O céu e o Inferno ao gosto da Religião
16/11/2013
Morrem por uma religião. Matam por uma idolatria e buscam o reino estranho de um céu mais bizarro ainda. E para quê os extremismos se a simplicidade dos fatos corrói cada parte de um todo bem maior, mais complexo, inevitável, e que está acima de qualquer egoísmo humano. Nossa pequenez acumula-se ao longo de um turbilhão de dizeres repetidos, de rituais e tradições.
Esse é, talvez, o hábito mais perigoso da humanidade: buscar um Deus que vive acima das cabeças, sempre inalcançável. E o que pode ser Deus? Pergunta pertinente para quem não sabe quem é ou para onde vai. A questão não é o que, mas quem e como.
O ser que transformaram em mito, ora cruel, ora sanguinário, ora injusto, ora onipotente, é apenas a simplicidade dos fatos. Indefinível, é verdade, entretanto, também não é complicado nem distorcido. A religião por si só distorce, perverte, engana, humilha, recrimina.
E qualquer coisa pode ser uma religião: um amor incomensurável, uma carreira profissional, um sonho, um indivíduo, um objetivo, uma divindade, uma obrigação, um tormento, uma fuga, uma rosa, um livro, uma música, uma ideologia, um telefone, um desejo, uma tristeza, uma lembrança, uma mudança, um achismo, um propósito... Tudo e nada pode ser uma religião.
Por uma religiosidade, a morte e a vida são linhas paralelas que podem ser saltadas em movimentos de ida e volta no maior clamor, em um fervoroso jeito de extremos. Por uma religião sente-se o mundo apoiado nos ombros, a arma que atira e ceifa a vida de milhares, a fumaça que incensa cabelos e roupas, rituais intermináveis, tédio.
Para saber de verdade sobre algo, sobre o íntimo, recorremos à religião como meio salvador. Mas o que é, então, a religião para cada um? Tão mutável e tão concisa. Um ser vivo que se origina do mais absoluto nada e explora os confins do universo exterior e interior. Para a adequação de uma verdade completa, fazemos o pior e melhor. Adaptamos a vida e os modos de produção, os vícios e as preteridas benevolências.
Nas manias habituais de nossa espécie, construímos infinitos particulares para desenvolver qualidades. E o que importa as qualidades se o Wi Fi da igreja está protegido?
Somos bipolares. Adoramos Deus e o Diabo. Guardamos a casa para o ladrão e a mulher alheia para nossa satisfação.
O que queremos de verdade não é uma eternidade em um lugar imaginário onde estaremos vestidos de camisola branca. O paraíso, tal como a religião, é adaptável ao portador. O Paraíso pode ser um bordel, um bar, um show, uma praia, uma comida, o sexo indiscriminado, casos fortuitos com pessoas proibidas, um mar de dinheiro ou de sangue. O inferno, de maneira semelhante, pode ser a tranquilidade, a camisola branca, uma eternidade de oração e sorrisos. O Paraíso e o inferno podem ser escolhidos de acordo com o gosto do freguês.
Matar, morrer, sofrer, sorrir. Para os extremos fica nossa religião. Na terra tudo acaba e do alto Aquela divindade observa nossa pouca criatividade.
IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA
Augusto dos Anjos
Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
— Homens que a herança de ímpetos impuros
Tornara etnicamente irracionais!
Não sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam! No húmus do monturos,
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais!
Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão...
E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação!
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