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O bloco da nêga fulô homenageia o moleque namorador
Uma cidade não é feita apenas de prédios, ruas, praças, parques, praias e jardins. Toda cidade possui uma alma criada por suas figuras humanas, por seus costumes por suas histórias.
Na charmosa, adorável e alegre Maceió conheci e convivi com moradores notáveis; às vezes anônimos, às vezes famosos, que muito contribuíram com os genes dessa cidade.
Escrevi histórias em diversas épocas, histórias de figuras que viveram ou vivem e fazem parte da alma de minha Maceió.
Uma figura lendária que perambulou pela cidade, um festeiro, carnaval para ele era uma celebração divina; gostava de se divertir e de mulheres, seu apelido logo pegou. Quando organizavam uma festa, era imprescindível convidar o Moleque Namorador.
Armando Veríssimo Ribeiro seu nome, nascido na cidade de São Luis de Quitunde, ainda criança sua família transferiu-se para Maceió. O menino experto conseguiu trabalho vendendo jornais, mas preferiu tornar-se engraxate na Rua do Comércio, quando conheceu Gonguila, dono do Bloco Cavaleiro dos Montes, também engraxate e conhecido como o mais animado folião da cidade.
Armando, negro, simpático, deu-se bem no serviço de engraxate, juntou-se aos meninos de rua, os maloqueiros, moleques. Armando tornou-se um líder entre os pivetes miseráveis nas ruas.
Engraxava sapatos muito bem, conseguia gorjetas entre os elegantes de fino trato da cidade. Sentiu-se independente, ajudava em casa, era livre.
Certa vez, Gonguila estava precisando de um pandeirista, levou o Moleque para o Bloco Cavaleiro dos Montes. No Bloco, Armando arrasou, se adaptou tocava bem qualquer instrumento, tornou-se sambista, batuqueiro. No período do carnaval transformou-se em passista; era o campeão absoluto do frevo. Em todos os concursos, conseguia o primeiro lugar; derrotou num concurso de passo o negro Gia, vitorioso, conhecido, famoso passista pernambucano.
Aos dezoito anos, enfrentou o Concurso de Passo, realizado no Teatro Deodoro tendo como jurados: o Capitão Mário Lima, o sociólogo Manuel Diegues Júnior e Pedro Rocha. Armando, o Moleque Namorador foi classificado em primeiro lugar, representando o Clube Carnavalesco Cavaleiro dos Montes.
A partir dessa vitória, o exímio dançarino ficou conhecido no meio artístico. Várias companhias de Teatro de Revista do Recife, do Rio de Janeiro e de São Paulo, o convidaram para integrar o seu elenco. A boate Night and Day, da Cinelândia, queria que ele nos palcos cariocas.
O Moleque Namorador tornou-se conhecido em todo o Brasil, diversos repórteres de revistas e jornais, chegaram a Maceió para entrevistar o fenômeno; entrevistas e fotografias foram publicadas na revista O Cruzeiro, a revista mais importante do Brasil. Mas Armando não aceitou sair de sua vidinha de Maceió. Desde que começou a ganhar uns trocados a mais, passou a se integrar em grupos musicais medíocres da periferia e a frequentar as gandaiais nos cabarés.
As mulheres não o resistiam. Foi um verdadeiramente conquistador, farrista de tempo integral, acabou seu organismo antes dos trinta anos.
O moleque orgulhava-se de ser o maior dançarino das Alagoas; arrasava nos salões da capital, reinava tanto no Teatro Deodoro, como nos clubes de elite, mas, se sentia bem era nas boates, onde era bem aceito e respeitado e não havia quem o igualasse no tango argentino.
Depois dessa vida desregrada, o Moleque Namorador faleceu aos trinta anos, vítima de tuberculose pulmonar. Suas últimas horas foram na residência dos pais, na Rua Xavier de Brito, bairro do Prado, Maceió.
Em 1961, o então Prefeito de Maceió, Sandoval Caju, construiu uma pequena praça homenageando, Armando, um eclético artista alagoano, além de ter sido o maior passista, dançava o tango e o samba como ninguém. Cantor, tocava qualquer instrumento que caísse em suas mãos. Hoje está lá edificada na Ponta Grossa a Praça Moleque Namorador.
E nesse Carnaval de 2026 o Bloco da Nêga Fulô que desfila domingo 15 à tarde na Orla, vai homenagear, nosso herói da cultura popular, herói do povo, o Moleque Namorador.
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