Palmeira dos Índios, a cidade do descaso (de dia falta água, de noite falta luz)
Há ditados populares que atravessam gerações porque dizem verdades que ninguém consegue esconder. Um deles, que virou música e rima na boca do povo, encaixa-se hoje em Palmeira dos Índios com precisão quase cruel: de dia falta água, de noite falta luz. Não é metáfora. É rotina. É diagnóstico. É a crônica diária de uma cidade abandonada à própria sorte.
A reclamação é geral, unânime, atravessa bairros, classes sociais, comerciantes, donas de casa, trabalhadores informais, servidores públicos. A cidade sofre com o descaso explícito da empresa Águas do Sertão, concessionária responsável pelo abastecimento de água. Uma concessão que prometia modernidade, eficiência e dignidade, mas entregou buracos, poeira, lama, torneiras secas e uma paciência popular que já se esgota.
As ruas foram abertas como se a cidade fosse um laboratório de improvisos. Cavam-se valas, interrompem-se vias, destroem-se calçamentos - e o serviço nunca parece terminar. O resultado é uma Palmeira dos Índios esburacada, feia, maltratada, onde o transtorno virou regra e a normalidade, exceção. E, como se não bastasse a destruição física, há o desabastecimento crônico. Bairros inteiros passam semanas sem água, em pleno sertão, onde existe um sol para cada morador, pagando caro por um serviço que simplesmente não funciona.
Quando a água resolve aparecer, a energia some. E quando a luz volta, vem aos solavancos, num verdadeiro pisca-pisca que mais parece decoração de Natal fora de época. A má qualidade do fornecimento elétrico - com quedas constantes e picos de tensão - tem queimado eletrodomésticos, prejudicado o comércio, interrompido atendimentos, paralisado pequenos negócios e transformado a rotina do cidadão num exercício diário de improviso.
É prejuízo para todos. Do pequeno comerciante ao consumidor comum. Da padaria ao salão de beleza. Do mercadinho ao hospital. Falta energia, falta água, falta respeito. E, talvez o mais grave, falta responsabilidade no atendimento. Reclama-se, protocola-se, liga-se - e nada acontece. O serviço não funciona. E ninguém parece responder por isso.
Enquanto isso, a política local vive num mundo paralelo.
Na Câmara Municipal de Palmeira dos Índios, discute-se pouco o que realmente importa e homenageia-se quem nada tem a ver com a cidade. Num gesto que mistura folclore e hipocrisia, concedeu-se título de cidadão honorário a Paulinho da Força, um deputado paulista que provavelmente não saberia apontar Palmeira dos Índios no mapa - e muito menos indicar o caminho da BR-316 em Alagoas. É a política do faz de conta: faz de conta que representa, faz de conta que homenageia, faz de conta que governa.
Enquanto isso, os escândalos seguem batendo à porta.
Um deles envolve o ex-prefeito, conhecido nos bastidores como vulgo Imperador, que recentemente apareceu nas redes sociais e na mídia ostentando sua imagem em frente a uma obra que não é sua: o Hospital do Médio Sertão, em Palmeira dos Índios. A obra foi idealizada e iniciada no governo de Renan Filho e concluída pelo atual governador Paulo Dantas. Mas, como manda a velha cartilha do oportunismo político, há sempre quem tente pegar carona no mérito alheio.
Mais grave ainda foi o vazamento de um áudio em que o mesmo ex-prefeito incita a invasão de terras. Não há eufemismo possível aqui: invasão é violência. Sempre foi. Mesmo quando o pleito é sensível, legítimo e histórico - como a demarcação indígena - não se pode estimular o conflito, fomentar o caos e jogar a população uns contra os outros. Incitar invasão é incitar violência. E isso, num município já tensionado, é irresponsabilidade em estado puro.
Palmeira dos Índios vive hoje um cenário perigoso: serviços públicos precários, concessões mal fiscalizadas, energia instável, água ausente, ruas destruídas e uma elite política que parece mais preocupada com títulos honorários, selfies oportunistas e discursos vazios do que com a vida real do povo.
A cidade que já foi chamada de Princesa do Sertão hoje parece tratada como figurante da própria história. E o mais revoltante não é apenas o descaso - é a naturalização dele. Como se fosse normal viver sem água. Como se fosse aceitável trabalhar sem energia. Como se fosse razoável conviver com o improviso permanente.
Esta crônica não é apenas crítica. É um alerta. Porque cidades não entram em colapso de repente. Elas vão sendo empurradas lentamente para o abandono, enquanto alguns fingem governar e outros fingem não ver.
E o povo, cansado, começa a entender que o problema não é falta de paciência.
É excesso de desrespeito.
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