Os que gritam mais alto
Vivemos uma era em que o volume vale mais do que o conteúdo.
Quem grita mais alto vence, mesmo que diga bobagens.
E quem tenta pensar antes de falar — esse já perdeu, porque o pensamento, coitado, é lento, e o mundo agora exige resposta imediata, de preferência em caixa alta, com três emojis e uma pitada de ódio.
As redes sociais se tornaram um grande palanque, sem regras, sem freios e sem moderação de consciência.
Ali, cada um carrega no bolso o seu megafone invisível.
E o que antes era um espaço para compartilhar ideias virou um campo de batalha de egos.
Os argumentos? Sumiram.
O que resta são slogans, frases prontas, hashtags e a eterna ânsia de estar “do lado certo”.
E, se não houver lado, inventa-se um.
Basta um inimigo imaginário, um herói de ocasião, e pronto: temos guerra declarada nos comentários.
Os que gritam mais alto não querem convencer — querem vencer.
E, se possível, humilhar.
Porque o debate de hoje não é mais sobre o que é justo, mas sobre quem tem mais seguidores, quem viraliza primeiro, quem lacra melhor.
O mundo virou uma arena de gladiadores virtuais, e o sangue derramado é o da reputação alheia.
Políticos perceberam isso rápido.
Aprenderam a chorar na frente da câmera, a posar de vítimas, a transformar cada crítica em “perseguição”.
E o público, sedento por espetáculo, aplaude.
A lágrima ensaiada vira manchete.
O discurso indignado, escrito por marqueteiro, vira prova de “autenticidade”.
Enquanto isso, a razão — essa velha senhora de passos lentos e voz mansa — assiste, encostada num canto, pedindo a palavra e sendo ignorada.
Ela ainda tenta, às vezes, escrever um texto longo, trazer um dado, citar uma fonte.
Mas ninguém lê.
“Resumo, por favor.”
“Fala logo o que interessa.”
“Tá defendendo bandido?”
E lá se vai a razão, derrotada por um meme.
O barulho é viciante.
As pessoas descobriram que falar alto dá mais retorno do que falar certo.
E, quanto mais se grita, mais o algoritmo recompensa.
O ódio dá engajamento, o grito gera curtida, e o silêncio — esse, coitado — não dá view.
Mas há uma esperança escondida no meio do ruído: às vezes, no meio do tumulto, alguém sussurra uma verdade.
E esse sussurro é tão raro, tão sincero, que fere mais do que qualquer grito.
Porque a verdade, quando dita sem raiva, é quase revolucionária.
Talvez um dia as vozes cansadas de berrar percebam que o ruído não muda o mundo — só o ensurdece.
E que pensar, mesmo que em silêncio, ainda é o mais subversivo dos atos.
Até lá, sigamos com fones de ouvido, tentando escutar o que sobra do bom senso entre um grito e outro.
Porque, no fim, é no silêncio que mora a lucidez.
E os que gritam mais alto — esses, quase nunca têm razão.
Mais lidas
-
1INFRAESTRUTURA
Paulo Dantas anuncia triplicação da rodovia entre Maceió e Barra de São Miguel
-
2MACEIÓ
Servidores cobram JHC por caso Banco Master e perdas salariais
-
3TÊNIS INTERNACIONAL
Sinner pode quebrar dois recordes históricos se vencer Ruud na final do Masters 1000 de Roma
-
4TÊNIS
Semifinal entre Sinner e Medvedev é cancelada por mau tempo em Roma
-
5OBRA IMPORTANTE
Novo binário de Arapiraca está com 95% das obras concluídas