Curiosidades
Filme símbolo de uma era, 'São Paulo S/A' volta às salas de cinema em versão restaurada após 60 anos
Longa de Luiz Sérgio Person se mantém atual retratando anseios da capital econômica do país
De volta às salas seis décadas após seu lançamento, “São Paulo Sociedade Anônima” é mais do que um clássico do cinema brasileiro. Ambientado entre o fim dos anos 1950 e o início dos 1960, em pleno surto da implantação da indústria automobilística da era JK, o filme de Luiz Sérgio Person ainda hoje ecoa os anseios da capital econômica do país: o culto ao progresso, a promessa de ascensão social e a desumanização que acompanha o crescimento urbano desenfreado.
'Quarto do despejo':
Místicas:
Presença recorrente nas listas de melhores títulos nacionais de todos os tempos, o longa reestreia na quinta-feira (26), em versão restaurada em 4K, depois de ser exibido no Festival Il Cinema Ritrovato, na Itália, evento dedicado à preservação de clássicos do cinema mundial filmados em película. A restauração é resultado de uma parceria internacional entre a Lauper Films, a Cinemateca Brasileira e a Cineteca de Bolonha, com o apoio da Hobson Lucas Family Foundation e The Film Foundation (organização sem fins lucrativos criada em 1990 pelo cineasta Martin Scorsese).
O relançamento no Brasil integra a programação do Petrobras Vitrine, que já resgatou outros títulos do audiovisual como "Saneamento Básico, o Filme" e "Durval Discos".
— Estamos muito felizes porque, apesar de ter 60 anos, “São Paulo S/A” possui características extremamente contemporâneas — diz a atriz, cineasta e apresentadora Marina Person, filha de Luiz Sérgio. — A trama do filme tem algo de premonitório, ajuda a entender como São Paulo se tornou o que é hoje. Mas, para além disso, ele fala de uma condição humana mais ampla: a inadequação, o impulso de fazer parte de uma máquina que funciona de maneira tão frenética que não permite escape.
Mal-estar do sucesso
O protagonista Carlos, vivido por Walmor Chagas, é a expressão mais acabada desse mal-estar. Jovem de classe média, ele transita por uma cidade em expansão, seguindo um destino previamente traçado: parcerias comerciais, casamento, amantes e uma ascensão meteórica na indústria automobilística. Mas, à medida que essas conquistas se multiplicam, cresce também sua incapacidade de se reconhecer naquele papel social.
A primeira cena do filme mostra Carlos discutindo com a mulher (Eva Wilma) dentro de seu apartamento. A ação é filmada inteiramente do lado de fora, através da janela, e nos vidros se projetam os reflexos dos arranha-céus, como se a cidade se impusesse sobre a intimidade conjugal. A imagem antecipa o que virá a seguir: um personagem em crise existencial, sufocado por uma metrópole que cresce sem oferecer espaço para o indivíduo. Esvaziado emocionalmente, ele cogita abandonar a carreira e o casamento.
Primeiro longa de Person, “São Paulo S/A” se insere nas vanguardas cinematográficas da época. Inspirados pela liberdade da nouvelle vague, cineastas na Europa, na Ásia e na América do Sul deram as costas para o modelo americano, fugindo dos estúdios e buscando a vivacidade e a imprevisibilidade das ruas.
“‘São Paulo S/A’ é a volta ao cinema urbano, de uma maneira inteligente e muito bem realizada”, disse Cacá Diegues, um dos líderes do Cinema Novo, na época do lançamento do longa. “Talvez o melhor filme brasileiro do momento”.
No GLOBO, o filme ganhou aplausos do Bonequinho (sentado), para quem o longa representava um “amadurecimento súbito do cinema brasileiro”. A crítica também elogiou a atuação dos protagonistas Walmor Chagas e Eva Wilma (“parecem atores estrangeiros”) e registrou alguns comentários de espectadores cariocas na saída da sessão.
“Jamais alguém que vivesse no Rio seria afligido por tanto tédio”, brincou um deles. “Esse, sim, é o tema adequado para dar impulso econômico ao cinema brasileiro. O público da cidade não se identifica com cangaceiros”, afirmou outro, referindo-se provavelmente ao sucesso crítico de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” no ano anterior.
Person modelou parte de suas ideias no neorrealismo italiano, que popularizou no pós-guerra filmagens em locações reais, uso de atores não profissionais, iluminação natural e foco no cotidiano. Não por acaso, a cidade em “São Paulo S/A” aparece de forma concreta, num registro que flerta às vezes com o documental.
— O filme anuncia muitas coisas nas entrelinhas — observa Marina. — Uma delas é a substituição do transporte público pelo transporte individual. Há cenas documentais, não encenadas, de pessoas arrancando trilhos de bonde das ruas. Aquilo indica que aquele espaço vai virar uma via para automóveis. Hoje, olhando para trás, fica muito claro como o filme ajuda a entender o Brasil e São Paulo contemporâneos.
‘Prolongamento da vida’
O diretor, que defendia o cinema como “prolongamento da vida”, estudou a sétima arte na Itália no início dos anos 1960 e chegou até a realizar um curta-metragem por lá. Ao voltar para o Brasil, afastou-se da vida artística e assumiu um cargo na empresa da família. Essa experiência estaria na origem do personagem Carlos em “São Paulo S/A”.
Person morreu em um acidente automobilístico em 1976, um ano antes de completar 40 anos. Sua filmografia inclui ainda “O caso dos Irmãos Naves” (1967), “Panca de Valente” (1968) e “Cassy Jones, o magnífico sedutor” (1972).
Por sua modernidade, “São Paulo S/A” costuma ser associado ao movimento do Cinema Novo. Mas a ideia, que não agradava o próprio Person, está longe de ser unânime.
— Enquanto o Cinema Novo voltou seu olhar para o Brasil rural, para o sertão, para uma linguagem mais solta, o filme de Person é marcado por um rigor formal muito grande, que não dialoga diretamente com a estética do movimento — avalia Marina Person. — Luiz Sérgio Person conhecia Glauber Rocha e outros nomes centrais do Cinema Novo, mas não fazia parte do grupo.
Marina Person lembra que Glauber Rocha não teria gostado do final melancólico de “São Paulo S/A” , segundo relatos que ouviu:
— Para ele, a mensagem final deveria apontar para uma saída revolucionária. Mas Person entendia que permitir essa fuga seria apaziguador demais. A intenção era justamente que o público saísse do cinema angustiado.
Fundos de George Lucas
A restauração de “São Paulo S/A” foi realizada no laboratório L’Immagine Ritrovata, um dos principais centros internacionais dedicados à preservação cinematográfica. Diferentemente de muitos processos atuais, o trabalho partiu do negativo original em película, e não de uma cópia digital. A escolha permitiu que fossem recuperados com maior fidelidade os detalhes de imagem e som concebidos na realização do filme.
Em Bolonha, para onde os negativos foram enviados, o restauro foi feito frame a frame, e o processo incluiu a recuperação da trilha sonora. O procedimento artesanal é raro no cenário atual, em que predomina a restauração digital, que é mais rápida e mais barata.
— É um trabalho conduzido pela The Film Foundation dentro de um de seus programas específicos, o World Cinema Project, voltado à preservação do cinema mundial — lembra Marina. — Há uma dimensão política importante nisso, ligada a necessidade de preservar cinematografias de todo o mundo.
Os recursos que financiaram a restauração vieram da Hobson Lucas Family Foundation, mantida por George Lucas e esposa, Mellody Hobson, uma fundação que destina fundos especificamente para a preservação cinematográfica.
— É curioso pensar que parte do dinheiro arrecadado com “Star Wars” acaba ajudando a restaurar um clássico do cinema brasileiro — diz Marina.
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