Alagoas
JHC falta à sabatina da TV Gazeta e amplia questionamento: o que o candidato teme da imprensa?
Representantes da candidatura participaram da reunião que definiu regras e calendário das entrevistas; ausência ocorre um dia depois de Renan Filho cobrar publicamente que adversário saia das redes sociais e aceite perguntas e debates
A ausência de JHC (PSDB) de uma entrevista previamente marcada pela TV Gazeta, na manhã desta terça-feira (1º), acrescentou um novo capítulo a uma pergunta que começa a ganhar espaço na campanha eleitoral de Alagoas: por que um candidato que pretende governar o Estado evita situações em que precisa responder, ao vivo, às perguntas da imprensa?
JHC seria o primeiro entrevistado da série de sabatinas promovida pela Organização Arnon de Mello (OAM). A entrevista estava marcada para as 7h30, no Bom Dia Alagoas, teria duração de 30 minutos e seria conduzida pelo jornalista Wyderlan Araújo. O candidato, porém, não apareceu.
Não se tratava de um convite improvisado. Segundo a própria Gazeta, data, ordem e regras das entrevistas foram discutidas previamente em reunião na sede da TV Gazeta, da qual participaram representantes de todos os candidatos ao Governo — inclusive da candidatura de JHC. A ordem foi definida por sorteio.
A assessoria de JHC comunicou apenas na noite de segunda-feira (31) que ele não poderia comparecer no horário e na data estabelecidos. A Gazeta informou a ausência no ar e também em seu portal.
No vídeo da transmissão, o constrangimento é evidente. O apresentador informa aos telespectadores que JHC, sorteado para iniciar a série, decidiu não comparecer. O jornalista lamenta que, com isso, o eleitor deixe de ter aquela oportunidade de conhecer melhor o candidato, suas propostas e o que pretende fazer caso seja eleito governador.
Não era uma entrevista adversária
Esse detalhe torna a ausência politicamente ainda mais significativa.
A TV Gazeta não havia organizado um confronto entre candidatos nem um ambiente diferenciado para JHC. Todos receberam o mesmo espaço e estarão submetidos ao mesmo formato.
Lenilda Luna (UP) será entrevistada nesta quarta-feira (2), Márcio Jambo (Democrata) na quinta-feira (3) e Renan Filho (MDB) encerrará a rodada na sexta-feira (4). As entrevistas têm 30 minutos e foram organizadas justamente para que os candidatos apresentem propostas e respondam a questionamentos de interesse da população.
A ausência ocorreu justamente em um dos mais tradicionais grupos de comunicação de Alagoas. A Gazeta de Alagoas foi fundada em 1934 e é reconhecida como o diário mais antigo ainda em circulação no Estado.
Portanto, não faltou espaço. Não faltou convite. Não faltou antecedência. Não houve mudança repentina nas regras.
Faltou o candidato.
Das redes sociais para as perguntas sem roteiro
A situação coloca em evidência uma diferença fundamental entre propaganda eleitoral e jornalismo.
Nas redes sociais próprias, o candidato escolhe o assunto, a imagem, o enquadramento, a edição e o momento da publicação. Uma entrevista ao vivo funciona de outra maneira: há perguntas, contrapontos, pedidos de esclarecimento e questões que não necessariamente estão previstas no roteiro de campanha.
É justamente nessa circunstância que o eleitor consegue observar não apenas o discurso preparado, mas também a capacidade do candidato de explicar projetos, sustentar afirmações e responder sobre temas incômodos.
E é nesse ponto que a ausência de JHC produz um questionamento legítimo: se ele pretende governar mais de três milhões de alagoanos, por que não ocupar um espaço de 30 minutos, concedido em condições iguais às dos demais candidatos, para responder à imprensa e falar diretamente ao eleitor?
Não é possível afirmar, sem uma explicação do próprio candidato, que sua ausência decorra de medo de perguntas ou de confrontação. Mas é perfeitamente legítimo perguntar o que levou JHC a abrir mão justamente de um espaço em que não controlaria sozinho o conteúdo da conversa.
Ausência ocorre após cobrança de Renan Filho
O episódio ganhou ainda mais peso porque aconteceu praticamente 24 horas depois de Renan Filho cobrar publicamente do adversário maior participação em entrevistas e debates.
No domingo (30), durante ato político em Maceió, Renan afirmou que JHC deveria sair das redes sociais e aceitar o confronto público de ideias. Em determinado momento, lançou a sequência de perguntas: “Por que ele não debate? Por que ele não dá uma entrevista?”
A declaração partiu de um adversário e, portanto, deve ser entendida no contexto eleitoral. Mas a falta de JHC à entrevista desta terça-feira acabou fornecendo um fato concreto para alimentar justamente a crítica feita na véspera.
E há uma diferença importante: uma coisa é um adversário acusar JHC de fugir das entrevistas. Outra é uma emissora anunciar a sabatina, estabelecer regras com a participação dos representantes das campanhas, reservar 30 minutos ao candidato e, quando chega a hora, a cadeira destinada a ele permanecer vazia.
Quem quer governar também precisa responder
A campanha para governador não pode se resumir a vídeos editados, slogans, ataques aos adversários e publicações cuidadosamente produzidas para as redes sociais.
Governar implica ser questionado.
Implica explicar decisões, enfrentar crises, prestar contas e responder a perguntas que muitas vezes o governante preferiria não ouvir.
Por isso, a ausência de JHC na primeira grande rodada de entrevistas desta fase da campanha vai além de um problema de agenda. Transforma-se em fato político.
A Gazeta abriu o espaço. As regras eram conhecidas. Os representantes das candidaturas participaram da definição do modelo. Os demais candidatos têm suas entrevistas marcadas.
JHC não foi.
Agora, cabe ao candidato explicar ao eleitor não apenas por que faltou à entrevista, mas sobretudo se pretende participar das próximas sabatinas e debates em que as perguntas não serão escolhidas por sua própria campanha.
Porque, numa eleição para governador, aparecer apenas quando se controla a câmera é fácil.
O teste democrático começa quando alguém do outro lado segura o microfone e faz as perguntas.
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