A jovem democracia e os velhos truques
O Brasil é um adolescente que insiste em querer parecer adulto. Nossa democracia, com um pouco menos do que quatro décadas, ainda tropeça, erra, levanta, e se exibe como se tivesse a experiência de uma república centenária. É jovem, com todas as imperfeições que isso acarreta. A Justiça emperra, a política patina, reformas aguardam há décadas como se fossem cartas esquecidas em uma gaveta mofada. Ainda assim, há algo que não se pode negar: vivemos num país livre. O povo brasileiro já tem memória. E memória, aqui, não é luxo: é vacina contra a escuridão.
Livre, com todos os defeitos da liberdade. Livre para ouvir discursos de esquerda, com seus diagnósticos às vezes precisos, às vezes fantasiosos. Livre para escutar a direita, com sua retórica de valores eternos, muitas vezes convertida em slogans ocos. Livre para suportar as paixões inflamadas dos que se imaginam donos da razão, cada qual carregando ideologias, sofismas e certezas absolutas.
Mas que não se cometa o pecado da comparação fácil. Nada — absolutamente nada — do que vivemos hoje se aproxima da noite pesada da ditadura. Ali, as vozes eram caladas antes mesmo de soar. Havia censura não apenas na imprensa, mas na vida cotidiana: a piada no bar, a música na rádio, o livro que não podia ser publicado. Havia medo como regra, e silêncio como disciplina. Era um Brasil sufocado.
É preciso repetir: nada do que vivemos hoje se compara ao período sombrio da ditadura
Hoje, ao contrário, fala-se de tudo e contra todos. Critica-se o presidente, seja ele quem for; questiona-se o Congresso; xinga-se o Judiciário; ironiza-se a política. E tudo isso não apenas em rodas íntimas, mas em redes sociais, jornais, palcos de teatro, praças públicas. O que é isso, senão a materialização da liberdade?
Ora, convenhamos: chamar de ditadura um país em que se pode publicar impropérios contra o próprio Supremo em rede social é de uma ignorância colossal. Mais que burrice, é canalhice política. É querer confundir o povo, plantar um medo artificial, como se fantasmas de um comunismo inexistente pudessem justificar golpes mal-ajambrados. Ditadura é outra coisa, e quem a viveu sabe.
Eis por que soa ridículo — para não dizer criminoso — ouvir os seguidores do ex-capitão obtuso, Jair Bolsonaro, gritarem que vivemos sob uma “ditadura”. Ora, ditadura é o que se tentou impor quando se cogitou fechar tribunais, quando se estimulou golpe, quando se flertou com tanques na rua. Ditadura é a sombra que rondou em 8 de janeiro de 2023, mas que foi repelida pela própria resistência das instituições democráticas.
A democracia brasileira, com seus vícios e rugas precoces, resistiu. E se persiste, não é porque seja perfeita, mas porque ainda se mostra mais forte que a retórica histérica de quem tenta negá-la. Quem diz o contrário ou é ingênuo — e não aprendeu nada com a História — ou é malandro, desses que tentam posar de sábio político para enganar incautos.
O Brasil segue, aos trancos e barrancos, sua estrada democrática. Falta consertar muita coisa, é verdade: o sistema de Justiça precisa de ajustes urgentes, a política clama por uma reforma que já virou lenda. Mas entre os tropeços da liberdade e o silêncio de uma ditadura, que ninguém se engane: é preferível conviver com o barulho das paixões do que voltar a viver no silêncio imposto pelo medo.
E justamente porque somos livres que podemos dizer isso em voz alta, escrever em jornal, protestar na rua. O direito de criticar é o próprio coração da democracia.
Por isso, não se iludam com os arautos da mentira. Quando falam que vivemos sob um regime ditatorial, não defendem a liberdade — querem é solapar a que já temos. Quando inventam ameaças de comunismo, não protegem o povo — apenas mascaram seus próprios fracassos.
Quem prega o contrário ou é burro demais para perceber, ou é esperto o suficiente para querer enganar. E contra tolos e canalhas, a melhor arma segue sendo a mesma: a palavra livre.
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