Curiosidades
'Imortal' Antonio Carlos Secchin volta à poesia com livro sobre recomeços: 'Há preconceito contra escritores após certa faixa etária'
Ocupante da cadeira 19 da Academia Brasileira de Letras lança 'Desmentir' nesta terça-feira (5)
O “culpado” sempre volta ao local do crime, brinca, em entrevista, o imortal da Academia Brasileira de Letras Antonio Carlos Secchin. O bibliófilo, ensaísta e crítico literário retoma ao seu ofício mais marcante: poeta. Foram nove anos de intervalo entre seu “Desdizer” e “Desmentir” (Patuá), a mais nova antologia poética do autor, que será lançada nesta terça-feira (5), às 17h30, na ABL.
No intervalo entre os dois títulos, o carioca refletiu e teorizou sobre literatura, em ensaios como “Papéis de prosa: Machado & Mais”. Agora, no novo lançamento, põe a mão na massa, revelando 32 novos poemas inéditos e em formatos variados, do verso livre às composições de métrica regular.
O senhor planejou este retorno à poesia ou os poemas simplesmente foram aparecendo?
A poesia sempre foi o núcleo preferido de minha produção. Mas eu a guardava num nicho tão preservado que depois acabava me esquecendo de onde a havia escondido! Em represália, ela sumia. Enquanto a poesia se esqueceu de mim, eu, porém, não deixei de buscá-la em discursos paralelos: da análise, do ensaio, da palestra. Minha produção poética é pequena. No fim de 2025, verifiquei que armazenara coleções de poemas semiprontos, versos soltos... O que fazer com isso? Deletar tudo ou procurar converter tais esboços em poemas legíveis? Então, reuni os poucos que já considerei aceitavelmente prontos aos que conseguiram desenvolver a partir desse depósito de fragmentos.
Como foi o processo de escrita?
Daí surgiram as duas primeiras declarações do livro, “Desmentir” e “Dez sonetos malcriados”. A terceira, um bestiário intitulado “Abecebicho”, correspondeu a um desafio de criar quadras em redondilhas contemplando, por ordem alfabética, animas cujas letras iniciais se estendem de “a” a “z”. Para minha surpresa, consegui escrever o conjunto em tempo record: uma semana, em vez de 3 ou 4 anos de praxe.
“Desmentir” traz este verso: “Setenta anos / e ainda em recomeço”. Este livro também é uma espécie de recomeço do trabalho poético?
Alguém disse que, em poesia, juventude é algo que só se conquista depois de muitos anos. Há forte preconceito contra a capacidade criativa do escritor após certa faixa etária. Por isso valorizo a ideia de “recomeço”, mas com um detalhe: a partir de onde não estive, recomeçar não em trajetória linear, mas num território até então desconhecido. Esse é o risco/desafio, a minha ver inerente à aventura poética, que tanto pode desembocar na aventura do bom poema quanto na desventura do fracasso.
Quais são os pontos de diálogo entre “Desdizer” (2017) e “Desmentir” (2026), separados por quase 10 anos?
O ponto de contato mais evidente é o prefixo “Des”, que indica ação em sentido contrário: montar/desmontar, aparecer/desaparecer. Essa proposta de ir contra os discursos prévios está implícita em “desdizer” e “desmentir”. Mas há um diferencial: em “desmentir”, o ”des” não remete necessariamente à verdade. Você pode, ao contrário, desmentir algo para então criar uma mentira, não para eliminá-la; o “desmentido” passa assim a significar o seu oposto, ou seja, ele não pressupõe a revelação de uma verdade. Nessa sucessão de livros com o prefixo, só espero que o próximo não se chame “Desligar”, porque aí teria a facilidade tácita de que é hora de fechar a barraca das palavras e da vida.
Com muito humor, o livro tem ecos de poetas como Leminski e Nicanor Parra...
Traços de humor, de ironia e de autoironia acompanham há tempos, talvez acentuados no novo livro. Em poesia, oposições arraigadas, como entre “densidade” e “leveza”, costumam ser desfeitas. Conciliar criatividade e claro é o horizonte ao qual se aspira, embora seja difícil chegar lá, ao que Fernando Pessoa formulou de modo lapidar: ser raro e claro. Ser apenas raro não interessa, pelo risco do beletrismo ornamental, muitas vezes a serviço de uma pseudoprofundidade. Ser apenas claro tampouco, porque há espaços mais adequados e eficazes para proclamações e quadrinhos do que os versos de um poema.
O livro reúne sonetos, haicais, poemas em prosa e versos livres. A forma poética ainda é um campo de aventura?
Costumo dizer que só há uma coisa mais difícil de conquistar um estilo próprio: é conseguir livrar-se dele. A experiência com formas diferenciadas em geral acaba criando assuntos líricos também diversos. O “eu” pode ser desdito e desmentido o tempo todo, me agrada dissolver a falácia de uma 'unidade profunda”, em prol de múltiplos “eus”, às vezes incompatíveis entre si.
O que a poesia ainda oferece que nenhum outro gênero oferece?
O que a poesia oferece é a miragem de um espaço de liberdade absoluta: tudo pode ser aqui, sem que haja protocolo prévio do modo de dizer. O poema é uma canalização possível dessa potência inexaurível da linguagem. A poesia remete a uma temporalidade a contracorrente. Voz que clama, com insistência, pelo direito a divagar devagar. Em que outra manifestação discursiva se dá tanta importância ao ritmo como fundamento básico? Ritmo é o que retorna, oposto à simultaneidade de um agora insaciável, que tritura o passado e não vislumbra o futuro: o império do momentâneo e do compromisso. Ainda que muitas vezes, conforme assinalou João Cabral, estamos escrevendo para o Leitor Ninguém. Nem por isso desistimos.
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