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'2026 é o novo 2016': trend reflete nostalgia de uma vida mais leve e cansaço com performance nas redes

Entenda por que famosos e anônimos estão revivendo 'o último ano bom': 'Na época, não era preciso se posicionar sobre tudo', explica especialista

Agência O Globo - 27/01/2026
'2026 é o novo 2016': trend reflete nostalgia de uma vida mais leve e cansaço com performance nas redes
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Mal entramos em 2026 e já tem gente querendo mudar de ano. Desde o início de janeiro, as redes foram tomadas por registros de uma década atrás, numa trend que tem revivido fotos antigas, músicas da época e legendas saudosistas sobre aquele que tem sido chamado de “o último ano bom”.

Menos estímulo, mais prazer:

'Leitura performática':

Com o bordão “2026 é o novo 2016”, anônimos e famosos (de Regina Casé a ) relembram um tempo em que a calça skinny reinava sem ironia, o álbum “Lemonade” tocava nos MP3 players e o ambiente digital ainda estimulava a espontaneidade, com menos performance, cancelamento e profissionalização do conteúdo. Os posts são acompanhados com fotos de “antes e depois”, comparando a estética de uma década atrás com o presente.

Ondas nostálgicas vêm e voltam, mas o apego específico a 2016 chama a atenção de estudiosos. Diretor da Escola de Comunicação, Mídia e Informação da Fundação Getulio Vargas, Marco Ruediger nota que o ano representou uma ruptura com as utopias digitais.

— Ainda se acreditava que as redes poderiam integrar comunidades, informar melhor as pessoas e até criar consensos — afirma o doutor em Sociologia. — A partir dali, essa promessa começa claramente a se desfazer. Não apenas pelos eventos políticos daquele ano, mas pela instalação de uma guerra cultural dentro das próprias plataformas. Ainda havia uma sensação de conforto, mas já se percebia que dali em diante nada seria como antes.

Temores como a IA

Para Ruediger, o Brexit e a primeira eleição de naquele ano acabaram com o sentimento de normalidade no mundo.

— A obsessão atual por 2016 dialoga diretamente com o medo do futuro, o medo da insegurança, do desemprego, da inteligência artificial — diz o pesquisador. — Há um clima de insegurança geral porque as pessoas acham que não podem acreditar em mais nada.

Em 2016, o Dicionário Oxford escolheu “pós-verdade” como a palavra do ano; em 2017, o dicionário da editora britânica Collins destacou “fake news”. Foi também naquele período que formatos mais agressivos de consumo de conteúdo começaram a se consolidar. Vídeos curtos e temporários, popularizados pelo Snapchat, forçaram outras plataformas a criar funções semelhantes, iniciando uma lógica de atenção fragmentada que hoje domina a internet.

Dez anos depois, o que se vê é um cansaço mental e cognitivo, provocado pelo consumo excessivo e superficial de conteúdo on-line. Surgiu até expressão para isso: brain rot (apodrecimento cerebral). Não por acaso, foi escolhida “palavra do ano” do Dicionário Oxford em 2024.

“Você apenas tinha que estar lá”, escreveu a modelo Hailey Bieber, de 29 anos, ao publicar no seu perfil de Instagram as suas fotos de 2016. Na época, a jovem ainda não havia se casado com o astro teen , autor de “Sorry”, um dos grandes hits daquele ano. Porém, para outras pessoas que, como ela, estavam lá em 2016, talvez o ano não tenha sido tão bom assim — como aliás apontaram diversos internautas que problematizaram a trend.

— Dois mil e dezesseis foi, sem dúvida, um ano caótico, que já anunciava muitas das crises atuais — avalia Nicolas Henriques, diretor estratégico da Box1824, responsável pela construção de projetos de branding e arquitetura de marca.

Eu vi, eu estava

Os chamados zennials, nascidos a partir de 1997, eram muito jovens para compreender os conflitos da época, acredita Henriques.

— Quem era criança e pré-adolescente em 2016 achava tudo mais simples — diz ele. — Não parecia haver um ambiente de tensão permanente e as pessoas não precisavam se posicionar sobre tudo. Essa volta nostálgica expressa o desejo de um tempo em que era possível viver com mais leveza, mesmo que isso seja, em parte, uma idealização.

Cofundadora da , agência criativa e produtora focada em conteúdo para a geração Z, Amanda Caliari ressalta: toda geração tende a olhar com carinho para o período em que estava se formando. Ela observa, porém, que a referência a 2016 não é exatamente a saudade do ano em si, mas de um modo de vida que se perdeu junto com a inocência das redes.

— As pessoas sentem falta de um ritmo diferente, de um momento em que era possível viver uma fase com menos consciência de estar sendo observado, comparado e medido o tempo todo — explica ela. — Havia menos cálculo, menos pressão para transformar tudo em algo útil, produtivo ou rentável. Hoje a gente gerencia tudo: tempo, imagem, escolhas, carreira, opinião, redes sociais. Parece que nada pode simplesmente existir sem passar por algum tipo de filtro, explicação ou validação.

Essa hiper-profissionalização das redes, ressalta Caliari, não afeta apenas criadores de conteúdo ou influenciadores.

— Isso atinge qualquer pessoa que hoje utiliza plataformas digitais. Para mim, essa nostalgia fala muito mais sobre o agora do que sobre o passado. Ela aparece quando a forma atual de viver começa a ficar pesada demais.

Fora do 'play'

No campo da saúde mental, o psicólogo Lucas Franco Freire interpreta o fenômeno como um sintoma coletivo de exaustão. Autor do livro “Exaustos: imaginando saídas para o cansaço diário”, ele afirma que a sociedade contemporânea sofre de uma “atrofia do lúdico”.

— A gente ainda tem uma compreensão muito precária sobre qual é a função do lúdico, aquilo que eu estudo como play — diz. — O lúdico envolve artes, brincadeiras, rituais culturais e outras formas de expressão que não estão orientadas diretamente pela performance ou pelo resultado.

Segundo Freire, a lógica atual de disponibilidade constante e produtividade contínua tem reduzido drasticamente os espaços de experimentação e descanso.

— Vivemos sob uma cultura de performance permanente, que esvazia a possibilidade de brincar, criar e experimentar sem objetivo produtivo. Quando o lúdico desaparece, as pessoas perdem a capacidade de descompressão emocional — afirma.

Bombou em 2016

Hits. O ano teve sucessos globais como “One dance” (), “Sorry” (Justin Bieber) e “Cheap Thrills” (Sia), além do lançamento de “Lemonade”, de (escolhido “álbum do século” pela revista Rolling Stone em 2025). Por aqui, (que depois foi parar no BBB) fez o Brasil sentir que “Tá tranquilo, tá favorável”.

Filtros. Com o Snapchat, os vídeos curtos se tornaram a forma de expressão preferida dos mais jovens. A plataforma também difundiu o uso de filtros faciais. Se hoje eles são marcados por hiper-realismo e correção estética, os filtros da época priorizavam a diversão.

‘’. Em sua primeira temporada, a série, que chegou ao fim em 2025, apresentou a estética dos anos 1980 às novas gerações, ressuscitando a música synthpop e toda uma iconografia baseada em referências analógicas.

Pokemon Go. Lançado em 2016, o jogo de realidade aumentada transformou a rua em arena, fazendo muita gente acreditar que a tecnologia poderia se tornar aliada do espaço público.

Chokers. As gargantilhas justas se popularizaram em materiais como couro, veludo e plástico. Ironicamente, ressurgiram como releitura dos anos 1990. Como se vê, até a nostalgia é cíclica.