O silêncio dos latidos
Era pra ser uma data de esperança. Um 4 de abril de celebração, de mobilização e compaixão. O chamado Dia Mundial dos Animais de Rua, criado lá na distante Holanda, desembarcou por aqui com o peso de uma urgência que salta aos olhos – e às calçadas. Em Palmeira dos Índios, porém, o dia ganha um tom triste, quase cruel: mais de 400 animais correm o risco de voltar às ruas. Não por escolha, nunca foi escolha. Mas por abandono. Desta vez, não só de seus antigos donos, mas também das promessas da Prefeitura.
Eles não pediram para nascer nas ruas, muito menos para nelas voltar. Os latidos e miados que ecoam nos abrigos das ONGs – essas que resistem com o que podem, com o que têm, com o que não têm – estão agora sob ameaça. Promessas de recursos públicos ficaram no vento, como tantos outros compromissos que se esvaem no calor das disputas políticas e na frieza dos gabinetes. As instituições que acolhem esses animais denunciam: o dinheiro prometido não veio, e a ração está acabando. A água é medida, os medicamentos racionados. O afeto continua, mas ele sozinho não enche comedouro nem vacina contra a raiva.
Cães e gatos não entendem a linguagem burocrática. Eles não compreendem ofícios, pareceres, emendas e vetos. Entendem de fome, de frio, de abandono. E é isso que os aguarda do lado de fora dos portões dos abrigos. Do lado de fora, tem rua quente em janeiro, chão molhado em junho, gritos, pedradas, pneus que não freiam. E tem também silêncio – o silêncio dos que fecham os olhos.
A cidade que sonha em ser modelo de gestão e modernidade parece esquecer que o cuidado com os vulneráveis – inclusive os de quatro patas – é um dos pilares da civilização. Não basta enfeitar rotatórias ou construir palácios administrativos se, nas calçadas, o que se vê são vidas largadas, ignoradas, descartadas.
A desculpa é sempre a mesma: falta de recursos, excesso de demanda, entraves burocráticos. Mas basta olhar nos olhos de um animal resgatado para entender que o problema é outro: falta de vontade. Falta de prioridade. Falta de humanidade.
E pensar que estamos falando de pouco. Pouco dinheiro, comparado aos contratos vultosos que enchem as páginas de licitação. Pouco tempo, comparado aos calendários de inaugurações. Pouca estrutura, comparada ao barulho das campanhas.
Se os mais de 400 animais voltarem às ruas, não será um acaso. Será uma escolha. Da gestão pública que opta por ignorar. Da sociedade que opta por se calar. Mas ainda há tempo. Tempo de fazer valer o Dia Mundial dos Animais de Rua com ações concretas. De transformar promessas em repasses. De fazer política pública com p maiúsculo – aquela que cuida, que salva, que protege.
Porque cada latido silenciado pela fome, cada miado que se perde na madrugada, é uma denúncia contra a indiferença. E se a cidade quer se orgulhar de ser humana, precisa, antes, provar que tem humanidade.
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