Curiosidades
Do mar ao museu: velas de Daniel Buren fazem parte de regata, antes de ganharam mostra no MAM do Rio
A chuva fina que caía sobre o Rio desde o início da semana não apontava as melhores condições para a realização de uma regata na Baía de Guanabara. Contudo, quando os 11 veleiros da classe Optimist foram lançados à água na Marina da Glória, na Zona Sul do Rio, anteontem, às 15h, a garoa deu uma trégua para o grupo de competidores, formado por crianças e adolescentes.
'Práticas dissidentes':
Carnaval:
A falta de vento, contudo, não permitiu a finalização do trajeto original, da Marina até a Praia do Flamengo, e os pequenos velejadores tiveram de fazer uma volta na Glória e retornar para o ponto de partida. Nada que tenha diminuído o empenho (e as brincadeiras) entre os competidores no mar. Para o público que assistia do Aterro do Flamengo, a disputa passaria como habitual não fossem as velas coloridas obras do francês Daniel Buren, de 87 anos, um dos nomes centrais da arte conceitual, desde os anos 1960.
A (“Vela/tela — Tela/vela”, em tradução livre), que o francês desenvolve desde 1975 e é realizada pela primeira vez no Brasil, fazendo das velas de barco suporte para as listras verticais coloridas que transformou em assinatura. Após a prova, as 11 velas de 2,68 metros de altura serão exibidas, em ordem de chegada, no foyer do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio, a partir da próxima quarta-feira, com expografia assinada pela arquiteta Sol Camacho.
O trabalho integra o que o francês conceituou, há mais de cinco décadas, como arte in situ, com obras criadas em espaços públicos, em relação direta com o lugar onde são apresentadas, a exemplo das esculturas permanentes “Photo-souvenir: les deux plateaux” (1986), no pátio do Palais-Royal, em Paris, uma de suas obras mais conhecidas.
— Essa deve ser a 20ª regata produzida em 50 anos, e o princípio é exatamente o mesmo ainda hoje: primeiro na água, e a seguir num espaço museológico. Essas duas etapas existem para mostrar de forma muito clara o quanto o contexto físico de um lugar, seja ele qual for, influencia naquilo que se observa — destaca Buren, por mensagem de voz, de Paris. — Brinco com essas duas palavras em francês, voile e toile, uma o suporte para a pintura, e a outra o material usado para cortinas, velas, e tudo o que se pode fazer com um tecido. Para quem não viu a regata, a exposição pode parecer não ter nada a ver com velas. É justamente esse contraste que me interessava e ainda me interessa, 50 anos depois.
A prova foi acompanhada por duas embarcações levando colecionadores, marchands e outros nomes do meio artístico, entre eles Nara Roesler, galerista que representa o francês no Brasil e parceira na apresentação da obra no Rio, e Raquel Barreto, curadora-chefe do MAM.
— Mais que a proximidade, o MAM tem uma relação histórica com a Baía e o seu entorno. Durante a regata, conseguíamos ver o museu do mar, acho que nenhum outro no Brasil seria mais apropriado a receber a obra do Buren — comenta a curadora. — No mar, as velas têm uma identidade, com seu reflexo na água, e no museu terão uma outra presença. É interessante pensar na regata também como uma ativação da obra no espaço público, antes de sua entrada no museu, diferentemente do que acontece na maioria das mostras, em que a ativação acontece após a abertura.
Após cerca de um ano de negociações, Nara Roesler (que faz anos no mesmo dia de Buren, em 25 de março ) celebrava a realização de "Voile/toile — Toile/voile" no Rio. Daqui a alguns meses, ela receberá o francês para uma individual na sede paulistana da galeria que leva seu nome, com inauguração entre abril e maio.
— A obra de Daniel tem essa força do lúdico, de se integrar ao espaço aberto, à natureza, que você não pode controlar — enaltece Nara. — Ele não pôde acompanhar a regata porque estava trabalhando em um projeto para Veneza, mas em São Paulo vai trazer obras recentes, objetos e esculturas de parede. Ele tem essa grande facilidade de seu ateliê ser o mundo, de poder trabalhar com os espaços e a arquitetura das cidades onde ele está.
A realização de "Voile/toile — Toile/voile" no Rio estreita os laços do artista francês com a cidade. Após algumas passagens por aqui, há quase dois anos, em março de 2024, Buren f colorindo com vinis transparentes 121 janelas do hotel, como parte do projeto Mitico, na qual interviu em outros cinco endereços da rede Belmond: Mount Nelson ( Cidade do Cabo), Villa San Michele (Florença); Castello di Casole (Toscana), Hotel Cipriani (Veneza) e La Residencia (Maiorca).
— Fiquei muito feliz pelo trabalho ter sido realizado e um pouco triste por não ter podido ir (ao Rio). No Copacabana Palace também fiz uma obra in situ, que consistiu em, obviamente, brincar com o lugar, e a sua magnífica fachada. E também brincar com os turistas e viajantes, ao entrarem em seus quartos e acenderem a luz — lembra Buren. — Conforme as pessoas chegavam em seus quartos, no fim do dia, todos os trabalhos colocados nas janelas se iluminavam. É um jogo, que não é feito pelo vento, como na regata, e sim pela atividade no hotel, das pessoas que entram e saem.
Ao final da regata, Marina Schlömer, de 10 anos, e a amiga Helena Nunes, de 14, comemoravam o primeiro e o segundo lugar na prova, respectivamente, já programando a ida à mostra no MAM para ver o “pódio” exposto como obra de arte.
— Foi um pouco estranho no início porque a vela normal tem um formato diferente, mas essa é mais fácil de montar e de desmontar. Estava sem vento também, aí você tem que dar seu jeito (para velejar) — contou Marina, que pratica o esporte há três anos. — Acho que todo mundo que participou tinha que vir para ver as velas no museu.
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