Curiosidades
David Bowie: 10 anos após a morte, o camaleão ainda fascina o mundo
Homenagens lembram aniversário da passagem do cantor britânico que encarnou mais de um papel em sua carreira, revolucionando o pop, e que continua sendo cultuado pelas marcas que deixou nas mais diversas artes
Foi uma daquelas mortes que você — se tem idade suficiente, claro — lembra exatamente onde estava e o que fazia quando ouviu a notícia. Este sábado, completam-se dez anos após longa (e muito sigilosa) luta contra um câncer de fígado.
Mudança no Top 50:
Entramos no 'BBB 26':
Dois dias antes, em seu aniversário de 69 anos, ele havia lançado, sem aparições públicas (que haviam ficado raras nos anos anteriores), , um enigmático e sombrio álbum, feito com músicos de jazz, em que lidava com o tema da mortalidade em músicas como “Lazarus” (single lançado em dezembro e acompanhado, em janeiro, de um perturbador videoclipe). Com a morte, de repente, aquele disco começava a fazer todo o sentido.
— Estava em casa, dormindo, e minha filha viu a notícia na internet. Ela pulou da cama, me acordou, e disse: “Pai, pai, o Bowie morreu!” Daí eu não conseguia mais dormir — recorda-se Thedy Corrêa, cantor do grupo gaúcho Nenhum de Nós, que em 1989 teve em uma versão de “Starman”, o “Astronauta de mármore”, a música mais tocada do ano no Brasil. — Foi como um golpe. Estava com a alegria do fã, de alguém que viu um trabalho novo de um cara que admira, e vem essa notícia. Teve gente que falou: “Isso aí é um truque dele para promover o álbum.” Acho que ele foi o único exemplo de alguém que conseguiu fazer (a união de obra e vida) de maneira tão genial.
Mais do que conseguir orquestrar como arte a sua saída de cena, foi uma das maiores forças criativas do que, a partir da segunda metade do século XX, ficou conhecido como cultura pop. Nascido em 1947, David Jones viu de perto a revolução do rock e logo percebeu que ela não estava calcada somente na música. Ainda em 1969, produziu “Love you till Tuesday”, uma coletânea de filmes promocionais de suas canções — algo que antecipou em pelo menos 12 anos a MTV. E mudou de personagem como quem muda de roupa ou cabelo.
David Jones virou David Bowie, depois Major Tom (o astronauta de “Space oddity”, a faixa que o pôs no mapa do pop em 1969), Ziggy Stardust (o astro de rock alienígena e bissexual do álbum de 1972), Alladin Sane (do rosto varado por um raio), Thin White Duke, o Homem que Caiu na Terra (do longa-metragem de Nicolas Roeg, o primeiro que estrelou, em 1976), o Goblin King do filme “Labirinto” (1987)... Em permanente experimentação com a música, o sexo, as drogas, o cinema, a dança, o teatro e a literatura, Bowie ganhou a alcunha de camaleão. “Sou um ator, interpreto papéis, fragmentos de mim mesmo”, definiu-se em entrevista de 1972.
Programação
Em São Paulo e no Rio, até a quarta-feira da semana que vem, o cinema celebra Bowie com uma mostra de filmes, para lembrar os dez anos de sua morte.
— Enquanto o pop tiver algum significado para o mundo, existirá o legado de David Bowie ecoando. Desde 2021 realizamos uma mostra de filmes dedicada a Bowie no Cine Belas Artes. Este ano ela acontece na Frei Caneca (em São Paulo) e em Botafogo (na Zona Sul do Rio). Todo ano ainda me impressiono com a quantidade de jovens fãs frequentando. É a prova de sua influência e capacidade de conquistar novas gerações, há décadas — diz Marina Castro Alves, curadora da mostra. — Ele sempre foi visualmente impactante, e muito além de beleza, tinha essa atração magnética que transbordava no Bowie cantor e no Bowie ator. Essa atração com a câmera é inegável no cinema. Não consigo imaginar outro intérprete transmitindo sua plasticidade em “O homem que caiu na Terra”, ou um vampiro tão sensual como em “Fome de viver”.
As homenagens a David Bowie seguem mundo afora. Recentemente, foi lançado o livro “Far above the world — The Time & Space of David Bowie”, ensaio definitivo do biógrafo Paul Morley, e foi exibido o documentário “The final act”, documentário do Channel 4 da BBC sobre o disco “Blackstar”. No dia 17, a Biblioteca Britânica, em Londres, promoverá o evento “David Bowie in time”, um encontro de músicos, escritores, cineastas e críticos que refletirão sobre momentos cruciais da carreira multifacetada e sua fascinação pelo tempo.
Stranger Things
Em 2026, a memória de David Bowie continua mais viva do que nunca: o ano começou com o encerramento da série “Stranger Things” sonorizada por um de seus clássicos, “Heroes”. O legado passa de geração a geração, a bordo dos produtos culturais ou como influência.
— Existe eco de Bowie em vários artistas, e indicaria uma em que vejo a inquietude dele de uma maneira muito positiva: a Billie Eilish — crava Thedy Corrêa. — Ela inclusive já citou Bowie e acho que, nos últimos dez anos, foi também quem mais buscou caminhos não usuais para a música, e até para as maneiras de se vestir, de ir contra o mainstream. É uma outra pegada, mas acho que Billie é um exemplo de quem seguiu o espírito do Bowie.
O inglês morreu em uma época em que plataformas de streaming por assinatura, como o Spotify, começavam a se consolidar como meio de consumo de música. Nos dez anos que se passaram de lá para cá, elas não só salvaram a indústria da música gravada (que passou anos temendo os meios de distribuição digital, achando que eles poderiam intensificar a pirataria), como contribuíram para reviver muitas carreiras de velhos astros.
Adeus, MTV querida:
É curioso, portanto, lembrar hoje que, em 1999, com “Hours...”, Bowie se tornou o primeiro grande artista de uma grande gravadora a lançar um álbum em formato digital antes de sua distribuição física. Desde cedo, o artista abraçou com entusiasmo a internet e criou seu próprio provedor de serviços de internet, o BowieNet, em 1998.
Em 1999, ele foi entrevistado por Jeremy Paxman para o programa Newsnight, da BBC, e falou de sua paixão pelas possibilidades da rede. “Acho que ainda não vimos nem a ponta do iceberg, o potencial do que a internet fará com a sociedade, para o bem e para o mal, é inimaginável. Acho que estamos na iminência de algo emocionante e aterrorizante”, disse. No que Paxman objetou que ela era apenas “uma ferramenta”, o inglês devolveu, à sua inconfundível maneira: “Não, não é. É uma forma de vida alienígena!”
As múltiplas contribuições artísticas
Música. Do roqueiro sem maiores brilhos do LP de estreia de 1967, “David Bowie”, ao reluzente jazz noir de “Blackstar”, o astro promoveu reviravoltas no mundo pop. Sem o glam rock andrógino do Ziggy Stardust, a releitura branca do r&b em “Young americans” (1975), a assimilação do rock gélido e eletrônico dos alemães do krautrock na trilogia de discos de Berlim (“Low” e “Heroes”, de 1977; e “Lodger”, de 79) e a reinvenção do pop dançante em “Let’s dance” (1983), dificilmente existiriam da forma que existem o new romantic, o synthpop, e astros como ou .
Artes cênicas. Estudante de teatro avant-garde e de mímica de Lindsay Kemp, Bowie pautou seu trabalho inicial pelos personagens que imortalizou nos palcos e nas capas de seus discos: Major Tom, Ziggy Stardust, Alladin Sane, Thin White Duke... Em 1976, ele teve seu primeiro papel de protagonista no cinema em “O homem que caiu na Terra”, longa-metragem de Nicolas Roeg. Participaria depois de filmes como “Eu, Christiane F. — 13 anos, drogada e prostituída” (interpretando a si mesmo), “Fome de viver”, “Furyo - Em nome da honra” e “Labirinto — A magia do tempo”. Em 2015, ele retomou a trama de “O homem que caiu na Terra”, para escrever o musical “Lazarus”.
Tecnologia. Homem que vivia no futuro, David Bowie conseguiu vislumbrar as possibilidades do videoclipe em 1969 e reconheceu as possibilidades da música eletrônica quando elas ainda estavam sendo testadas, nos anos 1970, pelos alemães do Kraftwerk. Em 1999, ele ainda fez do seu “Hours…” o primeiro álbum de um artista de uma grande gravadora a ser lançado em formato digital antes de sua distribuição física.
Mais lidas
-
1TRABALHO
Calendário de 2026 concentra feriados em dias úteis e amplia impacto sobre a gestão do trabalho
-
2SERVIÇO
IPVA 2026 RJ: confira o calendário de vencimentos por final de placa
-
3EDUCAÇÃO E VALORIZAÇÃO PROFISSIONAL
Proposta reduz jornada de professores da educação básica para 30 horas semanais
-
4TRIBUTOS
IPVA 2026: Primeira parcela ou cota única começa a vencer nesta quarta-feira; confira como pagar
-
5EMPURRANDO COM A BARRIGA
MP convoca prefeita de Palmeira dos Índios por descumprir cronograma de concurso público