Artigos
Transformação do trabalho na era da IA: estamos preparando as mulheres para as carreiras do futuro?
Por décadas, discutimos o impacto da tecnologia no mercado de trabalho como uma tendência distante. Hoje, com o avanço acelerado da inteligência artificial, essa transformação deixou de ser previsão para se tornar realidade concreta. A questão central não é mais se as profissões vão mudar, mas quem estará preparado para ocupar os novos espaços que surgem. E, nesse ponto, é inevitável perguntar: as mulheres estão sendo incluídas nessa transição?
Estudos recentes reforçam a magnitude dessa mudança. Relatório do World Economic Forum estima que, até 2027, cerca de 83 milhões de empregos serão eliminados globalmente, enquanto 69 milhões de novas funções devem ser criadas, resultando em um saldo líquido negativo, mas com profunda reconfiguração das ocupações. Já a McKinsey & Company aponta que até 30% das atividades de trabalho podem ser automatizadas até o fim da década, especialmente aquelas baseadas em tarefas repetitivas e previsíveis.
Entre as carreiras mais suscetíveis ao desaparecimento ou à transformação estão funções administrativas, operacionais e de atendimento básico, como assistentes de escritório, caixas, operadores de telemarketing e trabalhadores de linha de produção. Essas ocupações compartilham um padrão: dependem de processos estruturados e de baixa complexidade cognitiva, exatamente o tipo de atividade que sistemas de IA e automação conseguem replicar com eficiência crescente.
Por outro lado, surgem novas carreiras que exigem um conjunto completamente diferente de habilidades. Profissões como cientista de dados, engenheiro de machine learning, especialista em cibersegurança, analista de inteligência artificial, designer de experiência do usuário e especialistas em ética de IA estão entre as mais demandadas. Segundo o relatório “Future of Jobs”, também do World Economic Forum, as habilidades mais valorizadas passam a ser pensamento analítico, criatividade, alfabetização tecnológica e capacidade de aprendizado contínuo.
O problema é que essa transição não acontece de forma igualitária. Dados da UNESCO indicam que apenas cerca de 30% dos profissionais em áreas de tecnologia no mundo são mulheres. Quando olhamos especificamente para inteligência artificial, esse número é ainda menor. Um estudo do Stanford University mostra que menos de 25% dos pesquisadores em IA são mulheres, evidenciando um desequilíbrio significativo justamente no setor que mais cresce.
Essa sub-representação não é fruto de falta de capacidade, mas de barreiras estruturais. Desde cedo, meninas são menos incentivadas a seguir carreiras em ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Ao longo da vida profissional, enfrentam desafios adicionais, como falta de modelos de referência, ambientes corporativos pouco inclusivos e desigualdade de oportunidades.
Ao mesmo tempo, há um paradoxo preocupante. Segundo a International Labour Organization, as mulheres estão mais concentradas em funções administrativas e de suporte, exatamente aquelas com maior risco de automação. Isso significa que, sem políticas de requalificação direcionadas, elas podem ser desproporcionalmente impactadas pela perda de empregos.
Por outro lado, a própria IA abre uma janela inédita de oportunidade. Ferramentas digitais, plataformas de ensino online e iniciativas de capacitação têm reduzido barreiras de entrada, permitindo que mais mulheres migrem para áreas tecnológicas. Programas de requalificação, bootcamps e políticas corporativas de diversidade já demonstram resultados positivos em diferentes países.
A questão, portanto, não é apenas se as mulheres estão preparadas, mas se estão tendo acesso às ferramentas necessárias para se preparar. A resposta, hoje, ainda é desigual. Há avanços importantes, mas insuficientes diante da velocidade da transformação.
Ignorar essa lacuna não é apenas um problema social, é também um erro econômico. Diversos estudos mostram que equipes diversas produzem mais inovação e melhores resultados. Em um cenário em que a criatividade e a capacidade de resolver problemas complexos são diferenciais competitivos, excluir metade da população desse processo é um desperdício que o mercado não pode se dar ao luxo de cometer.
O futuro do trabalho será moldado pela inteligência artificial, mas também pelas escolhas que fazemos agora. Garantir que mulheres estejam no centro dessa transformação não é uma questão de inclusão simbólica, é uma estratégia essencial para construir uma economia mais dinâmica, justa e preparada para os desafios do século XXI.
Sobre Patrícia Aiello
Patrícia Aiello é executiva do mercado financeiro com mais de 20 anos de experiência em instituições como Itaú Personnalité, Modal Premium e Warren Investimentos, onde liderou equipes comerciais, expansão de negócios e estratégias de crescimento. É fundadora e CEO do Grupo Altros, empresa especializada em expansão e estruturação estratégica para o ecossistema financeiro, e presidente do Instituto Brasil Inovação, organização dedicada à educação financeira, economia digital e certificações profissionais.
Também é cofundadora do projeto Elas Tokenizam, iniciativa voltada à autonomia econômica feminina por meio de educação financeira, tecnologia e tokenização de ativos. Sua formação inclui estudos em tecnologias disruptivas pelo Massachusetts Institute of Technology, além de especializações em marketing digital, economia comportamental e liderança ágil.
Mais lidas
-
1ANÁLISE MILITAR
Caça russo Su-35S é considerado superior ao F-16 e F-22 por especialista
-
2FUTEBOL
Náutico vence a Ponte Preta e fica na parte de cima da tabela da Série B do Brasileirão
-
3GASTRONOMIA
Comida di Buteco valoriza verduras em petiscos na 19ª edição; conheça as novidades dos bares
-
4FUTEBOL
Avaí arranca empate com o Sport no último lance na Ilha do Retiro pela Série B
-
5ECONOMIA E PREVIDÊNCIA
INSS inicia pagamento antecipado do 13º salário em 24 de abril; confira o calendário