Curiosidades

Memorial Brumadinho aposta no simbolismo para acolher a dor das famílias das vítimas e contar a história da tragédia

Projeto é assinado pelo escritório Gustavo Penna Arquitetos Associados, de Belo Horizonte; 'Resgata a nossa cidadania, a nossa dignidade', diz psicóloga que perdeu o marido no rompimento da barragem da Vale

Agência O Globo - 01/02/2026
Memorial Brumadinho aposta no simbolismo para acolher a dor das famílias das vítimas e contar a história da tragédia
Memorial Brumadinho aposta no simbolismo para acolher a dor das famílias das vítimas e contar a história da tragédia - Foto: Reprodução / Agência Brasil

Uma canção entoada por no Memorial Brumadinho no último domingo (25), sétimo aniversário do rompimento da barragem do Córrego do Feijão, da Vale, traduz a missão daquele espaço. “Faz um tempo eu quis fazer uma canção/ Pra você viver mais”, cantou a vocalista do Pato Fu, acompanhada pela Orquestra Opus. O monumento de concreto cor de lama e rodeado de vegetação foi erguido em memória das 272 vítimas da maior tragédia trabalhista da História do Brasil.

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Inaugurado há um ano e construído em um terreno de 80 mil metros quadrados, o memorial foi uma demanda das famílias das vítimas, representadas pela associação Avabrum. Elas exigiam um espaço que pudesse acolher segmentos corporais encontrados nas buscas, que se encerraram no domingo passado sem localizar os restos mortais de duas vítimas.

Quatro escritórios de arquitetura submeteram projetos para a avaliação das famílias, que aceitaram a proposta do escritório Gustavo Penna Arquitetos Associados, de Belo Horizonte. A empresa é conhecida por projetos de preservação do patrimônio das cidades históricas que prosperaram durante o auge da mineração, no século XVIII, como o Museu de Congonhas e o Museu de Sant’Ana, em Tiradentes. Em Brumadinho, o desafio foi outro: preservar a memória do que a mineração destruiu.

Diálogo com famílias

Segundo a arquiteta Laura Penna, uma vez aprovado, o projeto foi desenvolvido em diálogo com as famílias, para que o espaço contasse a história da tragédia da perspectiva das vítimas.

— A arquitetura trata da experiência humana, nossa função é criar espaços que traduzam, acolham e valorizem a diversidade dessa experiência. Um projeto como esse precisa nascer da escuta, o arquiteto precisa se deixar emocionar e se indignar — reflete Laura. — Nunca começamos um projeto achando que já temos a resposta, até porque não há resposta a uma tragédia como essa. O que temos é nossa expertise, nossa caixa de ferramentas e nossa disposição para se emocionar.

O percurso do Memorial Brumadinho começa num prédio de parede e teto retorcidos, pintado com um pigmento desenvolvido a partir da lama da mineração. Todo dia 25 de janeiro, às 12h28, data e horário do rompimento da barragem, a luz do sol atravessa uma claraboia e ilumina um espelho d’água.

A construção mais imponente está do lado de fora, atrás desse prédio: uma fenda escavada na terra, um corredor de 230 metros, espremido entre duas enormes paredes de concreto, também cor de lama. Abrir uma fissura na paisagem foi uma tentativa de “eternizar” o momento em que a barragem se rompeu, explica Gustavo Penna.

— Nossa missão foi tornar visível no espaço e em três dimensões uma dor que é impossível de se superar. O memorial é uma fortaleza gritando contra a banalização da vida — afirma o arquiteto.

A fenda avança em um leve declive. As paredes registram versos de (“O que a memória ama fica eterno/ Te amo com a memória imperecível”) e os nomes dos mortos na tragédia, escritos numa fonte desenvolvida pelo escritório belo-horizontino Greco Design e batizada de Brumadinho. Em cima de cada nome, há uma flor de ipê banhada a ouro, uma verdadeira joia, que é como são chamadas as vítimas. Na época do acidente, o então presidente da Vale, . As famílias reagiram: as verdadeiras joias haviam sido soterradas pela lama.

Caminhar pela fenda é como participar de uma procissão, especialmente se já tiver anoitecido e as lâmpadas escondidas em cada flor de ipê estiverem acessas. O percurso remete ao avanço destruidor da lama, mas também simboliza a longa e difícil jornada de cada família através do luto, que transforma-se em memória.

Mais ou menos no meio da caminhada, repousa sobre a fenda um quadrado de ferro de 11 x 11 metros. Em suas faces está esculpida a topografia do Córrego do Feijão e delas escorre água, como se estrutura fosse a cabeça de um homem que não contém as lágrimas. A água escorre até o final da fenda, onde há um lago artificial e um mirante de onde se veem as montanhas. Ao redor, estende-se um bosque com 272 ipês-amarelos, árvore do Cerrado que floresce no meio da seca.

Há dois espaços expositivos no memorial: Testemunho e Memória. O primeiro exibe vídeos da lama escorrendo pelas montanhas. Numa sala separada, estão as urnas onde os restos mortais das vítimas podem ser depositados. Espalhadas pelo espaço Memória estão fotos em preto e branco e informações de cada uma das vítimas, como a auxiliar de manutenção Diana Caroline da Silva Santos, de 32 anos, cujo seu maior sonho era ser mãe — ela deixou o bebê Heitor, de quatro meses. Objetos pessoais das joias também estão espalhados pela sala: bíblias, bonés e camisas do Atlético e do Cruzeiro, títulos de eleitor, um bilhete da filha de Everton Lopes Ferreira: “Pai você é meu melhor pai do mundo”.

— Nada toca mais o coração das pessoas do que esses objetos — diz a cenógrafa Júlia Peregrino, responsável pela configuração dos espaços. — Nunca fiz uma exposição tão dolorosa quanto essa. É preciso contar a história dessa tragédia para que ela nunca mais se repita.

As famílias afirmam que o memorial estava pronto desde 2023 e a inauguração atrasou devido a conflitos com a Vale quanto à administração do espaço — o que a empresa nega. “Toda a operação do Memorial é conduzida de forma autônoma e independente pela própria Fundação, conforme definido no acordo firmado entre as partes”, afirmou a mineradora em nota.

Resultado de um acordo intermediado pelo Ministério Público de Minas Gerais entre a Avabrum e a Vale, a Fundação Memorial Brumadinho é composta por familiares das vítimas e por um corpo técnico especializado. A empresa é responsável por financiar o memorial e não está autorizada a veicular sua imagem ao projeto para fazer publicidade. Segundo a mineradora, já foram investidos R$ 12,7 bilhões na fundação.

No mesmo domingo passado da visita do GLOBO ao memorial, sete anos depois do acidente, foram . A empresa afirma que “as causas estão sendo apuradas” e que “nenhuma das duas situações tem qualquer relação com as barragens da Vale na região”, indicando que não há risco de acidentes como o Brumadinho.

‘Resgata nossa cidadania’

Ex-presidente da Avabrum, a psicóloga Kenya Paiva perdeu o marido na tragédia: o programador de manutenção elétrica Adriano Lamounier tinha 54 e era pai dos dois meninos. Na conversa com o GLOBO, ela cometeu um ato falho e chamou o memorial de “hospital”.

— O memorial resgata a nossa cidadania, a nossa dignidade — diz ela.

Kenya conta que cada familiar encontrou no memorial um espaço para matar a saudade. Pode ser a fenda, o mirante ou só caminhar pela vegetação. É como diz a canção de Fernanda Takai que emocionou o público naquela tarde: “O amor ainda estava lá”. Ou melhor: ainda está.

*O repórter viajou a convite do escritório Gustavo Penna Arquitetos Associados