Artigos

BBB: Por que marcas também viram heróis e vilões na mente do consumidor

Beatriz Ambrosio, CEO e fundadora da Mention 17/04/2026
BBB: Por que marcas também viram heróis e vilões na mente do consumidor
Beatriz Ambrosio, CEO e fundadora da Mention - Foto: Divulgação

O sucesso recorrente do Big Brother Brasil ajuda a iluminar um fenômeno que vai muito além do entretenimento e diz respeito diretamente à forma como pessoas, e também marcas, são percebidas. A dinâmica que transforma participantes em heróis, vilões ou anti-heróis dentro do programa não fica restrita à casa mais vigiada do país; ela se repete, com surpreendente consistência, no universo corporativo, onde empresas também disputam atenção e preferência ocupando papéis simbólicos na mente do público.

A cada edição, ainda que os participantes mudem, certos perfis reaparecem com familiaridade, como o estrategista, o injustiçado, o protagonista carismático, o antagonista. Essa recorrência não é coincidência, mas reflexo de arquétipos narrativos profundamente enraizados no imaginário coletivo, que organizam a leitura de comportamentos, conflitos e decisões, funcionando como atalhos cognitivos em ambientes complexos e imprevisíveis.

Diante de uma realidade fragmentada e acelerada, o público não acompanha apenas acontecimentos, ele busca sentido. E esse sentido se constrói a partir de histórias reconhecíveis, que permitam identificar rapidamente quem gera empatia, quem provoca rejeição e quem merece torcida, mesmo sem um conhecimento aprofundado sobre os envolvidos. Mais do que fatos, são as narrativas que sustentam o engajamento.

No ambiente corporativo, empresas também são percebidas a partir dessas mesmas lentes simbólicas. Quando conseguem construir posicionamentos claros, deixam de ser apenas fornecedoras de produtos ou serviços e passam a ocupar territórios narrativos na mente do público, seja como agentes de transformação, referências de confiança ou vozes provocativas dentro de seus mercados.

Dados da Sprout Social indicam que 64% dos consumidores desejam se conectar com marcas nas redes sociais, sinalizando uma mudança importante de expectativa: não basta estar presente, é preciso ser relevante dentro de uma narrativa que faça sentido. Essa identificação, quando bem construída, influencia diretamente o comportamento, já que, segundo o estudo, 76% dos consumidores tendem a escolher marcas com as quais se sentem conectados, mesmo diante de alternativas semelhantes.

Narrativas que não se sustentam na prática rapidamente se desgastam, comprometendo a credibilidade e dificultando a formação de vínculos consistentes. Isso acontece porque arquétipos não são rótulos que podem ser simplesmente adotados, mas expressões de identidade que exigem coerência ao longo do tempo. Um levantamento da PwC mostra que 66% dos CEOs se preocupam com a confiança dos stakeholders em pelo menos uma área do negócio, um indicativo claro de que reputação e consistência passaram a impactar diretamente o desempenho das organizações.

Entre os diferentes perfis possíveis, o anti-herói se destaca por reunir qualidades e contradições, o que o torna mais humano, menos previsível e altamente engajador, uma lógica que também se aplica às marcas, já que posicionamentos que assumem imperfeições ou desafiam consensos podem gerar conexões mais profundas, desde que sustentados por clareza de propósito e consistência. O conflito também é central na construção de relevância, no Big Brother Brasil, são as tensões que mantêm o interesse do público, enquanto, no mercado, marcas que assumem posições se tornam mais reconhecíveis, ao contrário daquelas que se diluem por falta de definição.

Portanto, assim como a percepção do público pode mudar ao longo do programa, movimentos de reposicionamento também são possíveis no ambiente corporativo, embora exijam revisões profundas em produto, experiência e cultura organizacional, tornando esse processo mais complexo e gradual. No fim, o que o Big Brother Brasil escancara é que pessoas e consumidores não se conectam apenas com fatos, mas com histórias que façam sentido dentro de suas referências. Marcas que compreendem essa dinâmica conseguem ocupar espaços mais claros e relevantes na mente do público, enquanto as demais correm o risco de se tornarem coadjuvantes em um cenário cada vez mais competitivo.

*Beatriz Ambrosio é CEO e fundadora da Mention, a primeira e maior plataforma SaaS de Relações Públicas do Brasil. Com uma carreira focada em Relações Públicas e tecnologia, além de um mestrado e doutorado em Comunicação Corporativa, ela tem como objetivo transformar o mercado de RP, tornando-o acessível, mensurável e eficaz. Beatriz busca ampliar as fronteiras da comunicação corporativa, mostrando que é possível alcançar alto impacto e baixo custo, especialmente para startups, PME e profissionais autônomos que sabem que investir em reputação é essencial para o crescimento