Curiosidades
Após estreia no carnaval, versão da Cuca criada por Renato Rocha chega ao palco em performance transmídia
Ator e diretor estrela o solo 'A Cuca', no Teatro Futuros, no Flamengo, após pesquisa motivada por pergunta da filha sobre o fim do mundo
Ao ocupar seu assento no Teatro Futuros, no Flamengo, Zona Sul do Rio, a partir de hoje, o público será impactado pela mesma pergunta feita em 2021 por Julieta, então com 3 anos de idade, ao pai, o : “Quando eu crescer, o mundo ainda vai existir?” A questão, que acertou Rocha em cheio, foi feita durante a pandemia de Covid-19, quando ele fazia em casa reuniões em vídeo com 12 artistas de várias partes da Amazônia para , abordando temas como a emergência climática e a luta dos povos originários por seus territórios.
'Visitando o Sr. Green':
Pasolini:
Após passar por Londres, Glasgow e Porto, Rocha permaneceu numa residência artística de um mês na Amazônia com o projeto, em comunidades indígenas de Manaus, antes de aportar no Rio, em 2024, com a exposição de mesmo nome, também no espaço Futuros — Arte e Tecnologia. Navegando por um rio numa noite, veio à mente do diretor a figura da Cuca, não a imortalizada por Monteiro Lobato no “Sítio do Picapau Amarelo”, mas o ser ancestral e feminino da floresta. A Cuca como visage, entidade invocada em rituais de transmissão de saber e memória em diferentes culturas indígenas.
Da epifania em águas amazônicas, a Cuca confeccionada pelo próprio diretor teve como primeiro palco o carnaval, no cortejo do Cordão do Boitolo de 2024, tendo como cores o verde e rosa da Mangueira, escola da família do diretor, que cresceu no bairro do Maracanã, Zona Norte do Rio. No ano seguinte, ela surgiu em vermelho, a pedir permissão a Exu para brincar na folia, no Bloco Tecnomacumba, no desfile do Cordão do Boitatá e na própria Marquês de Sapucaí. Agora, antes de Momo receber as chaves da cidade, ela ocupa o Teatro Futuros, de hoje a 29 de março, na performance transmídia “A Cuca”, com texto, direção e atuação de Rocha.
— Naquela imersão na Amazônia, convivendo com os indígenas e os artistas do Casa Comum, numa viagem de barco que durava um dia inteiro, me veio a figura da Cuca, e de como ela poderia me ajudar a responder a essa pergunta da Julieta. Já pensava muito em como criar uma menina numa sociedade machista, sendo que vim de uma família matriarcal. A Cuca me abriu um portal para explorar esse lado feminino, e, como um réptil, trocar de pele a cada ano — explica Rocha. — Ela possibilita que um cara branco, hétero e de 50 anos possa rever essa subjetividade masculina, que os homens raramente falam sobre. Me montar como Cuca junto à minha filha reforça a educação antipatriarcal que quero que ela receba.
As aparições da Cuca no carnaval foram registradas em vídeo, ainda que sem uma intenção de levar o personagem a um projeto profissional. Até que ano passado veio a ideia de trazê-la para o palco em uma montagem transmídia, unindo performance, teatro, vídeo, música e artes visuais. Sobre o palco livre de qualquer elemento cênico, à exceção do figurino vermelho deixado no chão, Rocha surge trajado em verde e rosa, com o áudio da filha ecoando em off. Ao fundo, uma edição de vídeos traz os registros de suas passagens pelo carnaval carioca, junto de imagens da Cuca do “Sítio do Picapau Amarelo” dos anos 1970/1980 e da tela pintada por Tarsila do Amaral em 1924.
Há quase 15 anos sem fazer performances, Rocha, que despontou no Nós do Morro, passou pela Intrépida Trupe e construiu uma carreira internacional em espaços como a Royal Shakespeare Company, em Londres, realizou, enfim, seu primeiro solo.
— É um pouco assustador estar só no palco, pensar que estarei aqui de quinta a domingo diante do público. Às vezes me perguntava: “Mas quem foi que inventou isso?” Nem podia culpar ninguém — diverte-se. — Mas, mesmo assim, não me sinto sozinho, é como se fosse uma invocação das pessoas que trouxe comigo para essa experiência. Como se a minha avó pernambucana, que veio morar no Rio ali perto da Mangueira, minha mãe, que herdou esse amor pelo carnaval, minha filha, as pessoas no bloco, estivessem dividindo o palco comigo.
Além da performance, Rocha lançará no Futuros, em março, o livro “Transmutações — Entre peles, lugares e mestres” (Edições Cândido), com memórias registradas desde 2012, cobrindo sua carreira internacional até a volta ao Brasil, em 2016, quando fundou o NAI — Núcleo de Artes Integradas, e, por fim, sua Cuca sendo levada ao palco.
— Comecei a fazer um diário de bordo lá atrás, anotando experiências na Europa, na Índia, no Quênia, na Tanzânia ou no Egito, onde estive durante a Primavera Árabe, e não podia andar sozinho porque corria risco de vida — lembra Rocha. — Entram também memórias de infância, a passagem pelo (Morro do) Vidigal (com o Nós do Morro), até chegar à Cuca, um trabalho gestado durante quatro anos. Nunca tive uma experiência assim.
Nova aparição
Após a estreia, a temporada será interrompida durante o carnaval, e retorna na quinta-feira seguinte, após a Quarta-Feira de Cinzas. O que não quer dizer que a Cuca terá folga durante os dias de folia:
— A nova troca de pele vai gerar uma Cuca toda preta este ano, simbolizando os mortos, as pessoas que perdemos. Ela deve aparecer em Santa Teresa, na Quarta-Feira de Cinzas. Quem sabe ela não vem para o palco também?
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