Cultura Pop
Cauã Reymond justifica nudez masculina em 'Jogada de Risco': 'Corpo objetificado como o feminino'
Idealizador, diretor e produtor da série, ator afirma que pensou na história para causar: 'Meu desejo sempre foi ter uma trama 18+'
Criador, diretor e produtor... São tantas as funções que exercem em “Jogada de Risco” , nova série do Globoplay, que ele precisau aprender a jogar nas onze. Como um atacante que dribla os adversários para marcar o gol e volta para ajudar a defesa, o ator de 46 anos venceu as dificuldades e se preparou para cobrir diversas posições em campo ao propor uma trama envolvente e polêmica. A torcida vibra! Bastou o primeiro episódio ir ao ar para a internet bombar com comentários sobre sequências com sexo, violência e nudez. O ator assume que sua “inteligência tática” foi criar uma série para mostrar o lado oculto do futebol.
Sem beber e fumar, Cauã Reymond diz que precisou de cigarro inusitado para 'Jogada de Risco' : 'Fiquei com muita tosse'
A cena de nu frontal em que dois jogadores, Geraldo (Breno Ferreira) e Nacho (Ramiro Martinez), brigam no vestiário, totalmente sem roupa, deu o que falar.
— Os atores foram muito corajosos e relaxados. Eles ficaram felizes com o resultado. Claro, isso gerou um burburinho, e a gente já sabia que aconteceria — analisa Cauã, que avisou os colegas sobre as cenas de nudez antes mesmo de toparem gravar a série:
— Tudo é conversado. Tem que apresentar o projeto da forma como ele vai ser filmado. Em algum momento, dá para surpreender o elenco, seria antiético. Há até coordenador de intimidação para esse tipo de cena.
Em alguns momentos da trama, Cauã também aparece nu, principalmente nas relações de seu personagem, Maurício, com Rita, interpretada por Letícia Colin. Nenhuma novidade para o artista, que já surgiu sem roupa na minissérie “Dois Irmãos” (2017) e nos filmes “Piedade” (2021) e “A Viagem de Pedro” (2022).
— Coloquei o meu pra jogo várias vezes (risos). Em “Dois Irmãos” , fiz cena sem tapa-sexo. Em nenhum momento me senti invadido. Quando cortavam a sequência, me davam uma toalhinha, me cobriam... E, quando voltava a rodar, tirava. Faz parte do nosso trabalho, mas também acho importante que seja uma escolha do ator. É muito legítimo que uma pessoa não se sinta confortável — avalia.
de bola
A ideia para “Jogada de Risco” nasceu há mais de seis anos. Na época, Cauã conversou com atuais e ex-jogadores, agentes e assessorias de época para entender os bastidores “proibidos” do futebol.
— Meu desejo sempre foi ter uma série inspirada na realidade e nunca em fatos reais, porque não queremos problema com ninguém. Ao longo da pesquisa, eu dizia: “Me conta o milagre, mas não me conta o nome do santo”. Foi muito impactante. Selecionamos histórias que a gente gostaria de contar, como homossexualidade, saúde mental, apostasia, corrupção, prostituição... — revela.
Não é a primeira vez que Cauã joga em outra posição sem ser na atuação. A experiência inicial como produtora foi no filme “Se Nada Mais Der Certo” (2008). Depois, ele acumulou a função de ator em outros trabalhos, principalmente filmes.
— Quando nasceu a ideia de fazer uma série, me senti maduro, corajoso e impetuoso. Venho descobrindo uma pluralidade na minha forma de trabalhar. Em mais de duas décadas de profissão, busquei ser observador e curioso. Fui aprendendo a cada sucesso e a cada insucesso — ressalta.
Figura paterna
Um dos pontos envolvidos na obra é a relação conflituosa do personagem de Marcos Frota, o ex-empresário de futebol Valdemar, com o filho (Cauã). Isso porque o protagonista, Maurício, foi um jogador que teve uma carreira abreviada pela condução malsucedida então do agente. Na vida real, o ator também chegou a se afastar do pai, José Marques, ainda criança, quando sua mãe, Denise, se separou, mas foi morar com ele no Sul na adolescência.
— Era uma relação a distância. Ele não vem de uma família extremamente rica, então esse deslocamento não era barato nem rápido. Quando morei com ele em Santa Catarina, vinha lutar os campeonatos de jiu-jítsu no Rio de ônibus. Saía de lá sexta, lutava sábado e voltava domingo. Gostaria de ter sido bem mais próximo do meu pai. Hoje, a nossa relação é muito boa, inclusive ele me dá grandes conselhos. É uma relação diferente de Maurício e Valdemar. Mas empresto as nossas ausências e medos para o personagem — compare o ator, cujo pai ainda mora no Sul.
Apesar de seu José ter apresentado algumas modalidades esportivas para Cauã, a proximidade com o futebol veio da relação com o irmão mais novo de oito anos, Pável, quando o caçula passou a morar com o ator, na ocasião com 25 anos.
— Meu irmão é flamenguista doente. Para construir uma conexão com ele, já que fomos criados separados, comecei a entender de futebol. Quando meu irmão saiu da minha casa para fazer faculdade, continuei a me alimentar do universo do futebol — conta o também rubro-negro, que lamenta não poder jogar bola por causa de uma lesão que teve no quadril em 2010.
Em cena, o personagem de Cauã passa a maior parte do tempo com um cigarro na boca. Como o ator não fumava, usamos métodos contra a nicotina.
— Fumava cigarro de alface ou de camomila. Ia trocando para não aproveitar. Fiquei com muita tosse. O Maurício tem ansiedade e compulsão. O futebol deixou um vazio, tornou-se uma vida dele um caos. O cigarro preenche a angústia desse cara que está toda hora resolvendo problema — avalia o artista.
Cauã não abriu mão de abordar questões de saúde mental em série. O tema é muito caro para ele, que faz terapia desde os 14 anos.
— Eu discuti tudo na análise. É um lugar neutro para dividir ideias. Como sou pessoa pública, sei que essa conversa não vai ter julgamento. Atualmente, penso muito nas contradições do ser humano — reflete o ator, que se preocupa em como será o futuro da filha, Sofia, de 14 anos (fruto de seu casamento com Grazi Massafera).
— É muito gostoso conversar com a minha filha. Mesmo sendo muito jovem, ela já tem contradições. Hoje me sinto mais relaxado para falar sobre qualquer assunto. A vida tem altos e baixos. É importante dividir os pensamentos com ela, para que possa presenciar minhas mudanças — analisa ele, que, ao olhar em direção oposta, lamenta que o avô, Carlos, e sua mãe, morta em 2019, aos 55 anos, em decorrência de um câncer, não estejam vivos para celebrar o sucesso da série: — Ando muito emotivo. Quando penso na minha mãe, sinto algo gostoso. Acredito que ela esteja vendo minhas conquistas. Daria tudo para que meu avô estivesse assistindo a “Jogada de Risco” . Eles me fizeram acreditar no meu sonho. Tento ter disciplina e consistência, porque só assim o talento desabrocha. Estou sempre buscando uma base sólida. Isso talvez canse o meu sono também de vez em quando.
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