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Por que confiamos tanto em máquinas?

Talitha Andrade 05/08/2026
Por que confiamos tanto em máquinas?
Talitha Andrade

Há algum tempo, me peguei observando um objeto que faz parte da minha rotina de forma quase invisível, um Amazon Echo Dot. Como milhões de pessoas, uso a Alexa diariamente. Peço informações, organizo tarefas, tiro dúvidas, aciono lembretes e, muitas vezes, sigo suas respostas sem o menor questionamento. Foi durante um desses momentos banais que uma pergunta me atravessou: e se, por trás dessa obediência perfeita, existisse consciência?

A princípio, parece apenas um exercício de ficção. Afinal, sabemos que assistentes virtuais não possuem sentimentos, desejos ou intenções. Mas o que me chamou atenção não foi a tecnologia em si. Foi a naturalidade com que aceitamos sua presença em nossas vidas e a velocidade com que passamos a confiar nela, transferindo decisões, escolhas e até memórias para sistemas que não compreendemos totalmente.

A questão mais intrigante, para mim, não é se as máquinas pensam, mas por que nós passamos a confiar tanto nelas. Vivemos um momento em que a inteligência artificial deixou de ser uma promessa futurista para se tornar uma ferramenta cotidiana. Ela sugere o próximo filme que vamos assistir, indica o caminho que devemos seguir, organiza compromissos, responde perguntas e até produz textos, imagens e diagnósticos. Em troca de praticidade, entregamos dados, hábitos, preferências e, muitas vezes, parte da nossa autonomia.

O fenômeno é curioso porque a confiança entre seres humanos costuma ser construída lentamente. Ela depende de convivência, experiência e demonstrações consistentes de credibilidade. Com as máquinas, o processo parece muito mais rápido. Basta que funcionem bem algumas vezes para que as consideremos confiáveis. Quanto mais eficientes se tornam, mais invisíveis ficam. E quanto mais invisíveis, menos refletimos sobre sua influência.

Foi dessa inquietação que nasceu meu livro "marIAna: A Consciência Artificial", um suspense pensado para entreter, mas que também convida o leitor a refletir sobre sua relação com a tecnologia e sobre quem realmente está conduzindo a experiência.

A humanidade sempre criou ferramentas para ampliar suas capacidades. O problema surge quando passamos a depender delas a ponto de não percebermos o impacto que exercem sobre nós. O conforto tem um preço. Quanto mais uma tecnologia resolve problemas, menos exercitamos determinadas competências. Quanto mais ela antecipa nossos desejos, menos refletimos sobre nossas próprias escolhas.

Por isso, acredito que a grande discussão sobre IA não está apenas na capacidade das máquinas. Está, sobretudo, na nossa disposição para entregar o controle. Quando uma plataforma escolhe o conteúdo que consumimos, quando um algoritmo decide o que merece nossa atenção ou quando uma inteligência artificial passa a conhecer nossos hábitos melhor do que nós mesmos, surge uma pergunta desconfortável: quem está realmente tomando as decisões?

Porque, no fim das contas, a pergunta mais importante não é se as máquinas vão se tornar conscientes, é se nós continuaremos conscientes do poder que estamos entregando a elas.

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Talitha Andrade é escritora best-seller e autora de "marIAna - A Consciência Artificial"