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Assalto ao Louvre: De lavagem de dinheiro a moeda do narcotráfico, o que pode acontecer com as joias roubadas

Para especialistas, caráter único e artístico das peças limita canais para sua negociação: 'Única forma possível de comercialização seria o desmanche', diz diretor do Museu Histórico Nacional

Agência O Globo - 22/10/2025
Assalto ao Louvre: De lavagem de dinheiro a moeda do narcotráfico, o que pode acontecer com as joias roubadas
- Foto: Reprodução / Agência Brasil

Sete minutos bastaram para que criminosos deixassem o Museu do Louvre, o maior do mundo, em , com parte do patrimônio histórico da . Eles entraram na Galeria de Apolo e roubaram oito joias da Coroa Francesa. Composto por brincos, broches e uma tiara,

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De Mona Lisa a Kim Kardashian:

Vender esse tesouro, porém, será uma tarefa bem difícil. O mesmo caráter único e artístico que aumenta o valor das joias acima do que se pagaria apenas pelas pedras preciosas de cada peça limita os canais para sua negociação. E faz do roubo de obras de arte uma modalidade criminosa feita para bem poucos.

As peças levadas do Louvre são muito conhecidas, até pela repercussão do assalto, para serem adquiridas no mercado formal, explicam especialistas. Mas quem participou do roubo provavelmente já sabia disso, o que reforça a hipótese de o crime ter sido encomendado.

— Diante da dificuldade de comercialização, saber a razão do roubo é uma questão bastante complexa, e podemos apenas especular algumas razões — diz Cícero Antônio Fonseca de Almeida, que foi integrante do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Iphan e atual diretor do Museu Histórico Nacional. — O crime, por suas características, foi encomendado por financiadores, e cometido por profissionais que estudaram o local e suas fragilidades.

Ainda que fossem obscuras, as peças nunca seriam aceitas no mercado, afirma Douglas Quintale, especialista em perícia e análise de obras de arte.

— Os consumidores não deixam isso acontecer, porque não se pode misturar arte e crime. São duas naturezas diferentes. Em dez anos trabalhando com perícia, nunca tive uma consulta que seja de um criminoso.

Um grande exemplo envolvendo o próprio Louvre é ofamoso roubo da “Mona Lisa” em 1911. Após dois anos guardando a obra-prima de Leonardo Da Vinci na mesa de sua casa, o ladrão Vincenzo Peruggia decidiu vendê-la por 500 mil liras ao diretor da Galeria Uffizi em Florença, Giovanni Poggi. Mas Poggi armou uma cilada: após identificá-la como autêntica, denunciou o criminoso, que foi preso. O caso ajudou a popularizar o quadro, que até então só era venerado entre conhecedores.

Comércio que assombra

Roubos desse porte continuam a assombrar o patrimônio histórico e cultural, de acordo com Almeida, porque existe um circuito alimentado por comerciantes de arte e antiguidades, que fornecem peças raras e exóticas a colecionadores. Essas relíquias só podem ser adquiridas em museus, arquivos ou bibliotecas.

— Além disso, obras de arte são mais fáceis de serem utilizadas no crime de lavagem de dinheiro — acrescenta Almeida. — Incorporadas aos bens de organizações criminosas, essas peças seriam “esquentadas”. Os criminosos que encomendam esse tipo de roubo declaram ter adquirido uma determinada obra por um valor baixo, através de uma documentação fraudulenta, e a integram ao seu patrimônio legal.

O assalto ao Louvre deixou o mundo perplexo, mas está longe de ser a única ação recente do tipo na França. No mês passado, ladrões invadiram o Museu Nacional Adrien Dubouché, em Limoges, e levaram duas porcelanas chinesas dos séculos XIV e XV e um vaso do século XVIII, avaliados em cerca de US$ 11 milhões.

Pouco antes, o Museu de História Natural de Paris teve amostras raras de ouro, avaliadas em US$ 700 mil, roubadas de uma de suas salas. , alertando para o aumento da vulnerabilidade das coleções diante de grupos criminosos especializados.

“Sabemos que há uma grande vulnerabilidade nos museus franceses. Os controles de acesso ao museu do Louvre não têm nada a ver com o que era feito há alguns anos (...), a segurança foi obviamente reforçada. Mas não se pode impedir tudo, não devemos deixar que as pessoas pensem que o risco zero existe”, reagiu Laurent Nuñez, ministro do Interior francês, em entrevista à Rádio France Inter.

A ministra da Cultura, Rachida Dati, que definiu os assaltantes do Louvre como altamente profissionais, também demonstrou preocupação. “A criminalidade organizada está atacando objetos de arte e os museus se tornaram alvos hoje em dia”, disse ela. “É preciso adaptar esses museus a essas novas formas de criminalidade”.

Casos sem solução

O roubo no Louvre atraiu a atenção mundial para a segurança das instituições francesas, o maior roubo de obras de arte até hoje registrado foi no Museu Isabella Stewart Gardner, em Boston, em 18 de março de 1990, quando foram surrupiadas 13 obras, incluindo de nomes como Manet, Vermeer, Degas e Rembrandt.

O maior do foi praticado na sexta-feira de carnaval em 2006, quando quatro pinturas de Picasso, Dalí, Monet e Matisse foram arrebatadas do Museu Chácara do Céu, em Santa Teresa, no Rio, por quatro homens armados. Nenhum dos dois casos foi solucionado até hoje e nem as peças foram recuperadas, como aconteceu com a coroa da Imperatriz Eugênia, localizada logo depois da invasão do Louvre no domingo.

Para o perito Douglas Quintale, atualmente, a maioria dos grandes roubos é encomendada pelo crime organizado.

— As peças servem de moeda de troca dentro do próprio mundo do crime — detalha. — Pode ser também que fiquem escondidas na casa de algum chefe do narcotráfico. Por isso, dificilmente voltam a aparecer.

No caso das joias da Galeria de Apolo,

— A única forma possível de comercialização das joias seria o desmanche — explica Almeida. — Somente os mercados ilegais assumiriam o risco de adquiri-las e transformá-las em novas joias, talvez para a lavagem de dinheiro.

A possibilidade de desmanche torna a recuperação dessas peças uma corrida contra o tempo. Diretor executivo da Art Recovery International, Chris Marinello disse à que as “peças desaparecerão para sempre” se a polícia francesa não prender os ladrões nos próximos dias.

Defesa virtual

Nos últimos anos, a internet se tornou uma ferramenta para coibir esses crimes. Na França, o Ministério da Cultura mantém uma base pública com objetos desaparecidos de museus e monumentos, enquanto a Interpol possui um banco internacional de obras furtadas. No Brasil, o Instituto Brasileiro de Museus mantém o Cadastro Nacional de Bens Musealizados Desaparecidos, criado para compartilhar informações sobre acervos de museus desaparecidos.

— Existem diversos casos de recuperação de peças furtadas em museus no Brasil graças à consulta à base do , e à ação da , que investiga roubos em museus, especialmente quando há interesse federal ou internacional envolvido — diz Almeida. —Nenhum comerciante de antiguidades ou de artes pode alegar desconhecimento de informação para justificar a aquisição de peças roubadas de museus.