Curiosidades

Museus italianos ampliam acesso à arte com experiências táteis para pessoas cegas

Com apoio de recursos europeus, instituições investem em modelos em relevo, audioguias e experiências sensoriais para tornar o patrimônio acessível a visitantes com deficiência visual.

Agência O Globo - 06/02/2026
Museus italianos ampliam acesso à arte com experiências táteis para pessoas cegas
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A Itália, reconhecida mundialmente por seu vasto patrimônio artístico e histórico, avança na promoção da acessibilidade cultural para pessoas cegas e com deficiência visual. Desde 2021, museus e sítios históricos em diferentes regiões do país vêm adotando visitas táteis, maquetes em relevo e sistemas de áudio, impulsionados por financiamentos europeus dedicados à acessibilidade universal.

Mais do que eliminar barreiras físicas, a iniciativa propõe uma nova forma de interação com a arte e fortalece o turismo inclusivo. Cidades emblemáticas passaram a adaptar espaços e conteúdos, garantindo que o acesso ao patrimônio cultural seja um direito efetivamente compartilhado por todos.

Museu Omero inspira modelo nacional de acessibilidade

Um dos principais exemplos desse movimento é o Museu Omero, em Ancona, fundado na década de 1990 por Aldo e Daniela Grassini, ambos cegos. Único museu tátil da Itália financiado com recursos públicos, o espaço foi criado para afirmar o direito universal ao usufruto da arte. Suas coleções reúnem réplicas de esculturas clássicas pensadas para a exploração pelo toque, como o busto em mármore do Davi, de Michelangelo. “Tocar não é o mesmo que olhar. Não se trata apenas da emoção, mas também do conhecimento único que o tato proporciona”, afirmou Grassini à Associated Press (AP).

O exemplo do museu inspirou outras iniciativas. Em Pompeia, foram instalados mapas táteis, sinalização em Braille, guias de áudio com QR Code e modelos em relevo do sítio arqueológico. Em Florença, autoridades desenvolveram guias detalhados com rotas acessíveis e informações específicas para museus como a Galeria Uffizi, apesar das limitações impostas pela arquitetura histórica.

Em Roma, o Coliseu passou a oferecer visitas guiadas adaptadas. Michela Marcato, cega de nascença, relatou à AP que só conseguiu compreender a forma elíptica do anfiteatro ao tocar uma maquete do monumento. “Caminhando por lá, eu nunca teria entendido. Mas com aquela maquete na mão, é óbvio”, disse.

Passeios noturnos também têm sido utilizados como alternativa para reduzir o fluxo de visitantes e facilitar a interação sensorial. Em locais como o Campo dei Fiori, guias adotam estratégias criativas para transmitir conceitos visuais, convidando visitantes a reproduzir poses de figuras históricas para reconhecer formas por meio do contato físico. “O objetivo do turismo acessível é proporcionar uma experiência agradável para todo o grupo, incluindo os acompanhantes”, explicou o guia Giorgio Guardi, da Associação Radici, à AP.

As iniciativas frequentemente incluem pessoas surdas e intérpretes de língua de sinais, ampliando o alcance da inclusão. Ainda assim, especialistas reconhecem que barreiras arquitetônicas persistem em muitas cidades italianas, limitando a mobilidade independente.

A arte tátil também se destaca nas obras de artistas cegos, como o escultor Felice Tagliaferri, de Cesena. No Museu Omero, ele expõe peças como um busto em mármore dedicado à amiga Angela. “Quando ela faleceu, Angela ficou em minhas mãos, e pensei nela ao criar esta obra”, contou à AP.

Para visitantes como Marcato, a fruição artística passa a ser guiada por sons, cheiros e memórias. A Organização Mundial do Turismo destaca que o turismo acessível é relevante tanto do ponto de vista dos direitos humanos quanto pelo impacto econômico, lembrando que cerca de metade da população mundial acima de 60 anos tem algum tipo de deficiência e costuma viajar acompanhada.

Apesar dos avanços desde 2021, autoridades italianas reconhecem que o processo ainda está em curso. Novas políticas buscam transformar não apenas os espaços culturais, mas também a relação entre o público, a arte e o patrimônio. Ao incorporar o tato e outros sentidos, a experiência sensorial abre caminhos para compreender a arte para além da visão, revelando novas dimensões da beleza.