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Análise: Shakira passa por Copacabana como rainha da simpatia em show com previsibilidade no setlist

Após atraso, apresentação chama atenção por carisma de artista, alternando picos de energia com intervalos que prejudicaram fluidez

Agência O Globo - 03/05/2026
Análise: Shakira passa por Copacabana como rainha da simpatia em show com previsibilidade no setlist
Shakira - Foto: Reprodução / Instagram

Às 22h53, com um show de drones (e um atraso de mais de uma hora, alegando "razões pessoais"), a cantora começou o seu esperado show na Praia de . Uma faixa instrumental, com beats fortes, foi aquecendo o público durante o espetáculo visual, que terminou sem que a cantora aparecesse no palco.

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Polêmica:

Um "Te amo, Brasil' escrito em drones ainda manteve o público com a respiração presa, mas nada de Shakra aparecer no palco. Enfim, às 23h05, os telões se iluminaram e um vídeo com a cantora recriada por inteligência artificial começou de fato a noite — que, ao longo de mais de duas horas, se dividiria entre o roteiro do show que a cantora vem fazendo na turnê "Las mujeres ya no lloran" e as participações dos convidados brasileiros.

"Boa noite, Rio", disse a cantora ao longo da dançante "La fuerte", faixa de abertura dos seus shows. E em seguida, ela fez uma convocação às latinas em "Girl like me", ainda sob saraivada de beats, na rampa em frente ao público. Já no palco, com seu balé, Shakira foi de "Las de la intuición", com citação ao seu primeiro hit, "Estoy aquí", de mais de 30 anos. Em meio à festa de som e luz, o público já tinha se esquecido de todo atraso. "Estoy aquí, Brasil!", lembrou a estrela. "E pensar que eu cheguei aqui quando tinha 18 anos... e olha isso aqui!"

Seguindo o roteiro de seus espetáculos, chegou a hora das guitarras e do rock de Empire" e "Inevitable", seguidas do reggaeton da vingança de "Te felicito”, com direito a encenação com um Ken humano e colorido espetáculo visual à la Barbie. "A vida tem formas de recompensar a gente", disse Shakira, em momento confessional, dedicando o show "às mulheres". Depois, com uma guitarra rosa em punho (na qual ainda fez um solinho), a cantora voltou ao rock em “Don't bother”.

Parte do setlist costumeiro, a balada de piano "Acróstico", para os filhos, deu uma esfriada no público, que precisou ser reanimado com uma sessão de reggaeton e demais latinidades calientes de "Copa vacía", "La bicicleta" e "La tortura". Só podia dar mesmo, na sequência, em "Hips don't lie", seu primeiro hit global, que ela cantou (e dançou) em meio a muitas juras de amor ao Brasil.

Com a cúmbia de "Chantaje", Shakira deu prosseguimento ao programado baile, mas ai fez uma escapadela por "Loca", puxando um pouco no arranjo pela sede funkeira dos brasileiros. Daí que caiu muito bem logo depois o embalo de um "Soltera", mas não sem antes que ela falasse da correria das mães solteiras no mundo — "e eu sou uma delas!", lembrou.

A aparição de Anitta para um dueto na estreia ao vivo (num show de Shakira) de "Choka choka" deu início de fato ao espetáculo que os brasileiros esperavam da colombiana — a passagem da carioca pelo palco foi breve, mas deu uma sacudida na noite, que seguiu só com a dona da noite no ska "Can't remember to forget you", uma das antigas, recentemente recuperada para os seus shows.

Sempre funciona bem a nova versão trapeira, com baixo distorcido, de "Ojos así" — e ali em Copa, mais uma vez, esse foi um dos momentos altos do show de Shakira. Em um curioso mas esperado contraste, a sua viagem ao próprio passado a levou ao emotivo rock "Pies descalzos, sueños blancos" e ao clima de luau de "Antología" — ambas, oportunidades para a cantora se soltar e deixar um pouco os quadris de lado (e o público ir tomar uma cerveja).

Essa parte do roteiro foi perfeita para que Shakira chamasse "um dos primeiros artistas que eu conheci no Brasil" (e a quem nao poupou elogios): Caetano Veloso. Com sua banda e o reforço do violonista de Caetano, Lucas Nunes, os dois singraram por uma terna "Leãozinho", a música que Shakira costuma cantar para o filho Milan dormir. Hora de indisfarçável fofura na noite.

Mal Caetano saiu do palco, entrou a irmã, Maria Bethânia. Reverente à rainha da canção brasileira, Shakira foi mais quadris que voz (mas respeitáveis quadris de samba) em "O que é, o que é", de Gonzaguinha. Aberta definitivamente a seção brasileira do show, teve a bateria da Unidos da Tijuca em "Objection (Tango)" e uma aparição fulminante de Ivete Sangalo, que roubou o show e instaurou o Carnaval com um "País tropical", do ilustre morador do hotel em frente ao palco, Jorge Ben Jor.

De volta à programação normal, Shakira sacou da manga o hit "Suerte (Whenever, wherever)", que, em arranjo fortemente percussivo, emendou inevitavelmente em

"Waka Waka (esto es África)", alegre, colorida e ideal para a pausa antes do bis. Que foi exatamente o esperado, com "She wolf" ("onde estão as lobinhas e lobinhos do ?", arriscou ela) e a grande canção da vingança, “BZRP Music Sessions #53” ("as mulheres já não choram, as mulheres faturam") que há poucos anos fez de Shakira a rainha das pistas e do streaming.

Sem nada do caráter vanguardista, art pop, ou o peso do mito de Madonna e Lady Gaga, Shakira passou por Copacabana como a rainha da simpatia. Falante, expressando-se o tempo inteiro em português, ela fez de tudo para conquistar o público, mas com bastante previsibilidade no setlist, vídeos sem enorme criatividade e alguns intervalos que prejudicaram um pouco a fluidez do show. Entre altos e baixos, porém, a praia foi dela.