelo autor, por uma editora independente ou por uma editora comercial.

— As mulheres sendo excluídas dos espaços institucionais, o livro surgia como uma possibilidade de experimentação mais livre. Para os tipos tradicionais de fotolivros, as mulheres tinham oportunidades limitadas de serem escolhidas por editoras comerciais e também tinham necessidades financeiras limitadas. O que elas conseguiam fazer era criar álbuns, elas são as criadoras originais de álbuns de recortes. Existe uma longa história de mulheres criando livros únicos e elas conseguiam fazer pequenas coisas que não custavam muito e que não exigiam que os intermediários as aceitassem — explica Yatskevich.

Tanto o IMS quanto a 10x10 Photobooks reforçam o compromisso em pensar o fotolivro como sua própria forma artística e não como um apenas um suporte para imagens.

"O que elas viram" dá continuidade ao trabalho “How We See: Photobooks by Women” (Como Vemos: Fotolivros de Mulheres) e a publicação associada em 2018, que ​​se concentrou em fotolivros contemporâneos de mulheres e cobriu o período de 2000 a 2018.

— Há muito trabalho a ser feito e sabemos que apenas abrimos uma fresta na porta da história — afirma Lederman.

“Vemos esta documentação do papel das mulheres na produção, disseminação e autoria de fotolivros como um passo necessário para desconstruir a história atual do fotolivro e reescrever uma história mais equitativa e inclusiva” afirma o texto das curadoras para o catálogo, que recebeu em 2021 o PhotoBook Award de melhor catálogo do ano, prêmio concedido durante a feira Paris Photo.

Após o fim da exposição, em agosto, os exemplares passam a fazer parte do acervo permanente da biblioteca de fotografia do IMS.