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Festival, novos álbuns e exposições mostram vitalidade da bossa nova, prestes a completar 70 anos

Rio Bossa Nossa chega a sua quarta ediçãocom shows de nomes como Marcos Valle, Maria Gadú, Roberto Menescal, Theo Bial, Joyce, Leo Jaime e Seu Jorge e Daniel Jobim

Agência O Globo - 21/01/2026
Festival, novos álbuns e exposições mostram vitalidade da bossa nova, prestes a  completar 70 anos
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Entra ano, sai ano, barquinho vai, barquinho vem, e a bossa nova não sai de moda. No fim de semana em que Antônio Carlos Jobim, o maestro soberano, faria 99 anos, três gerações de artistas se encontram na Praia de Ipanema, berço do movimento, para prestigiar este que é um dos mais cariocas dos gêneros musicais. Eis o Rio Bossa Nossa, festival que chega a sua quarta edição, de sexta (23) a domingo (25), reunindo shows de Seu Jorge e Daniel Jobim, Leila Pinheiro, Marcos Valle, Maria Gadú, Roberto Menescal, Theo Bial, Cris Delanno, Joyce e Leo Jaime, entre outros. O evento, que acontece na altura do Jardim de Alah, é gratuito e também prevê atividades ao ar livre como como yoga, ginástica, beach tênis e futevôlei.

Crítica:

Nara Leão:

Por conta do aniversário de Tom Jobim, comemorado no dia 25 de janeiro, a data foi batizada como o Dia da Bossa Nova. No domingo, o colunista do GLOBO Nelson Motta, Helô Pinheiro e Roberto Menescal, trio que viu de perto a efervescência do ritmo nos anos 1960, vão receber uma espécie de diploma do evento, que será inscrito no calendário oficial da cidade. Eterna garota de Ipanema, musa inspiradora da canção de Tom e Vinicius, Helô será, mais uma vez, a apresentadora do festival, recebendo, no palco, os artistas que farão os shows. Aos 82 anos, Helô é sempre nostálgica ao falar da bossa que lhe deu fama mundial.

— Sinto muito orgulho de ter feito parte dessa época tão maravilhosa. Tudo era mais cheio de graça e também lindo por causa do amor. Era o que a gente sentia na época, uma época que valeu muito na música brasileira — diz Pinheiro.

Um dos últimos remanescentes da primeira geração de músicos que fundaram o movimento, Roberto Menescal, 88 anos, sobe ao palco no domingo para uma apresentação feita em parceria com Theo Bial e Cris Delanno. Para Menescal, que recentemente lançou o álbum “Bossa sempre nova”, com Luísa Sonza, artistas mais novos têm se interessado cada vez mais pelo gênero. Ele aproveita.

— Está muito bom pra gente — diz o cantor e compositor. — Hoje toca mais bossa nova no Japão do que no Brasil, parece que as novas gerações estão sendo informadas disso, que se procura muito no mundo. A bossa nova foi um movimento que mudou muitas coisas nos anos 1950 e 1960. E continua mudando. Com o festival que fizemos no Carnegie Hall, em Nova York, acabou entrando bem em outros países.

Estética além do tempo

De uma terceira geração de cantoras da bossa nova, aos 56 anos, Cris Delanno acredita que o frescor do gênero passa por “uma estética que ultrapassa o tempo”.

— Pode até estar mais em alta ou em baixa, mas sempre retorna. Harmonia, melodia e levada, todos esses elementos contribuem para o sucesso da bossa nova. E ela continua encantando e fazendo sucesso no mundo inteiro. Quando você tem uma artista super premiada como a Billie Eilish cantando “Billie bossa nova”, canção inspirada na estética bossa-novista, é um ganho para o Brasil. Cito a Billie, mas também temos a Anitta, que se lançou nos Estados Unidos com uma versão de “Garota de Ipanema”, e o exemplo mais recente da Luisa Sonza, que gravou um álbum inteiro cantando bossa nova. As novas gerações são essenciais para a renovação do gênero. Acho bobagem os puristas que só criticam os novos que cantam bossa nova. Ela já é do mundo há muito tempo. Eu dou a maior força — afirma.

Caçula do line up do festival, Theo Bial é outro que se derrete ao gênero. Aos 28 anos, ele diz que a parceria com Menescal já foi “um sonho realizado”, e que defende a bossa “por amor”.

— Me identifico, gosto das músicas, sou do Rio de Janeiro, criado na Zona Sul, me identifico com o tema das letras. Acho que música boa é eterna, é pra sempre. Talvez por isso ela se mantenha viva, assim como samba — define o músico.

O Rio Bossa Nossa acontece num momento em que outras homenagens estão previstas, na esteira das comemorações, em 2028, dos 70 anos das duas gravações de “Chega de saudade”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, que foram marcos do início do movimento: a primeira por Elizeth Cardoso, com acompanhamento do violão de João Gilberto, e a segunda, pelo próprio João. Conforme noticiou a coluna de Lauro Jardim, dois grandes projetos devem acontecer ainda este ano: uma exposição imersiva, com curadoria de Nelson Motta, que vai passar por Rio e São Paulo, e uma plataforma on-line para reverenciá-los de forma permanente. A mostra “Bossa nova chega de saudade” deve ser aberta no segundo semestre, com 2,1 mil m² preenchidos com instalações imersivas e interativas. Já o site “Bossa Nova hoje e sempre”, vai abrigar informações históricas sobre o movimento, com videocasts feitos por músicos de diferentes gerações. Além disso, a descoberta de uma fita com gravações despretensiosas de Nara Leão vai virar álbum inédito da cantora. Com oito faixas, “A bossa rara de Nara” será lançado domingo.

O Rio Bossa Nossa foi criado Emerson Martins, empresário que é testemunha viva de um dos redutos boêmios mais famosos da cidade nos anos 1980: a churrascaria Plataforma 1, no Leblon, onde Tom Jobim costumava se reunir com figuras como João Ubaldo Ribeiro, Chico Buarque, Antônio Pedro, Miguel Farias, Paulo Mendes Campos, Sérgio Cabral e Tarso de Castro, entre muitos outros artistas e intelectuais. Emerson é filho de J. Martins, que foi sócio do lendário italiano Alberico Campana no empreendimento.

Tom tornou-se um garoto propaganda informal da Plataforma e tinha mesa cativa no lado esquerdo da entrada, ponto estratégico em que podia ver quem chegava sem ser notado. São muitas as histórias do maestro no local. Como a que sustenta que, certa vez, ele teria chegado com o braço erguido no alto, segurando um copo de whisky. Alguém lhe perguntou o que era aquilo, ao que Tom prontamente respondeu, provocando uma gargalhada geral: “Meu médico me mandou suspender a bebida”.

— Eu venho dessa família de empreendedores. Passei minha infância na churrascaria, vendo Tom na mesa com o meu pai. No segundo andar, havia um show folclórico, no primeiro era o restaurante. Cresci nesse meio — rememora Emerson, que divide a curadoria do festival com seu amigo Pretinho da Serrinha.

Para o empresário, a bossa nova se mantém atual porque é “suave, saudável, traz amor, paz, tranquilidade, é muito fácil ouvir a bossa, gostar e se apaixonar”, ele define.

— A bossa nova precisava de um evento dessa grandeza para colocá-la no lugar onde ela tem que estar. O festival é um projeto 100% democrático, a bossa nova estava muito fechada em pequenas casas de shows, teatros fechados. A gente vê que grande parte do público é jovem, porque precisamos dessa renovação. O príncipe William veio no Rio e escutou bossa nova, o Coldplay esses dias cantou “Garota de Ipanema”. Está muito claro, manter o gênero no topo é um caminho normal. Espero que produtores continuem levantando essa bola — afirma Emerson.