O silêncio de quem governa e a fome de quem trabalha

14/01/2026

Janeiro chega sempre com discurso de recomeço, mas para milhares de trabalhadores contratados pelo poder público ele chega como castigo. O calendário vira, o ano muda, mas a conta não espera. O aluguel vence, o mercado encarece, o gás acaba — e o salário simplesmente não vem. O silêncio de quem governa ecoa alto demais na mesa vazia de quem trabalha.

A vida do contratado é uma espécie de limbo institucional. Não é efetivo, não tem estabilidade, não tem garantia. Vive da promessa, do “aguarde”, do “depois do Carnaval a gente vê”. Janeiro, para esses trabalhadores — seja no Estado, seja na prefeitura — é o mês mais cruel do ano. Trabalham sem receber. Trabalham com medo. Trabalham para garantir uma possível recontratação, como quem caminha em terreno movediço sabendo que qualquer passo em falso pode custar o sustento da família.

É o preço da precarização travestida de gestão moderna.

Enquanto gabinetes entram em ritmo lento, enquanto gestores tiram férias políticas disfarçadas de planejamento, o contratado segue batendo ponto, segurando a rotina do serviço público com as próprias mãos. Escola funcionando, posto de saúde aberto, limpeza urbana mantida, repartições rodando — tudo sustentado por gente que não sabe se terá salário amanhã.

Isso não é exceção. É método.

O prejuízo da falta de estabilidade e de efetividade no serviço público não aparece apenas nas estatísticas. Ele aparece no rosto cansado, no estômago vazio, na ansiedade que não dorme. O contratado não adoece — porque não pode. Não falta — porque teme. Não reclama — porque sabe que a fila anda rápido.

Em Palmeira dos Índios, esse drama ganha contornos ainda mais duros. Há relatos recorrentes de trabalhadores passando todo o mês de janeiro sem receber, mesmo mantendo suas atividades normalmente. Gente que segura o funcionamento da máquina pública enquanto a máquina ignora sua existência. Gente que trabalha sob a chantagem silenciosa da recontratação pós-Carnaval: “aguente firme agora, depois a gente conversa”.

Conversar não enche geladeira.

O silêncio do poder público é ensurdecedor. Não há nota, não há explicação clara, não há cronograma. Há apenas a velha aposta na resignação de quem precisa do emprego. É uma relação desigual, injusta, quase feudal: o trabalhador oferece tudo, o poder promete nada.

E depois se pergunta por que o serviço público adoece. Adoece porque é sustentado pela instabilidade. Adoece porque a eficiência é cobrada de quem não tem direito básico assegurado. Adoece porque o discurso da valorização do servidor não alcança o contratado, tratado como peça descartável.

Janeiro expõe essa ferida com crueldade. É o mês em que o silêncio governa e o trabalhador sofre. O mês em que o poder se esconde atrás do calendário e o povo paga a conta da desorganização, da omissão e da falta de sensibilidade.

Não se constrói serviço público forte sobre salários atrasados.
Não se governa com dignidade explorando o medo.
Não se fala em justiça social ignorando quem mantém a cidade funcionando.

O silêncio de quem governa pode até parecer estratégico. Mas a fome de quem trabalha não espera. E toda vez que o poder se cala diante disso, governa contra o próprio povo.

Vladimir Barros

Vladimir Barros

É advogado militante, formado pela Universidade Federal de Alagoas e pós-graduado em Direito Processual e Docência Superior. Jornalista filiado ao Sindjornal/FENAJ, é membro efetivo da Associação Alagoana de Imprensa (AAI) e da Associação Brasileira de Imprensa; Editor do Jornal Tribuna do Sertão. É também membro da Academia Palmeirense de Letras (Palmeira dos Índios) e fundador da Rádio Cacique FM.