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A crise da leitura em tempos de atenção fragmentada
A 6ª edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Ipec – Inteligência em Pesquisa e Consultoria, apresenta uma grave constatação: mais da metade da população brasileira não lê. Pela primeira vez desde o início da pesquisa, os brasileiros que não costumam ler um livro são a maioria. Nos últimos cinco anos, o país perdeu 6,7 milhões de leitores. Isso envolve todas as classes sociais, faixas etárias e níveis de escolaridade.
Mais do que um problema de acesso, renda ou escolaridade, a queda do número de leitores parece refletir uma crise mais profunda: a dificuldade crescente de manter a concentração em um ambiente marcado pelo vício das telas, por redes sociais recheadas de algoritmos, vídeos curtos, consumo compulsivo e acelerado de conteúdo. Tudo programado para capturar fragmentos da nossa atenção. Há uma verdadeira competição pelo tempo das pessoas e por recursos financeiros.
É notório o esforço que a leitura passou a exigir em decorrência do contato constante com os dispositivos digitais. Não por dificuldade intelectual, mas por algo mais básico: atenção. Aquela atenção contínua, silenciosa, que não rende notificações e curtidas. Muitas pessoas têm sentido na pele esse dilema. Exige-se persistência para resistir à tentação de interromper a leitura, olhar mensagens, notícias ou vídeos. Não porque o livro seja entediante, mas porque o corpo parece estar em constante estado de alerta. A leitura, por outro lado, requer calma.
A dificuldade de manter leitores não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. No artigo “Why Did the Novel-Reading Man Disappear?”, de Joseph Bernstein, publicado pelo jornal The New York Times, o autor questiona por que o leitor de romances desapareceu. O texto passa por livrarias, editores, professores e hábitos de consumo cultural, tentando entender se houve uma perda de interesse pela ficção ou uma mudança mais profunda na forma como as pessoas estão se relacionando com a leitura.
O texto apresenta a oportuna reflexão de que, talvez, o problema central nem seja identificar quem deixou de ler ficção, mas, sim, entender com quais formas de entretenimento esse hábito passou a disputar espaço. De fato, atualmente há concorrência estabelecida não apenas com outros gêneros literários, mas também com a própria hiperconectividade, jogos virtuais, plataformas de apostas, entre outros.
A leitura de uma obra de ficção necessita de empenho. É aceitar que a recompensa não vem de forma imediata. Mas, em certo momento, algo acontece. A linguagem começa a fazer sentido, os personagens ganham densidade e a leitura deixa de ser tarefa para se tornar uma incrível experiência que amplia o repertório, cria conexões e melhora a capacidade de aprendizado.
Estamos vivendo uma época em que, aparentemente, manter foco suficiente para atravessar uma narrativa mais longa se tornou um desafio hercúleo. Isso diz menos sobre preferência literária do que como treinamos (ou abandonamos) nossa capacidade de concentração.
Fonte: Stefano Ribeiro Ferri - Especialista em Direito do Consumidor. Relator da 6ªTurma do Tribunal de Ética da OAB/SP e membro da Comissão de Direito Civil da OAB - Campinas. Formado em direito pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP).
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