Curiosidades

'Práticas dissidentes': livro analisa a produção de artistas brasileiras dos anos 1960 até hoje

Lançado em 2023 nos EUA, livro da curadora e professora Claudia Calirman ganha edição em português

Agência O Globo - 22/01/2026
'Práticas dissidentes': livro analisa a produção de artistas brasileiras dos anos 1960 até hoje
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Lançado em 2023 nos Estados Unidos pela brasileira Claudia Calirman, curadora e professora História da Arte na John Jay College of Criminal Justice (CUNY), em Nova York, o livro “Práticas dissidentes — Artistas contemporâneas brasileiras” ganhou, no segundo semestre do ano passado, uma versão em português, pela Edições Pinakotheke. Fruto de uma pesquisa de mais de uma década, a publicação mapeia a produção de artistas brasileiras de diferentes gerações, desde os anos 1960 até os dias atuais.

Presente para Hitler: A história da tela de Goya comprada por Franco, que voltou para a Espanha há 40 anos

Beatríz González:

A obra analisa os trabalhos de 18 artistas e os contextos históricos dos períodos em que foram concebidos, a exemplo de Lygia Pape (1927-2004), Letícia Parente (1930-1991), Sonia Andrade (1935-2022), Márcia X (1943-2019), Regina Vater, Anna Bella Geiger, Berna Reale, Lyz Parayzo, Sallisa Rosa, Aleta Valente e Aline Motta. A capa da edição brasileira é ilustrada com “In-out (Antropofagia)”, obra da série “Fotopoemação”, dos anos 1970, de Anna Maria Maiolino.

Em capítulos como “Práticas políticas”, “Práticas transgressoras” e “Práticas de si”, Claudia, que vive em Nova York desde 1989, aponta como essas produções respondem (ou se antecipam) a questões de suas épocas, da ditadura militar a recentes debates raciais, sociais e de gênero.

— A proposta do livro vem dessas rupturas que percebo desde os anos 1960, e que ganham novos contornos a partir de 2015, com a nova geração que surge nesse período. Há uma mistura bem interessante, de ter uma artista de carreira mais recente, como a Val Souza, junto a nomes como a Anna Maria Maiolino, que já ganhou o Leão de Ouro da Bienal de Veneza — destaca a autora. — É interessante ver como a questão do feminismo, por exemplo, estava presente nas obras dos anos 1960 e 1970, mas era tratado de maneira mais velada pelas autoras. Muitas delas frisavam que o trabalho era político. E hoje esse feminismo é totalmente assumido pelas artistas da geração atual, sejam elas cis ou trans.

Claudia observa ainda que as gerações mais recentes trouxeram uma pluralidade também em relação à origem das artistas:

— Essa geografia mudou, não há mais aquela concentração de nomes do Rio e de São Paulo. Há muita gente de outros estados e regiões. Também não é uma turma que vem prioritariamente da classe média, da média alta. São muitas artistas da periferia, que estão querendo falar por elas. A própria questão indígena, por exemplo, que foi bem abordada no passado por produções como a da Anna Bella ou da Lygia Pape: hoje muitas artistas com essa origem, como a Sallisa Rosa, falam de suas temáticas. É uma mudança interessante.

Em diferentes formatos e suportes, como a pintura, escultura, foto e vídeo, o corpo sempre esteve presente na produção das diferentes gerações das artistas. A autora salienta, no entanto, que ao contrário de performers americanas como Carolee Schneemann e Hannah Wilke, a nudez não foi um ponto tão explorado pelas brasileiras, até os anos 1980.

— É curioso pensar em um país que é tido como muito sensual, com todo o imaginário sobre o carnaval, por exemplo, não tenha seguido essa linha das artistas feministas americanas — analisa Claudia Calirman. — O corpo, para a gente, entra como um suporte possível, junto ao que está disponível, que acaba retratando esse espaço doméstico, que era o destinado à mulher quando essas artistas dos anos 1960 começam a criar.

Para a autora, mesmo que as artistas brasileiras tenham ocupado lugar de destaque na produção nacional desde o modernismo, elas nunca deixaram de enfrentar restrições e preconceitos em suas carreiras.

— Em comparação aos Estados Unidos e a Europa, o Brasil sempre teve um protagonismo feminino nas artes, até hoje há uma visibilidade muito grande. No mercado ou nos espaços institucionais, elas sempre estiveram na ponta de lança — comenta Claudia. — Mas isso não quer dizer que elas não sofressem pressões também. Podiam fazer parte do clube desde que não entrassem em choque com os artistas homens. E, se hoje vemos rupturas nesse sentido, foi graças a essas estratégias feministas presentes nos trabalhos das artistas das gerações anteriores, ainda que isso não estivesse no discurso delas na época.

'Práticas dissidentes' Autor: Claudia Calirman. Tradutor: Mariano Marovatto. Editora: Edições Pinakotheke. Páginas: 292. Preço: R$ 95.