Curiosidades
Crítica: 'Um hino à vida' traz olhar pessoal sobre caso de violência sexual
Relato sobre crimes sexuais delega a vergonha dos atos aos agressores, não à vítima
O caso de estupro recorrente sofrido por Gisèle Pelicot, praticado por seu próprio marido e que ganhou repercussão internacional em 2024, é detalhado agora em “Um hino à vida”, obra escrita por ela em parceria com a jornalista e escritora Judith Perrignon. O livro remete tanto ao jornalismo literário de Janet Malcolm quanto ao memorialismo contundente de Annie Ernaux, ao lançar um olhar distanciado e reflexivo sobre sua própria trajetória.
Gisèle estava casada há 50 anos quando descobriu que, entre 2011 e 2020, seu marido, Dominique Pelicot, adopava com medicamentos e convidava outros homens para violenta-la. Após a revelação dos crimes, ela passou a se culpar por não ter percebido a relação entre os sintomas e os abusos sofridos.
De início, a obra reúne informações já divulgadas pela imprensa. Mas, afinal, por que ler essa autobiografia? Ao costurar memórias da infância e do casamento com o momento em que tomou conhecimento dos crimes — por meio dos investigadores — até o desfecho do julgamento, que em 2024 condenou o marido e outros 51 homens, o relato conduz o leitor a se questionar, junto com Gisèle, como tamanha atrocidade poderia acontecer.
A leitura impõe o enfrentamento do horror do caso e provoca uma sensação de vulnerabilidade: mesmo sendo uma situação extrema em perversidade, a dinâmica e o passado do casal quase não despertavam suspeitas. Gisèle conclui que o crime poderia ter ocorrido com qualquer mulher.
“Então, de repente, me senti culpada. Culpada de não ter visto nada, de não ter me protegido melhor”, escreve a autora, que posteriormente se revolta: “Quanto mais a história se espalhava, mais as pessoas insinuavam que eu não poderia ter permanecido totalmente passiva. Eu, no meu infortúnio, não preciso dizer nem provar nada. A polícia fez isso por mim (...) E, apesar de tudo isso, ainda era preciso convencer as pessoas.”
Ao afirmar que a culpa e a vergonha não devem recair sobre a vítima, mas sim sobre os agressores, Gisèle assume o protagonismo de sua narrativa e transfere a responsabilidade a quem de fato a detém.
Estupro, agressão e feminicídio são formas extremas de desumanização das mulheres, gerando sentimentos de paralisia e perda de autonomia sobre o próprio corpo. Esses sentimentos, presentes ao longo de todo o livro de Pelicot, ecoam a cada novo caso, como as revelações dos arquivos de Epstein ou a crescente onda de feminicídios no Brasil.
Trazer à tona a história de Gisèle é considerar o quanto o machismo ainda persiste em nossa sociedade e, ao mesmo tempo, resgatar sua humanidade. Enquanto o estupro desumaniza a mulher, a literatura desenvolve sua humanidade ao revelar sua dor e força diante das adversidades. Essa retomada de protagonismo evidencia como a vergonha, na realidade, está enraizada no machismo estrutural, e não nas vítimas.
Assumir a voz dessa narrativa é também devolver o problema à coletividade. Delegar a vergonha a quem realmente merece e escancarar a desumanização cometida são formas de exigir que a sociedade tome exceções para que a violência seja devidamente julgada e os verdadeiros culpados, responsabilizados.
"Havia perdido o medo dos olhares, já não temia que as pessoas comentassem. A vergonha precisava mudar de lado. (...) Todos precisaram ver os 51 estupradores. Eles é que deveriam se curvar. Não eu", decreta Gisèle em seu relato.
* Bruna Meneguetti é escritora e jornalista
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