Curiosidades

Morre Frederick Wiseman, lendário documentarista que retratou instituições, aos 96 anos

Cineasta americano recebeu um Oscar Honorário pelo conjunto da obra em 2017

Agência O Globo - 16/02/2026
Morre Frederick Wiseman, lendário documentarista que retratou instituições, aos 96 anos
Frederick Wiseman - Foto: Reprodução / Instagram

Frederick Wiseman, um dos maiores nomes do documentário mundial, morreu aos 96 anos. O falecimento do cineasta americano foi anunciado por sua família nesta terça-feira (18).

Reconhecido como um verdadeiro anatomista das instituições humanas, Wiseman construiu uma carreira sólida ao retratar o funcionamento interno de organizações em mais de 40 filmes. Sua filmografia examina desde universidades, hospitais, órgãos de justiça e museus até a indústria da moda, zoológicos e restaurantes, sempre revelando uma teia social mais complexa do que a ficção poderia criar.

Nascido em Boston, em 1930, Wiseman permaneceu ativo até o fim da vida. Produziu alguns de seus trabalhos mais aclamados após os 80 anos, como “Monrovia, Indiana”, “Ex Libris”, “In Jackson Heights”, “National Gallery” e “At Berkeley”.

Estreia banida

Formado em direito e professor da Universidade de Boston nas décadas de 1950 e 1960, Wiseman estreou no cinema com o polêmico “Titicut Follies” (1967). O filme, que expôs as condições desumanas de um hospital psiquiátrico criminal, foi banido por décadas nos Estados Unidos.

No Brasil, seus filmes são presença constante em festivais. Em 2001, o festival É Tudo Verdade realizou uma retrospectiva inédita de sua obra. Seu documentário mais recente, “Menus-Plaisirs – Les Troisgros” (2023), também foi exibido no país, abordando a tradição gastronômica francesa e a transição de liderança do chef Michel Troisgros para seu filho, César. Em 2017, Wiseman foi agraciado com o Oscar Honorário pelo conjunto de sua obra.

“Eu quis selecionar sistematicamente como temas instituições que são importantes no funcionamento da sociedade americana”, afirmou Wiseman em entrevista ao IndieWire, em 2017. “Toda sociedade tem escolas, hospitais, prisões, alguma forma de assistência social, alguma forma de artes; portanto, era uma maneira de olhar para a vida americana contemporânea através de instituições que são importantes e que, por implicação, têm suas contrapartes em outros lugares.”

Cinema direto

Wiseman tornou-se referência na escola do cinema direto. Seus documentários dispensavam narrações em off e trilhas sonoras, criando conexões visuais potentes entre indivíduos e a máquina burocrática. O cineasta mergulhava nos ambientes de trabalho e, com paciência e precisão, revelava a essência dos conflitos humanos presentes nesses espaços. Muitos de seus filmes desafiavam o espectador pela longa duração, chegando a até quatro horas.

Sua câmera também explorou outros espaços de convívio, como comércios (“The Store”), cabarés (“Crazy Horse”), bairros (“Jackson Heights”, sobre uma área multiétnica do Queens, em Nova York) e governos (“City Hall”, sobre a prefeitura de Boston).