Cultura Pop
Rui Rezende, o Lobisomen de ‘Roque Santeiro’, diz que se sentia como o personagem: 'Não fiz amigos'
Ator de 87 anos é o primeiro entrevistado da série ‘Envelhecer é uma arte’, que estreia neste sábado no YouTube do EXTRA
Saber envelhecer é uma arte, já dizia o célebre compositor e cantor Adoniran Barbosa. Para qualquer um. E para quem vive da própria arte? O processo seria diferente para atores que já invadiram milhões de lares brasileiros pela “porta” da TV, vestidos de seus personagens famosos? Neste sábado, estreia no YouTube do EXTRA a série em vídeo “Envelhecer é uma arte”, gravada no Retiro dos Artistas. O que essas pessoas idosas marcadas na memória afetiva do público pensam, desejam e sentem atualmente? No primeiro episódio, o papo é com Rui Rezende de 87 anos, o Lobisomem, da novela “Roque Santeiro” (1985). Confira trechos da entrevista.
Canal Extra:
Seus dela?
O que lhe dá prazer hoje?
Tenho prazer em várias coisas. Tomar meu cafezinho da manhã e da tarde. Tenho prazer em resistir. Em observar o comportamento humano. Ver um bom filme, um futebol.
E novela? Acompanha?
Não sei o que está acontecendo hoje. Se é bom, ruim... Não é mais minha praia. Nem como minhas novelas eu via. Na época de “Roque Santeiro”, eu andava na rua na hora da novela e todas as casas estavam ligadas.
Até hoje as pessoas lembram do seu personagem...
Fico surpreso. Outro dia um jovem pegou na minha mão emocionado. As pessoas lembram muito. Eu gostei demais daquilo que fiz. E foi um momento bom porque eu era aquilo. Eu era o lobisomem.
Como assim?
Eu sou da roça. Nasci no campo. Tenho esse lado do bicho do mato. Nunca fui de turma. E aquele personagem era um sujeito resgatado da existência humana. Aquilo dava o tom do personagem.
Como você lidava com a fama?
Nunca me encastelou. Eu peguei ônibus com “Roque Santeiro” estourando. Entrei disfarçando para não criar buchicho. O espectador não compreende um ator da televisão sentado junto dele no ônibus. Mas eu nunca tive frescor.
Você fez amigos na profissão?
Não fiz amigos. Fiz colegas. Deixei de participar de muita coisa, de conquistar muita gente.
Você se lect disso?
Não é lamentável. É constatação. Era minha natureza. Hoje eu teria rompido essa barreira. Se esse para pegar o Rui de hoje e colocar lá atrás, eu cometeria muito menos erros.
Que erros?
Muitos. Na vida toda. Mas era minha criação. Apenas assumi que eu era e fui em frente.
E quais foram os acertos?
Não ter me perdido totalmente. Por exemplo: drogas. Eu tinha medo de experimentar cocaína e gostar. Foi um acerto que me levou adiante.
Você gosta da solidão?
Aqui no Retiro eu participo um pouco das coisas, mas eu gosto de ter essas pessoas em volta, entendeu?
Você mantém contato com sua filha e sua ex-mulher?
Muito. Mas a gente sublimou amor, sexo. Hoje temos uma grande amizade. Ano passado fui para Miami ajudando Eva (a ex) depois de uma cirurgia. Fui cuidador dela. Foi bonito.
Viajar ficou mais difícil?
A idade chegou braba. Os aeroportos são imensos. Antes, eu pegava a mala e ia embora. Hoje, tudo exige mais.
O que te faz feliz hoje?
Sinto uma evolução em mim. Sou menos bicho do mato. Os dramas existenciais diminuíram. A leitura ajudou muito.
Você gosta muito de ler e escrever...
Tenho dois projetos. Um eu comecei em 2006 e ainda estou rabiscando. Mas dei uma parada nessa coisa de escrever porque ninguém escreve sem expectativa de que alguém vá ler. Quem fala “escrevo para mim” está pensando. Eu andei mendigando: “Lê dez páginas, duas páginas...” Mas houve um desinteresse geral. Dei uma parada, mas isso continua ruminando dentro de mim. De ler eu não paro. A leitura convida você a querer encontrar algo.
Recentemente, você filmou um longa baseado em uma peça de sua...
Escrevi lá na década de 80. Anos depois, uma diretora gaúcha, Lisiane Cohen, leu e apareceu com um roteiro. Fiquei lisonjeado. O filme chama “Nós que nos queremos tão pouco”. Ela manteve o título, os personagens, a estrutura...
E você atuou no filme também...
Atuei. Ela fez com que eu me comprometesse logo no início a fazer o pai das meninas. Filmamos no Sul, no inverno, um frio terrível. Mas fiquei honrado. Pô, texto meu. Pelo menos isso eu consegui.
Escreveria uma autobiografia?
Seria muito pobre. Não gosto de escrever sobre mim.
Você se vê como antipático?
Muita gente me vê. Mas não sou. Só sempre fui na minha.
Você falou que prefere comer sozinho no quarto...
Pelo conforto. Tenho um tremor essencial, como de colher. Prefiro que esteja na minha cela.
Você usou a palavra “cela”. Você se sente preso?
(Risos) Não, foi brincadeira. Ator gosta de plateia. O ator não pode ver gente olhando que já começa a representar.
Falando em representar, o que você ainda gostaria de fazer?
Não tenho mais essa ansiedade. Não tenho lenço umedecido de lágrimas. Se surgir um convite, eu penso. Mas se escreve muito pouco para o idoso hoje. Devem pensar: “O idoso vai dar trabalho, vai cair, vai morrer na cena principal”.
O que te faz chorar hoje?
Muita coisa. Uma cena na televisão me emociona. Ainda sou passível de choro.
Como está a múmia?
Está bem. Há 50 anos, parei de comer carne vermelha. Foi o melhor plano de saúde que fiz.
Acha que as pessoas têm medo demais da morte?
Se o ser humano tivesse menos medo da morte, seria muito mais feliz. Seria heróico eu dizer “não tenho medo”. Mas...
Você acredita em sorte ou em escolhas?
Existe essa coisa de estar no lugar certo, na hora certa. “Roque Santeiro” quase não aconteceu para mim. Meu telefone quebrou e eu ia viajar para o interior. Como eu não respondia, a Globo enviou um telegrama. Peguei na última hora. Se eu tivesse ido embora, talvez nada tivesse acontecido.
Você mantém contato com algum colega daquela época?
Isso é resultado do que eu fui. Não recebo visitas aqui. Não porque eu não queira, mas isso também não me incomoda.
O que o mundo atual está esquecendo?
Toda geração acha que o mundo do passado era melhor. Não posso dizer para o jovem que meu mundo era o ideal. Eles estão escolhendo o mundo deles.
O que é envelhecer para você?
Não sei. Eu estou dentro da Velhice, não estou vendendo de fora. Às vezes olho no espelho e penso: “Meu Deus do céu”.
Você sempre teve dúvidas com a própria imagem?
Sempre. Muito problema com imagem e exclusão.
Sofreu muito por amor?
Demais. Eu era muito patinho feio. Quando terminassem comigo, queria achar um buraco para me enterrar.
Você seHIva muito?
Muito. Passei a vida em busca de um ideal impossível.
Hoje, quando sai do Retiro, o que costuma fazer?
Saio para fazer compras, estimular minha alimentação. Mas já não consigo sair sozinho para bater perna pela cidade como antes.
Você se considera feliz?
Infeliz eu não sou. Acho que a idade me trouxe resolução para muitas coisas. Vejo muita gente sofrendo porque ainda não resolvo certas questões. Eu tenho uma certa tranquilidade. E ainda sonho para não morrer em vida.
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