O Brasil que acorda em janeiro: promessas velhas, problemas novos e a memória curta do poder
Janeiro sempre chega com cara de novidade. O calendário vira, os fogos se apagam, as promessas ganham perfume de ano novo e o país acorda acreditando — ainda que por alguns dias — que algo pode ser diferente. Mas o Brasil que desperta em janeiro é o mesmo que foi dormir em dezembro. Apenas trocou o número da folha na parede.
O sol nasce mais cedo, o calor aperta, a vida real bate à porta sem pedir licença. Falta água, falta luz, faltam respostas. E sobram discursos. Janeiro é o mês em que o poder finge recomeço, enquanto o povo encara continuidade.
As promessas são antigas, recicladas como slogans de campanha. Mudam as palavras, mas o conteúdo é o mesmo: “agora vai”, “estamos trabalhando”, “é questão de tempo”. O tempo passa. O problema fica. O poder aposta na memória curta — essa aliada fiel de quem governa mal.
Os problemas, por sua vez, parecem novos porque se acumulam. A conta de janeiro chega maior. O serviço continua precário. O escândalo do fim do ano vira rodapé. O do começo do ano ganha manchete. E assim se constrói a ilusão do movimento: muito barulho, pouca solução.
Janeiro também é o mês do ensaio eleitoral. Ninguém assume, mas todos testam. Mensagens cifradas, fotos calculadas, frases soltas “sem intenção”. É quando o poder mede o vento, sente a rua, experimenta narrativas. Não é trabalho: é aquecimento. Não é solução: é posicionamento.
Enquanto isso, o país real não entra em recesso. A dona de casa improvisa. O comerciante reabre com medo. O trabalhador volta sem garantia. O aposentado confere o extrato. A fila não diminui. A espera não acaba. A dignidade segue em prestação.
O problema não é janeiro. É o hábito de tratar janeiro como anestesia. Como se o novo mês pudesse apagar o que não foi feito. Como se o discurso bastasse. Como se o povo esquecesse. Mas memória curta não é destino — é estratégia do poder.
O Brasil não precisa de promessas novas. Precisa de compromisso antigo: respeito. Respeito ao dinheiro público, ao tempo das pessoas, à inteligência coletiva. Precisa menos de frases prontas e mais de respostas claras. Menos marketing e mais gestão.
Janeiro passa rápido. Fevereiro acelera. Março esquenta. E quando se percebe, o ano está em disputa — outra vez. O que não pode passar é a lembrança. Porque quando o povo lembra, o poder treme.
O Brasil que acorda em janeiro não pede milagre. Pede verdade. E verdade, ao contrário das promessas, não vence com o tempo — vence com memória.
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