Alagoas

Marina de JHC promete Mounjaro no SUS, mas fala expõe despreparo sobre custos e funcionamento do sistema

Candidata ao Senado promete buscar recursos para distribuir medicamento contra obesidade e afirma que tratamento seria “a forma mais barata”; números, regras do SUS e até frequência de aplicação colocam declaração sob questionamento

Redação 01/09/2026
Marina de JHC promete Mounjaro no SUS, mas fala expõe despreparo sobre custos e funcionamento do sistema

Poucos dias depois de afirmar publicamente que está “muito preparada” para representar Alagoas no Senado, a candidata Marina Candia (PSDB) fez uma declaração sobre saúde pública que expõe contradições técnicas e financeiras justamente em uma área que ela apresenta como uma de suas principais vitrines eleitorais.

Em vídeo publicado nas redes sociais do perfil  do instagram @acheimaceio e @_miguelcalheiros, Marina afirmou que pretende “trazer recurso” para disponibilizar Mounjaro pelo SUS, utilizando a estrutura do programa Saúde da Gente. Até aí, a proposta de ampliar o acesso da população a novos tratamentos é legítima.

O problema aparece na justificativa utilizada pela candidata.

Ao defender a ideia, Marina classificou o uso do medicamento como “a forma mais barata” de combater a obesidade e estabeleceu uma comparação direta com a cirurgia bariátrica.

A afirmação, feita sem apresentar qualquer estudo de impacto financeiro, número de pacientes, critério de seleção ou fonte permanente de custeio, não encontra sustentação nos dados disponíveis e revela uma preocupante simplificação de um problema complexo de saúde pública.

Mounjaro custa milhares de reais por paciente

Mounjaro é o nome comercial da tirzepatida, medicamento produzido pela Eli Lilly.

Atualmente, uma caixa com quatro aplicações custa, dentro do programa de descontos da própria fabricante, entre R$ 1.422,52 e R$ 3.499, dependendo da dosagem. O preço máximo ao consumidor autorizado chega a R$ 3.854,43.

E aqui surge a primeira contradição da fala da candidata: não se trata de um medicamento utilizado durante algumas semanas.

A própria Anvisa define a tirzepatida como tratamento para controle crônico do peso. A aplicação é realizada uma vez por semana. As doses de manutenção recomendadas incluem 5 mg, 10 mg e 15 mg.

Tomando apenas os atuais preços de varejo com desconto como referência — e deixando claro que compras governamentais poderiam conseguir valores menores — um ano de tratamento com 52 aplicações representaria aproximadamente:

na dose de 5 mg: R$ 23,1 mil por paciente/ano;

na dose de 10 mg: R$ 35 mil por paciente/ano;

na dose de 15 mg: R$ 45,5 mil por paciente/ano.

Com apenas 10 mil pacientes, portanto, a conta poderia atingir centenas de milhões de reais por ano, dependendo das doses e do preço negociado pelo poder público.

E seria uma despesa recorrente.

Não basta comprar o medicamento uma vez. A candidata fala de uma política pública que, se implantada em escala significativa, exigiria financiamento continuado, consultas, acompanhamento nutricional, avaliação médica, exames e estrutura de dispensação.

Nada disso foi explicado na declaração.

Dizer que é “mais barato” que cirurgia não é tão simples

Marina foi além. Disse que o medicamento seria uma alternativa mais barata e mais saudável do que, em determinados casos, realizar cirurgia.

A comparação é tecnicamente problemática.

A cirurgia bariátrica não é indicada indistintamente para qualquer pessoa com obesidade. O próprio Ministério da Saúde estabelece critérios específicos e prevê o procedimento especialmente para situações de obesidade grave, depois de tratamento clínico longitudinal e avaliação multiprofissional.

Portanto, Mounjaro e cirurgia bariátrica sequer disputam necessariamente o mesmo universo de pacientes.

Além disso, a tabela federal utilizada pelo SUS apresenta valores de referência de R$ 4.350 para gastroplastia com derivação intestinal, R$ 4.095 para gastrectomia vertical e R$ 6.145 para cirurgia bariátrica por videolaparoscopia. Esses valores são referências de financiamento do SUS e não representam necessariamente todo o custo econômico de uma cirurgia e de seu acompanhamento. Ainda assim, demonstram por que é imprudente afirmar, sem estudo comparativo, que um medicamento que pode custar dezenas de milhares de reais por paciente todos os anos é simplesmente “a forma mais barata”.

A própria Conitec já vem alertando para o problema financeiro dos medicamentos modernos usados no tratamento da obesidade.

Em discussões recentes sobre essa classe de tratamentos, representantes do sistema público apontaram impactos orçamentários elevados e até considerados proibitivos em determinados cenários. Em 2025, por exemplo, a Conitec recomendou que a liraglutida não fosse incorporada ao SUS para obesidade associada ao diabetes tipo 2, entre os motivos, pelos elevados custos adicionais e pelo impacto financeiro da incorporação.

Ou seja: enquanto os próprios órgãos técnicos responsáveis por avaliar medicamentos para o SUS discutem cuidadosamente custo-efetividade e impacto bilionário de terapias para obesidade, Marina resumiu o assunto dizendo que Mounjaro seria “a forma mais barata”.

Aplicação é semanal, não mensal

Outro trecho chama atenção.

Ao explicar como funcionaria o acompanhamento pelo Saúde da Gente, Marina afirma que o paciente passaria por nutricionista e iria “todos os meses fazer aplicação”.

Se a candidata estava efetivamente descrevendo a frequência de aplicação do Mounjaro, há um erro técnico.

Segundo a Anvisa, a tirzepatida é administrada uma vez por semana, começando normalmente com 2,5 mg semanais e seguindo posteriormente para 5 mg, com possíveis aumentos progressivos conforme avaliação médica.

Se Marina pretendia dizer que o paciente compareceria mensalmente apenas para acompanhamento, sua frase foi, no mínimo, imprecisa.

Para uma candidata que apresenta uma proposta de saúde como bandeira eleitoral e diz pretender levá-la para todo o Estado, a diferença não é irrelevante.

Senadora não incorpora medicamento ao SUS

Há ainda outra confusão na promessa.

Um senador pode apresentar projetos, participar da elaboração do Orçamento da União e destinar emendas parlamentares para ações de saúde. Estados e municípios, inclusive, podem receber recursos provenientes dessas emendas.

Mas um senador não decide sozinho colocar determinado medicamento no SUS.

A própria Anvisa esclarece que a disponibilização do Mounjaro no Sistema Único de Saúde depende de avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) e posterior decisão do Ministério da Saúde.

Essa análise envolve justamente aquilo que desaparece no discurso eleitoral de Marina: eficácia, segurança, população beneficiada, custo-efetividade e impacto sobre o orçamento público.

Saúde da Gente existe — mas promessa é outra dimensão

Marina tem relação histórica com o Saúde da Gente. A própria Prefeitura de Maceió a identifica como idealizadora ou embaixadora de ações relacionadas ao programa, que já realizou atendimentos em diversas áreas da saúde municipal.

Isso, contudo, não resolve a questão financeira.

Uma coisa é oferecer consultas, exames e determinados procedimentos dentro de uma estrutura municipal já existente.

Outra completamente diferente é assumir o fornecimento continuado de um medicamento de alto custo para milhares de pessoas.

Para transformar a declaração em política pública séria, Marina precisaria responder perguntas elementares:

Quantas pessoas seriam atendidas?

Quais seriam os critérios médicos?

Qual seria o custo por paciente?

Quanto o programa custaria por ano?

De onde sairia o recurso quando as emendas terminassem?

Quem financiaria a continuidade do tratamento?

E qual estudo permite afirmar que o Mounjaro é a alternativa “mais barata” para combater a obesidade?

Nenhuma dessas respostas apareceu na fala.

“Muito preparada”?

O episódio ganha uma ironia política adicional porque, recentemente, Marina declarou estar “muito preparada” para ocupar uma cadeira no Senado Federal.

Preparação para o Senado, entretanto, não se mede apenas pela capacidade de apresentar boas intenções.

Especialmente quando se fala em saúde pública, é preciso conhecer orçamento, atribuições constitucionais, protocolos médicos e funcionamento do SUS.

Defender que pessoas de baixa renda tenham acesso aos medicamentos mais modernos contra a obesidade é uma discussão legítima e necessária.

Vender essa ideia como se fosse simplesmente a opção “mais barata”, sem apresentar uma única conta, é outra coisa.

A fala de Marina não demonstra que a proposta seja impossível. Demonstra algo talvez mais preocupante para quem pretende legislar e decidir sobre bilhões de reais do orçamento federal: a candidata apresentou como solução simples uma política extremamente cara, tecnicamente complexa e que sequer depende exclusivamente de um senador para ser executada.

No mínimo, faltou fazer a conta antes de fazer a promessa.