Cidades

A gente se sente enganada pela Prefeitura”, diz mãe de alunos sobre Escola Bilíngue da Gestão de JHC

Falta de professores e relatos de agressões e furtos são comuns na unidade de ensino municipal; direção escolar é acusada de ignorar apelos dos pais

Redação 28/09/2026
A gente se sente enganada pela Prefeitura”, diz mãe de alunos sobre Escola Bilíngue da Gestão de JHC
A gente se sente enganada pela Prefeitura”, diz mãe de alunos sobre Escola Bilíngue da Gestão de JHC

Falta de professores, casos de agressões, furtos e relatos de omissão por parte da direção escolar se tornaram rotina em uma unidade de ensino construída durante a gestão do ex-prefeito JHC. As denúncias partem de mães de alunos matriculados na Escola Bilíngue, localizada no conjunto Graciliano Ramos, na parte alta da capital.

“Eu fiz a inscrição pela proposta da escola e a gente não teve nada do que foi prometido. A realidade aqui é bem diferente do que a gente vê na propaganda. A gente se sente enganada pela Prefeitura”, diz uma das mães, que pediu para não ser identificada.

Inaugurado em março deste ano, o centro educacional foi anunciado por João Henrique Caldas como o primeiro bilíngue (português/inglês) de ensino integral da rede municipal. A Escola Professora Maria das Graças Silva — verdadeiro nome da unidade – teria capacidade para 710 estudantes do 1º ao 9º ano do Ensino Fundamental.

Mas o que foi vendido como um modelo avançado de educação pública tem, na verdade, apresentado problemas antigos, típicos do descaso com a educação inerente à administração JHC. Ou seja, mais um produto “instagramável” do ex-prefeito.

Ao matricular o filho de sete anos no segundo ano do Ensino Fundamental, a expectativa de a criança cursar aulas em turno integral foi logo frustrada. “Já tem dois meses que o meu filho está indo para a escola e está sendo colocado em outra turma porque não tem professor na sala dele”, reclama a mãe, sobre o colégio inaugurado há apenas seis meses.

Para ela, a escola não cumpre o que foi prometido. “O mínimo que seria ter professor em sala”. Sem aulas, estudando apenas um turno, a criança sente o descaso. “Ele está brincando no horário que ele teria que ter aula. Aí ele faz algumas reclamações pra mim, de que fica largado”.

As tentativas de solução junto à administração escolar e à Secretaria Municipal de Educação (Semed) se tornaram um jogo de empurra.

“A gente fala com a direção, a direção não tem o que falar, manda a gente procurar a Semed e a gente procura Semed e a Semed manda a gente procurar a direção. Eles dizem que não tem o que fazer e que a gente só tem a esperar. E enquanto isso, o meu filho teve um ano perdido esse tempo todo. É o ano que ele teria realmente que aprender e melhorar a leitura e escrita”.

Agressão e omissão


Noutro relato, em vídeo publicado nas redes sociais na última semana, Kelly Monique Souza denuncia o que considera descaso da direção escolar após revelar que a filha foi agredida por outra aluna, ter os pertences da mochila furtados e questionar a metodologia de ensino de um professor substituto – justamente na disciplina de língua inglesa — uma das supostas especialidades da Escola Bilíngue.

Com duas filhas matriculadas na unidade, Monique narra episódio ocorrido em 17 de agosto. “Minha filha mais velha, do sexto ano, chegou em casa toda arranhada, arranhada de unha”. A garota havia sido agredida por outra aluna. “No mesmo dia, eu procurei a escola por WhatsApp, não tive resposta. Fui pessoalmente na escola. Falei com a direção, que chamou os pais e a outra aluna. Fui orientada a fazer boletim de corpo delito porque havia ferimentos, era considerado agressão física”.

Na sequência, a mãe lamenta o posicionamento omisso da direção escolar sobre o caso. “Ao conversar com os diretores – a diretora e o vice –, ele disse que não poderia ser feito nada: ‘Se a senhora quiser fazer o corpo delito... mas a escola não pode fazer nada’. Nenhuma suspensão? Ele falou ‘não!’. Quando a diretora chegou eu recebi a mesma resposta, que não seria feito nada, que só iria colocar na ATA”.

Em respeito à mãe da aluna agressora e por se tratar de uma confusão entre crianças, Monique não levou o caso adiante. Entretanto, voltou a se queixar da postura leniente da diretora. “As meninas fizeram as pazes e ok. Mas claro que por parte da escola eu esperaria uma atitude, uma advertência. Pelo que eu entendi, no mesmo dia que eu relatei no grupo de pais, teve uma outra mãe que estava revoltada porque a filha chegou com metade do cabelo cortado e a escola não fez nada”.

Caso de furto: “Todos roubam”


Nove dias depois do incidente, a mãe foi surpreendida por outra ocorrência, desta vez de furto. Ao recuperar a mochila esquecida na seção de Achados e Perdidos da escola, a outra filha de Monique identificou que os pertences haviam sido furtados, com exceção de um estojo vazio e dos cadernos escolares.

“E aí novamente entrei em contato com a escola pelo Whatsapp. Não tive retorno. Fui pessoalmente. Primeiro, os porteiros não me deixaram entrar porque não estava em horário de atendimento. Retornei no outro dia. Consegui falar com a psicóloga e a assistente social que anotaram e disseram que iam passar para a direção. Não tive nenhum retorno da direção quanto a isso. No dia que aconteceu, minhas filhas foram até as diretoras, solicitaram as câmeras e a mesma respondeu em tom de deboche que não iria dar”.

Ao questionar novamente a diretora sobre o episódio, a resposta foi mais uma vez evasiva. A gestora negou mostrar as imagens das câmeras para identificar o suspeito. “Quando eu questionei sobre a escola ter câmeras e guardas e não servir pra nada, ela falou que não, que a irresponsabilidade foi da minha filha, que a escola não tem nada a ver. E aí, ela falou ‘todos roubam’. Ou seja, é algo comum, que ela não vai resolver”.

Considerada aluna exemplar pelos professores, uma das filhas de Monique trouxe queixas sobre a metodologia de ensino de um professor substituto da disciplina língua inglesa. “Ela diz que todos os dias ele só colocam os alunos pra pintar, desenhar e brincar de estátua. Ou seja, a criança não está aprendendo nada. A diretora falou que era a metodologia do novo professor e que eu não tinha o direito de questionar porque todos os professores são formados”.

Sem solução iminente, restou à mãe solicitar transferência das filhas para outra escola. Ao saber do pedido, o vice-diretor exigiu que a transferência fosse realizada imediatamente. “Pegue suas filhas bonitinhas e troque de escola. Essa foi a resposta. A minha filha é uma boa aluna, tira notas ótimas, em todo plantão pedagógico só recebo elogios dela. Eu nunca tive reclamação da minha filha em nenhuma escola”.