Curiosidades
'Tempos Modernos’ completa 90 anos; filme de Charles Chaplin tornou-se um ícone contra a industrialização desenfreada
Lançado em 1936, clássico do cinema mudo expôs a desumanização do trabalho industrial e segue atual ao questionar os limites do avanço tecnológico sobre a vida humana
Noventa anos depois de chegar aos cinemas, Tempos Modernos continua a provocar o espectador com uma pergunta incômoda: até onde a tecnologia pode avançar sem esmagar quem está do outro lado da engrenagem? Lançado em 5 de fevereiro de 1936, o filme escrito, dirigido e estrelado por Charles Chaplin segue como uma das mais contundentes reflexões do cinema sobre o impacto da industrialização na vida humana.
Logo nas primeiras imagens, Chaplin estabelece o tom da obra. Uma multidão caminha em direção à fábrica sob o controle de um relógio implacável, enquanto a narrativa associa trabalhadores a um rebanho conduzido sem questionamento. No interior da indústria, o ruído, a fumaça e a vigilância constante moldam um ambiente opressor, simbolizado pela tela gigante por meio da qual o presidente da Electro Steel Corp. monitora e acelera a produção, antecipando debates atuais sobre controle e perda de privacidade no trabalho.
No centro dessa engrenagem surge Charlot, o operário desajeitado que tenta acompanhar uma linha de montagem em velocidade desumana. Incapaz de manter o ritmo, ele é literalmente engolido pela máquina, numa das sequências mais icônicas do cinema, em que humor físico e crítica social se fundem para expor a transformação do indivíduo em peça descartável do sistema produtivo.
Crítica social em forma de comédia
Embora repleto de gags e cenas cômicas, Tempos Modernos foi concebido em um contexto de crise profunda. O filme estreou poucos anos após a Quebra da Bolsa de Nova York e em meio aos efeitos devastadores da Grande Depressão, período marcado por desemprego em massa, fome e miséria. Chaplin conhecia de perto essa realidade: nascido na pobreza, enfrentou uma infância marcada por abandono, internações e passagens por orfanatos, experiências que moldaram sua sensibilidade para temas como desigualdade e exploração.
A crítica à mecanização da vida aparece também na famosa cena da máquina de alimentação automática, criada para eliminar as pausas dos trabalhadores. O dispositivo, que gira uma espiga de milho em alta velocidade dentro da boca de Charlot, transforma o descanso em mais uma etapa da produção, sintetizando o absurdo de um sistema que tenta suprimir até as necessidades básicas.
Mesmo com o cinema sonoro já consolidado, Chaplin optou por manter seu personagem praticamente mudo. Charlot só “fala” na cena final, ao cantar uma canção com palavras sem sentido, improvisadas no momento. A escolha reforça o caráter universal da mensagem e marca a despedida definitiva do vagabundo de chapéu-coco, bengala e bigode, um dos personagens mais emblemáticos da história do cinema.
A narrativa ganha contornos ainda mais humanos com a presença de Gamin, interpretada por Paulette Goddard. Órfã após a morte do pai em uma manifestação, a jovem sobrevive à margem da sociedade e encontra em Charlot um aliado. A solidariedade entre os dois contrasta com a indiferença do mundo mecanizado que os cerca. Chaplin descreveu ambos como “dois espíritos vivos em um mundo de autômatos”, definição que resume o coração do filme.
A postura crítica de Tempos Modernos provocou reações políticas. A obra foi proibida na Alemanha nazista e na Itália fascista, sob a acusação de comunismo — rótulo que Chaplin sempre rejeitou. Décadas depois, durante o macartismo, o cineasta seria novamente alvo de perseguição nos Estados Unidos, o que contribuiu para sua decisão de deixar o país e se estabelecer na Europa.
Apesar das controvérsias, o reconhecimento veio. Em 1972, Chaplin recebeu um Oscar honorário, acompanhado por uma ovação de pé de 12 minutos, símbolo do impacto duradouro de sua obra. Hoje, passados 90 anos, Tempos Modernos segue como referência essencial para compreender os efeitos do progresso tecnológico sobre o trabalho e a dignidade humana — um debate que ressurge com força na era da inteligência artificial, dos algoritmos e da automação avançada, confirmando a impressionante atualidade do olhar de Chaplin.
Mais lidas
-
1TRABALHO
Calendário de 2026 concentra feriados em dias úteis e amplia impacto sobre a gestão do trabalho
-
2SERVIÇO
IPVA 2026 RJ: confira o calendário de vencimentos por final de placa
-
3EDUCAÇÃO E VALORIZAÇÃO PROFISSIONAL
Proposta reduz jornada de professores da educação básica para 30 horas semanais
-
4TRIBUTOS
IPVA 2026: Primeira parcela ou cota única começa a vencer nesta quarta-feira; confira como pagar
-
5EMPURRANDO COM A BARRIGA
MP convoca prefeita de Palmeira dos Índios por descumprir cronograma de concurso público